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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 8 - Maio 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 8 - Maio 2021

ÚLTIMAS | "interrupção temporária" da vacina da AstraZeneca

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Presidente do Infarmed confirma a "interrupção temporária" da vacina da AstraZeneca

O presidente do Infarmed, Rui Ivo, acaba de anunciar que a DGS e o Infarmed recomendaram a “interrupção temporária” do processod e vacinação com a vacina da AstraZeneca, tendo por base o princípio da “precaução em saúde pública”. A decisão surge após casos de “reações adversas reportadas em vários países europeus”.

Ainda não foi feita uma ligação entre os casos reportados e a toma da vacina, explicou, mas espera-se que “durante esta semana haja resultados” dessa avaliação. Os casos conhecidos foram discutidos a nível europeu, com a Agência Europeia de Medicamentos e as redes de autoridades responsáveis pelos planos nacionais de vacinação, onde participa a DGS.

A Escola do futuro e a pandemia | Maria Odete Souto

Odete Souto

 Completa-se a 16 março, um ano sobre o encerramento das escolas, por força da pandemia. Nessa altura, as escolas, de todo impreparadas para tal realidade, como de resto toda a sociedade, desdobraram-se em esforços e em apenas um fim de semana, de loucos, particularmente para os/as professores/as, foi possível, alterar todas as formas de trabalho, aprender, batalhar, investigar, colaborar e, na segunda-feira, estar em ensino à distância, a trabalhar online.

Faz parte da nossa essência de ser professor/a, trabalhar com e para os/as alunos/as enão poderíamos deixar que acontecesse de forma diferente. Estávamos a meio de um ano letivo e não os podíamos perder de mão, de olho, dos nossos horizontes e do nosso labor. São a nossa razão de ser.

O tempo foi correndo e com ele as incertezas de regresso e daquilo que poderíamos esperar. A angústia ia aumentando, porque tínhamos consciência que não conseguíamos chegar a todos/as, que a qualidade das aprendizagens deixava muito a desejar e que as assimetrias e desigualdades se iam acumulando. E o cansaço ia-se abatendo sobre tudo e todos/as, sem respostas para o futuro, inclusivamente, no que tocava à avaliação externa, isto é, aos exames. E eis que, finalmente, a tutela se pronuncia, e foi com algum alívio, que todos: alunos/as, pais, professores/as, receberam a notícia da suspensão dos exames do 9º ano e a alteração dos do secundário.

Terminou o ano letivo, sem terminar. Uma coisa muito estranha, porque a vida das escolas é presencial, feita de afetos, partilhas, conflitos e superação. É vida e aprendizagem. E a cada final de ano letivo, há sempre um tempo de maior intimismo, de confidência, de preparação do voo, quais aves migratórias. E não foi possível este voo livre e mais ou menos com rumo. Não foi possível preparar a partida…

Fez-se planos e legislou-se. Era preciso recuperar as aprendizagens, disse-se e escreveu-se. E acreditou-se.

Mas não. Não se recupera assim. Era preciso regressar ao presencial, acolher, avaliar todos/a e cada um/a e começar a caminhar, não deixando ninguém para trás. Todos/as sabíamos que ia ser difícil. E foi.

Vivíamos e vivemos um tempo de incerteza, e tínhamos colhido algumas lições. A escola não era a mesma. Tudo estava diferente: as pessoas, os espaços, a organização escolar. Mas estávamos lá. E ninguém queria o regresso ao confinamento e ao ensino à distância. Mas aconteceu.

Estávamos mais preparados. Mas não podemos ignorar que também mais cansados e mais conscientes das fragilidades de tudo isto. Acumulamos o desgaste do final do ano anterior.

Não era tempo de cruzar os braços e lá fomos à luta, de novo. À distância…

Neste momento, em que os números da pandemia nos dão alguma trégua, é com muita satisfação que vejo haver um plano para reabertura das escolas, a começar pelos mais pequenos, afinal os mais suscetíveise que estão numa fase de crescimento em que a socialização e o brincar são determinantes. E são também aprendizagens escolares. Aprende-se tanto a brincar!

É também com muito agrado que vejo, da parte do ME, o assumir o cancelamento das provas de aferição e das provas finais de ciclo de 9º ano (vulgo exames). Da mesma forma, prevê que os/as alunos do secundário terminem este nível de ensino com a avaliação interna. Coisa diferente será o acesso ao ensino superior.

Aprendeu-se alguma coisa, ou melhor, aprendeu-se muito e é importante que se transforme isto em oportunidade de mudança. De mudança da Escola e do acesso ao Ensino Superior.

Percebemos, hoje mais do que nunca, que temos um mundo em transformação e que é para a mudança que a escola tem que preparar. Que é sempre possível mudar e, por isso, devemos caminhar implicados, mas sem a preocupação de fazer tudo, e tudo perfeito. É importante simplificar e aprender a aprender. É importante perseguir sentidos e aproveitar o digital, não como a solução milagrosa para tudo, mas como uma estratégia e um instrumento de aprendizagem.

Sabemos que nada substituiu os/as professores/as e o presencial. Mas sabemos também que o online pode ser um complemento de tudo isto.

Neste tempo tão exigente para todos/as é preciso confiar nas escolas e nos/as professores/as. É preciso inovar. É preciso partilhar, estudar, aprender.

É importante que se faça aferição das aprendizagens adquiridas, dos danos, de tanta coisa que só poderá ser feita ao longo do tempo.

Mas é também preciso que se valorize os/as professores/as e a carreira docente. É preciso que se adeque os horários laborais para que o trabalho colaborativo e a articulação pedagógica seja um facto. É preciso que haja tempo para formação.

As exigências colocadas hoje aos professores e às escolas obrigam a formação e atualização constantes e a muitos níveis.

Por isso, ao fim de um ano tão exigente para todos/as espero, muito sinceramente, que disto se retirem lições a todos os níveis.

Que os pais e encarregados/as de educação entreguem os seus filhos nas escolas, nas creches, nos Jardins de Infância, com confiança. Que esses mesmos e toda a comunidade percebam que não vencemos a pandemia e, por isso, que todos precisam de cumprir regras sanitárias, já largamente divulgadas, e que o facto de se verem sem os filhos não sirva para irem conviver sem qualquer precaução.

Que as escolas se organizem por forma a constituírem-se como comunidades de aprendizagem que incorporemas culturas locais e a realidade e individualidade de cada criança que habita o aluno, assumindo uma interação transformadora, sem nunca perder de vista as competências essenciais e o perfil do aluno.

Que o reconhecimento e respeito pelos professores e pela escola seja uma realidade e não se traduza em meia dúzia de parangonas colocadas num qualquer pasquim para se desfazer nos primeiros pingos de chuva.

Por fim, sigamos com esperança e responsabilidade.

 

Maria Odete Souto

 

 

OBLIQUIDADES (5) | JAIME MILHEIRO

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Tive um amigo de muitos anos, numa intimidade partilhada desde os tempos do Liceu, com quem sempre ajustei lealdades que dir-se-iam congénitas e não susceptíveis de ocorrentismos ou de alvoroços, cuja memória ainda frequentemente levanto em alegrias e sobressaltos.
Nunca duvidamos um do outro, raramente competíamos, quando discutíamos facilmente recuperavamos perspectivas conciliáveis e identidades verificáveis, mas na vida factos estranhos podem surgir...

(Até o conto do vigário
pode acontecer...)

porventura descalibrados em contingências atrapalhadas.

Um dia, com explicações esforçadas e plausíveis, veio a minha casa pedir-me duzentos contos emprestados.
Era muito dinheiro na altura, um médico no serviço hospitalar ganhava por mês uns doze ou quinze, sabia-o num momento difícil por razões familiares e outras...

(Amigos comuns haviam-me sussurrado
que ter-se-ia deixado encadear
em malabarismos que não devia…)

pelo que me prestei naturalmente a colaborar.

Como não dispunha de tanto dinheiro passei-lhe um cheque de cem.
Visivelmente satisfeito e reconhecido, apesar de pela minha parte não haver qualquer hipótese de desconfiança, ele insistiu em garantir-me todos os cumprimentos de um empréstimo pragmaticamente realizado e entregou-me um cheque pré-datado do mesmo valor, a receber seis meses depois.
Nada de novo aconteceu, sabia pouco dele pelas distâncias naturais da vida...

(Era uma pessoa respeitadíssima
na profissão universitária que exercia...)

mas nada de mau supunha.

Uma semana antes da data do cheque, sem qualquer aviso, ele deixou-me no consultório um envelope com cinquenta contos em notas.
Falou com a empregada cheio de pressa e pediu desculpa da rapidez da passagem, nem procurando contactar-me...

(Se colocasse o cheque
no banco,
o vigarista seria eu…)



e sabendo-me, obviamente, incapaz de o prejudicar.


Rasguei o cheque, esperei por melhores dias, continuei a admirar-lhe a inteligência e a perspicácia, candidamente entendendo e desculpando.
Nunca mais nisso falamos, nas breves ocasiões em que posteriormente nos vimos.
Também nunca tive coragem de por qualquer outro meio lho referir e nunca o contei a ninguém, por eterno respeito ao meu amigo de sempre...

(No Céu não existem números
nem papeladas de contas,
existem amigos antigos
em cordiais distensões...)

que morreu pelos cinquenta, poucos anos depois.

 

 

Histórias avulso | Jaime Froufe Andrade

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(A pandemia pôs-nos à espera do futuro. Parados pelo vírus, talvez seja tempo para percebermos o que deixámos para trás. É essa a proposta de Histórias avulso)

Ele bem a mereceu

Morremos, é um facto. Há quem pense tanto na morte que até se esqueça de viver. Mas também há quem se comporte como se fosse imortal. Temos ainda os que se ficam pelo meio termo. Valorizo quem encara o passamento com serena aceitação. Conheci um caso desses: Fernando Valle, médico, um dos fundadores do Partido Socialista.  

Durante a sua carreira clínica, tornou-se réplica de João Semana. Primeiro a cavalo, depois de carro, deslocava-se aos mais recônditos lugarejos da região onde vivia  para acudir a doentes. E quando verificava que o enfermo não tinha dinheiro para aviar a receita, ele tratava do assunto.  

A caminho dos 100 anos, acedeu a ser biografado pelo jornalista Fernando Madaíl. A obra avançou, ficou pronta. Faltava apenas a foto de capa. Disso se encarregou o fotojornalista Augusto Baptista. Tive a sorte de o poder acompanhar, na sua ida a Côja, Arganil, a casa onde viveu o Dr. Fernando Valle e que serviu também de refúgio a perseguidos pela Pide. Fomos recebidos pelo anfitrião com cordialidade e singeleza. Ele era assim.

Enquanto Augusto Baptista se ocupava a medir a luz e a estudar o melhor enquadramento, eu fui fazendo companhia ao médico. Mostra-me o último livro que o seu amigo Miguel Torga lhe tinha ido lá levar, evoca uma ceia de Natal passada ali com o poeta, deixa fugir o olhar pela janela e… remete-se ao silêncio. Recupera, diz pausadamente: «O Madaíl que se despache... com esta idade posso partir a qualquer momento...». A sereníssima tranquilidade com que fez o reparo  mostrou-me a virtude da aceitação.

Senti-me encorajado a fazer-lhe uma pergunta: homem de vida longa e rica, teria ele ainda algum desejo que gostasse de satisfazer? Era obviamente uma pergunta dirigida para o gosto de ainda poder ver a sua biografia. Olhou-me nos olhos, disse: Por acaso tenho... E a resposta veio: Gostava de ter aquilo a que o povo chama de uma morte santa. Gostava de morrer durante o sono...

Entretanto, Augusto Baptista mostra-se pronto para fotografar. Acerca-se de Fernando Valle, encaminha-o para o sítio que escolhera. Eu atrás, a ver. A sessão começa. Ouvem-se os sucessivos disparos da máquina, intercalados por breves ditos, sagazes e humorados, que o fotojornalista vai dirigindo ao fotografado. O fito é pô-lo à vontade, confortável perante a presença da objectiva. E consegue. A partir desse momento, estão criadas as condições para a captura de boas imagens. Depois é só escolher a melhor.Trabalho concluído, segue-se conversa amena, de circunstância, e depois a despedida.

Quanto à biografia Fernando Valle Um Aristocrata da Esquerda (1) não tardou a sair para gosto do biografado. Pouco depois, ele deixava-nos. Morreu a dormir.

 

Fernando Valle - Um Aristocrata da Esquerda | Âncora Editora

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SMS | Natércia Teixeira

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SMS…Serviço de Mensagens Curtas… comparável apenas, ficcionalmente, a uma invasão alienígena massiva, capaz de deixar Bell desconcertado e pessoas como eu à beira de um ataque de nervos.

Passando adiante a promiscuidade da grafia irritante dos “kkk” que se infiltram e multiplicam como vírus nos textos e envenenam uma língua que não os utiliza, temos outra vertente muito mais séria, suportada por um facilitismo que promove a preguiça.

Há também os que usam este expediente para fins inusitados como fazer propostas indecentes, dirigir insultos ou terminar relações…deixo as considerações sobre estes casos de estudo para os especialistas e vou focar-me num comportamento aparentemente inócuo que todos adquirimos e que por esta altura se parece com um elefante na sala…incontornável estar ali, ninguém sabe muito bem como ali veio parar e também se desconhece como faze-lo sair…enquanto isto parece-me que vamos coletivamente emudecendo e paradoxalmente escrevendo pior.

Neste ponto questiono-me que tipo de comunicação pretendemos ter e se vamos chegar ao cúmulo de precisar reaprender como falar uns com os outros.

Recordo, com os meus nove, dez anos, apreciar as conversas do meu pai com os amigos.

Apareciam lá em casa, sem aviso prévio…antigamente as amizades funcionavam assim sem decreto ou hora marcada, as pessoas apareciam na casa umas das outras e eram recebidas com o que havia…quase sempre nada para além da companhia e de uma cadeira para se sentarem.

Eu ficava por perto a ronda-los, fascinavam-me aquelas conversas de “adultos”…falavam sobre tudo e sobre nada, discutiam as noticias que o meu pai já lera no “Primeiro de Janeiro” que chegava a nossa casa religiosamente todos os dias e que eu abria para ver uma banda desenhada que aparecia nas ultimas páginas…recordo ainda o cheiro da tinta que me pintava os dedos de negro…e o meu pai agastado por lhe estar a estragar a impressão do jornal que não era para  eu “brincar”.

Os amigos, com opiniões nem sempre consensuais, descambavam muitas vezes em acesas discussões em que cada um defendia o seu ponto de vista como se disso dependesse a própria vida…não raras vezes viravam costas uns aos outros e saiam porta fora tão agastados que nada faria supor que uns dias depois ou mesmo no dia seguinte, as injurias fossem esquecidas e as rotinas de tertúlia retomadas com a maior das naturalidades.

Um dia, na incoerência dos meus dez anos, achei que podia entrar na conversa dos “adultos” e dirigi-me ao meu pai para dar uma opinião qualquer…consegui ser posta na ordem, mandada calar e convidada a ir brincar com as bonecas.

Suponho que nos dias de hoje isso fosse motivo para um qualquer trauma…no meu caso, limitei-me a desobedecer e a manter-me por perto…em silêncio… e assim aprendi a escutar.

Aprendi ainda, que a velha máxima de que é a falar que as pessoas se entendem é verdadeira…e que para isso são precisos rostos, expressões, vozes e sons… abdicar deles é amputar o diálogo.

Falar não é conversar, ouvir não é escutar…SMSs não servem para expressar emoções que escapam às palavras.

Desola-me esta incapacidade de se comunicar, é confrangedora esta dificuldade de se falar…é deprimente que tenhamos transformado a poesia de dirigirum “boa noite” a quem gostamos, num manhoso e prosaico emoji, de dúbio sentido.

 

Natércia Teixeira

DUAS DE LETRA - Lourdes dos Anjos | As Carquejeiras | c/ video


Lourdes dos Anjos

Da Calçada da Corticeira à Rampa das Carquejeiras

Lembro-me muito bem delas, das carquejeiras.
Chegavam ao Bonfim no começo da manhã em grupos de três ou quatro
Vestiam de forma estranha. Traziam um xaile com duas pontas que se cruzavam sobre o peito e depois davam um nó nas costas. Amarrado na anca um outro xaile que prendia a saia de roda e lhe amparava o filho que trazia no ventre
Ao seu lado um outro filho uma criança que nunca aprendeu a conjugar os tempos e os modos do verbo BRINCAR e que carregava uma cesta com ovos e limões para vender pelas portas que se abriam
Nos pés descalços uns trapos sujos e muitas vezes ensanguentados para se dizerem magoadas e assim enganar os polícias que aparecessem para as autuar por andarem descalças na cidade.
Claro que vos falo das carquejeiras que iniciavam a sua dolorosa peregrinação na margem direita do Douro, onde a carqueja era descarregada dos barcos rabelos, até às padarias da minha rua do Bonfim: a Santa Clara (que ainda resiste nas mãos da família Coelho), a Padaria Industrial (que deu lugar á vidraria “Carvalho”) e ainda a uma outra no Campo 24 de Agosto, há muito fechada (que chegou a ser propriedade de um irmão da minha mãe.).
Sobre a cabeça, um saco de serapilheira em forma de capuz que as protegia dos picos dos molhos de carqueja seca presos por uma corda que seguravam na testa como humanas éguas de carga.
Não sei como conseguiam equilibrar a montanha que transportavam e vendiam AOS MOLHOS para espevitar a lenha e o carvão dos fornos das padarias , das casas de pasto das redondezas e também de algumas casas "ricas" da Av. Camilo , das ruas dos Duques ou de D. João IV. Em troca recebiam uns míseros trocos que talvez pagassem a malga de caldo da ceia dos filhos.
O caminho do calvário fazia-se subindo a rampa (a pique) da Corticeira, depois atravessavam as Fontainhas e subiam outra (menos íngreme) rampa dos Padeiros onde, com alguma sorte, aliviavam parte da pesada carga
Seguiam-se a Rua do Bonfim e S. Roque da Lameira até á Praça das Flores.
Finalmente, era o regresso e o descanso na escadaria da Igreja do Bonfim para comerem um naco de carne gorda e a broa que traziam no bolso do avental de estopa que as abrigava do frio, da chuva e também do calor dos dias de verão para que o suor não lhes “cortasse” as coxas .
Eram as carquejeiras. Eram as heroínas que conheciam os nomes dos pássaros da Praça da Alegria, das peixeiras que apregoavam o nevoeiro e o mar que traziam nas canastras e até dos guarda noturnos que terminavam o seu trabalho na madrugada e com elas se cruzavam em S. Lázaro, ao cimo da Rua das Fontainhas ou no Largo do Padrão.
Eram as mulheres-ouriço que assustavam as meninas de batinha branca que, pelas nove horas entravam na escola do Campo 24 de Agosto levadas pela mão da "sopeira " de avental colorido e alma virgem de letras e números que só conhecia mesmo a porta desse lugar mágico onde as letras tinham nome e lugar marcado.
Lembrar as Carquejeiras é escrever um hino à coragem, ao amor e à abnegação das Mulheres que ajudaram a escrever a História do Porto e do Douro.
Também com ELAS aprendi lições de VIDA que me ajudaram a crescer e a tentar SER FELIZ.
 
 
 
AS CARQUEJEIRAS .
Amarrava na anca a dor de parir
no peito guardava o amor a florir
ás costas carregava o nascer do fogo
trazia o Douro correndo nas veias e
inventava margens em tempo de cheias
Trepava a escarpa pra chegar à cidade
escondia os pés em trapos rasgados
vendia seus passos no calvário da rua
sobre as pedras vestidas da miséria nua
Guardava na boca o cheiro a pão quente
prometia fartura ao filho abrigado no ventre
escondia o rosto no saco de serapilheira
e fazia do seu corpo uma besta carrejona
Sabia de cor cada janela que se abria
chamava pelo nome os pássaros que ouvia
com eles repartia o seu naco de broa
sonhava o sol em cada negra madrugada
e rezava aos santos uma prece praguejada
Na margem do Douro, os rabelos pariam
as dores de viver que nelas cresciam
Construíam montanhas de carqueja
com ela fizeram armas, sonhos e suor
lágrimas, escravatura , sustento e amor
e iam queimando o fogo da vida em cada dia
Elas foram mães, santas mães como Maria
foram mulheres, amantes e guerreiras
e deram o nome á Rampa das Carquejeiras
 
Lourdes dos Anjos
 

Video RTP

 

CARTA AO INVÍSIVEL | Eduardo Roseira

Eduardo roseira

Baião, 11 de Março de 2021(a)

Olá,

Começo por te dizer que só escrevo cartas aos meus amigos e familiares, mas desta vez tenho que abrir uma excepção e dirijo-me a ti que te sei, mas não conheço, mas acima de tudo porque tenho necessidade de desabafar e de gritar bem alto, por mim e pelos que já não tem voz para fazê-lo. 

Nem imaginas o quanto me estou a conter para te dizer as palavras que me vão na alma. Escrevo-te com mais educação do que aquela que tenho, numa contenção que me custa imenso, pois queria tanto dizer-te tudo o que penso sobre ti e chamar-te todos os insultos que sei e outros mais que, garanto-te, não seriam de difícil invenção.

Como é que um garoto, com pouco tempo de existência, pode ser tão irresponsável e causador de tanto mal, sem olhar a raças, credos, idades e abalar todos os continentes?

Às vezes sinto que estou a fazer parte de um filme de ficção do Spielberg ou a sonhar, mas nem preciso de me beliscar para te dizer que não sou nenhum “ET” e sei que estou bem acordado para a realidade que tu és, realidade que nos cerceou a liberdade em todos os aspectos.

Não te posso perdoar o facto de termos que viver enjaulados, quando a criatura animalesca que tu és, continua à solta.

A palavra ódio nunca fez parte da minha maneira de ser, mas crê que eu odeio-te por tudo o que nos tiraste, ao impedir-nos de dar um simples passeio à beira mar, ou noutro qualquer lugar, de mãos dadas com as pessoas que mais amamos:

- A namorada, a esposa, os filhos, os netos e os nossos velhinhos pais.

Não te posso perdoar, o ter-nos impedido os abraços, os apertos de mão, os carinhos e até a despedida aos entes queridos que mataste e nos impediste de acompanhar na hora da partida para o seu descanso eterno.

            Seu ladrão de vidas e de tempo. Roubaste-nos familiares, amigos e um ano da nossa vida.

      Ao leres estas minhas linhas, espero que tenhas reparado que nunca disse o teu nome, pois os maus, os assassinos como tu, não são merecedores de ter nome, nem número sequer.

            As despedidas nas cartas que escrevo aos familiares e amigos, terminam carinhosamente com beijos e abraços, mas de ti, não me despeço sua praga dum raio-que-te-parta…

                                            

PostScriptum: - O que eu queria mesmo, era encontrar-te cara-a-cara e poder enfrentar-te meu, meu… “sei lá o quê” invisível…para ficares a saber como é a gente deste país!

Eduardo Roseira

 (a)– Ano um do primeiro confinamento.

 

NO TEMPO DO "FAZ DE CONTA" | Arnaldo Trindade

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No tempo do "faz de conta"

açúcar que já não é
sal não é de monta
tudo light até café
 
só as lágrimas que sabem a sal
do salgado mar...que é real
para meu grande desgosto
ter deixado de a poder amar
 
ai que saudade do paladar
das madalenas com chá
em busca do tempo que não há
 
só no fazer de conta
horas de má memória
não ficarão para a história
 
Arnaldo Trindade
 

POLÍTICA | JSD BAIÃO | Sem a Fumaraça que Tapa Deus.

JSD

A vida é, essencialmente, Vontade e Movimento: e naquele pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de forças que se revelam, e que atingem a sua explosão suprema, que é a Forma. Assim grafava Eça. O Grande Eça! Omnipresente (e ciente) Eça!

A Assembleia da República concedeu honras de Panteão Nacional aonosso cógnito escritor, José Maria Eça de Queiroz- memorado pela sua fortuna crítica; pela sua orientaçãocontráriaà Hipocrisia e ao Interesse instalado nas Elites Enfadadasde relações corriqueiras, sem qualquer fundura-recordando a sua dimensão literária.

Pecou pela criação de um grupo de trabalho “com a incumbência de determinar a data a definir e orientar o programa de transladação (dos seus restos mortais), em articulação com as demais entidades públicas envolvidas, bem como um representante da Fundação Eça de Queiroz”! Poucochinho.

Dada a intensão de transladação, como se de um troféu se tratasse, não deveria a família ser ouvida? Pergunto eu. Dada a não representatividade de porção colossal de geração na Fundação.Em contrário a tudo quanto a originou. Não seria, estritamente, imprescindível, a escutarem? Quando muito, por esguardo. Por estima. Por consideração. Contanto, por apreço ou cordialidade. Mostra-se-me, evidentemente, claro. E o povo? Deveria, ou não, ser ouvido? E as Forças Políticas Locais? Deveriam, ou não, ser ouvidas? Haverá pouca exceção para tanta lei? Caber-lhes-á tanta legitimidade legal, capaz de superar valores éticos e morais, de probidade sensualista?

Tenho acompanhado, na medida do exato possível, a luta da família, particularmente por Mui Nobre e Ilustre Amigo António Eça de Queiróz, bisneto, o qual tem feito duras, e certamente sentidas (só não sente quem não é filho de boa gente) críticas, nomeadamente ao atual Presidente da Assembleia Municipal de Baião, como fazendo o papel de “moço de fretes junto à côrte”, sabendo todos que a “política nacional é um coio de favores e a Assembleia da República o seu floor bolsista”. Ou, “estará Lisboa com falta de cálcio”? Vale refletir.

Eça, exalta o Campo Português,com a sua exuberância natural e o seu povo simples, trabalhador e correto. Defende a pobreza dos humildes. Critica o ambiente social e urbano. Queria trazer uma certa, e determinada, civilização ao Interior de Portugal, onde a mentalidade política, seria- por ele então considerada à data- atrasada e absolutista. Julgaria, ao fim de vida, que o Homem só é feliz longe da civilização!

Afinal, acrescentará tal ato (de transladação, escusado será dizer) notabilidade pública maior ao renome que lhe é característico? Respeitada estará a ser a sua forma de estar, mas, e sobretudo,de ser, na Vida? Terá a mentalidade política crescido? Aludindo que, por razões estéticas, detestaria agora saber-se metido naquele par de caixas de sapatos colados uns aos outros com metade de uma melancia a fazer de cúpula, como bem afirma o seu bisneto.

“E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!”

Senhores de Plumas e Pajens,

Quanta esgazeada ansiedade…

 

Óscar João Lúcio

Presidente da Mesa do Plenário da JSD Baião.

POLÍTICA | PS Baião | Recuperar Portugal – Um plano para a Coesão Territorial

ps baião

Recuperar Portugal – um plano para a Coesão Territorial
A pandemia causada pelo novo coronavírus desencadeou além de uma crise sanitária, uma crise económica que vem interromper a trajetória de crescimento vivenciada nos últimos anos em Portugal.
Para auxiliar na resposta aos desafios económicos e sociais emergentes, a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e os dirigentes da União Europeia chegaram a um acordo para o estabelecimento de um instrumento de recuperação de cerca de 750 mil milhões de euros, designado NextGenerationEU. O principal componente deste recurso é o Mecanismo de
Recuperação e Resiliência, dotado de aproximadamente 672 mil milhões de euros em
empréstimos e subvenções para apoio a reformas e investimentos a concretizar pelos países
que integram a União Europeia.
De modo a usufruir deste apoio, Portugal apresentou já o Plano de Recuperação e Resiliência – Recuperar Portugal 2021-2026. Este programa de recuperação dispõe de cerca de 14 mil milhões de euros de subvenções e 2700 milhões de empréstimos cuja execução está prevista até 2026.
A ligação Baião-Ponte da Ermida e a ligação à EN 211 entre Quintã e Mesquinhata são duas das 17 ligações rodoviárias de proximidade previstas neste plano.
A concretização da ligação Baião-Ponte da Ermida é de elevada importância estratégica para a sub-região do Baixo Tâmega e Douro Sul, sendo que há mais de três décadas que a mesma está prevista. Trata-se de um eixo com a extensão de cerca de 13 km, organizado em duas fases: a primeira fase, entre Baião e a EN 108 na zona de Santa Cruz do Douro, seria uma construção de raiz, com cerca de 7 km. A segunda fase, até às proximidades da ponte da Ermida, seria executada através da requalificação do atual troço da EN108, numa extensão correspondente a 6 km.
A inclusão desta infraestrutura no Plano de Recuperação e Resiliência é consistente com um dos seus principais eixos: a promoção da Coesão Territorial. Esta é uma obra fundamental para o desenvolvimento económico não só do concelho de Baião, mas que beneficia também os municípios de Marco de Canaveses, Mesão Frio, Peso da Régua e muito particularmente o
município de Resende, aproximando-o da Área Metropolitana do Porto. Esta nova ligação
constituirá uma oportunidade para reforçar a atratividade destes territórios e também para
facilitar a mobilidade dos cidadãos que neles habitam, melhorando consequentemente a sua
qualidade de vida.
O poder local tem tido um papel ativo e perseverante, expresso nos autarcas Paulo Pereira
(Baião) e Garcez Trindade (Resende) que incansavelmente têm reunido com representantes
governamentais para reforçar a necessidade de concretização deste investimento.
Os apoios europeus acima mencionados constituem uma oportunidade única de impulso à
Coesão Territorial, há muito aguardada pelos territórios de baixa densidade populacional, que
permanecem resilientes na procura de respostas para a ansiada igualdade.

Ana Marta Silva
Membro do Secretariado Concelhio do Partido Socialista de Baião

POLÍTICA | PCP Baião | A incoerência política faz caminho

PCP

Aos baionenses

A incoerência política faz caminho
Corria o ano de 2013, quando em Maio seis freguesias de Baião, Mesquinhata, Ovil, Riba Douro, São Tomé de Covelas, Teixeira, Tresouras, contestaram no Supremo Tribunal Administrativo a agregação de que eram alvo, avançando com três ações para a tentar impedir, processo que teve o apoio da população, ouvida em reuniões com essa finalidade.
Segundo a opinião da liderança da Câmara Municipal, encabeçada na altura pelo presidente socialista José Luís Carneiro, que apoiava a pretensão das freguesias, a acção judicial «contestava a reforma que se caracterizava por graves vícios de legalidade e de constitucionalidade».
A contestação surgida pelo novo mapa administrativo percorreu o País de norte a sul, pois a agregação, na opinião dos autarcas, também decorria sob uma aplicação errada dos critérios patentes nas próprias leis da reforma administrativa, sendo por outro lado um processo imposto à revelia dos legítimos direitos e interesses das populações.
No caso de Baião, afirmava-se que as freguesias não deixariam de esgotar, também, todos os mecanismos legais de reacção que o direito comunitário e o direito internacional lhes facultava, junto do Tribunal de Justiça da União Europeia, da Comissão Europeia e do Congresso dos Poderes Locais e Regionais do Conselho da Europa.
No passado dia 11 de Março de 2021 foi discutido e votado na generalidade na Assembleia da República um Projeto de Lei apresentado pelo PCP que visava repor as freguesias extintas na reforma administrativa de 2013, feita pelo governo de Passos Coelho contra a vontade das populações e órgãos das autarquias locais, como atrás se descreve.
Na opinião do PCP era este o momento certo para reverter a situação não só porque a extinção das freguesias em nada veio beneficiar as populações, mas pelo contrário só prejudicou ainda mais o contacto de proximidade existente entre as juntas de freguesia e os seus fregueses e porque como estamos próximos das eleições autárquicas faria todo o sentido repor as freguesias antes do acto eleitoral, o bom senso assim o indica.
No resultado da votação verificou-se, porém, que o PS juntou-se a toda a direita, PSD, CDS, I L, PAN e o próprio Chega, assim chumbando o Projecto de lei proposto pelos comunistas.
Todo este processo, contudo, não nos deixa muito surpreendidos, se tivermos em conta que há agentes políticos que dizem e votam uma coisa na Assembleia da República e depois dizem e votam o seu contrário nas suas autarquias.
Esta situação, leva-nos, contudo, a pensar porque terá mudado de opinião o deputado baionense José Luis Carneiro que agora votou contra a reposição das freguesias, mas que em 2013 quando ainda era presidente da Câmara de Baião criticou fortemente a forma como o governo da altura conduziu o processo de extinção das seis freguesias do município.
Questionado sobre este assunto o actual executivo camarário baionense através do Presidente da Câmara respondeu que não acha ser o momento ideal para discutir esta inconguência, tendo em conta que temos eleições autárquicas daqui a mais ou menos meio ano.
No entanto e como a aprovação da lei resolveria este problema, qual será então a altura para o discutir? O que nos parece é que a autarquia de Baião, que em 2013 era contra a extinção das freguesias, em 2021 acha que a discussão da reposição das mesmas deve ser feita no dia de São Nunca á Tarde.
12/03/2021
Comissão Concelhia de Baião do PCP