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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 19 - Novembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 19 - Novembro 2021

Últimas | Política | Marcelo veta lei da eutanásia

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O chefe de Estado devolveu, sem promulgação, o decreto que regula as condições em que a morte medicamente assistida não é punível e altera o Código Penal, segundo uma nota publicada esta segunda-feira em Diário da República.

No comunicado, Marcelo pede que o Parlamento clarifique "o que parecem ser contradições" quanto a uma das causas do recurso à morte medicamente assistida. "O decreto mantém, numa norma, a exigência de 'doença fatal' para a permissão de antecipação da morte, que vinha da primeira versão do diploma. Mas, alarga-a, numa outra norma, a 'doença incurável' mesmo se não fatal, e, noutra ainda, a 'doença grave'", lê-se.

Além disso, o Presidente da República pede que a Assembleia da República "repondere a alteração verificada, em cerca de nove meses, entre a primeira versão do diploma e a versão atual, correspondendo a uma mudança considerável de ponderação dos valores da vida e da livre autodeterminação, no contexto da sociedade portuguesa".

Recorde-se que, em fevereiro deste ano, Marcelo enviou para o Tribunal Constitucional o diploma que despenaliza a morte medicamente assistida, para fiscalização preventiva da constitucionalidade. Na sequência do chumbo do Constitucional, o Presidente vetou, em março, a lei da eutanásia.

JN

DUAS DE LETRA - Lourdes dos Anjos | As Carquejeiras | c/ video


Lourdes dos Anjos

Da Calçada da Corticeira à Rampa das Carquejeiras

Lembro-me muito bem delas, das carquejeiras.
Chegavam ao Bonfim no começo da manhã em grupos de três ou quatro
Vestiam de forma estranha. Traziam um xaile com duas pontas que se cruzavam sobre o peito e depois davam um nó nas costas. Amarrado na anca um outro xaile que prendia a saia de roda e lhe amparava o filho que trazia no ventre
Ao seu lado um outro filho uma criança que nunca aprendeu a conjugar os tempos e os modos do verbo BRINCAR e que carregava uma cesta com ovos e limões para vender pelas portas que se abriam
Nos pés descalços uns trapos sujos e muitas vezes ensanguentados para se dizerem magoadas e assim enganar os polícias que aparecessem para as autuar por andarem descalças na cidade.
Claro que vos falo das carquejeiras que iniciavam a sua dolorosa peregrinação na margem direita do Douro, onde a carqueja era descarregada dos barcos rabelos, até às padarias da minha rua do Bonfim: a Santa Clara (que ainda resiste nas mãos da família Coelho), a Padaria Industrial (que deu lugar á vidraria “Carvalho”) e ainda a uma outra no Campo 24 de Agosto, há muito fechada (que chegou a ser propriedade de um irmão da minha mãe.).
Sobre a cabeça, um saco de serapilheira em forma de capuz que as protegia dos picos dos molhos de carqueja seca presos por uma corda que seguravam na testa como humanas éguas de carga.
Não sei como conseguiam equilibrar a montanha que transportavam e vendiam AOS MOLHOS para espevitar a lenha e o carvão dos fornos das padarias , das casas de pasto das redondezas e também de algumas casas "ricas" da Av. Camilo , das ruas dos Duques ou de D. João IV. Em troca recebiam uns míseros trocos que talvez pagassem a malga de caldo da ceia dos filhos.
O caminho do calvário fazia-se subindo a rampa (a pique) da Corticeira, depois atravessavam as Fontainhas e subiam outra (menos íngreme) rampa dos Padeiros onde, com alguma sorte, aliviavam parte da pesada carga
Seguiam-se a Rua do Bonfim e S. Roque da Lameira até á Praça das Flores.
Finalmente, era o regresso e o descanso na escadaria da Igreja do Bonfim para comerem um naco de carne gorda e a broa que traziam no bolso do avental de estopa que as abrigava do frio, da chuva e também do calor dos dias de verão para que o suor não lhes “cortasse” as coxas .
Eram as carquejeiras. Eram as heroínas que conheciam os nomes dos pássaros da Praça da Alegria, das peixeiras que apregoavam o nevoeiro e o mar que traziam nas canastras e até dos guarda noturnos que terminavam o seu trabalho na madrugada e com elas se cruzavam em S. Lázaro, ao cimo da Rua das Fontainhas ou no Largo do Padrão.
Eram as mulheres-ouriço que assustavam as meninas de batinha branca que, pelas nove horas entravam na escola do Campo 24 de Agosto levadas pela mão da "sopeira " de avental colorido e alma virgem de letras e números que só conhecia mesmo a porta desse lugar mágico onde as letras tinham nome e lugar marcado.
Lembrar as Carquejeiras é escrever um hino à coragem, ao amor e à abnegação das Mulheres que ajudaram a escrever a História do Porto e do Douro.
Também com ELAS aprendi lições de VIDA que me ajudaram a crescer e a tentar SER FELIZ.
 
 
 
AS CARQUEJEIRAS .
Amarrava na anca a dor de parir
no peito guardava o amor a florir
ás costas carregava o nascer do fogo
trazia o Douro correndo nas veias e
inventava margens em tempo de cheias
Trepava a escarpa pra chegar à cidade
escondia os pés em trapos rasgados
vendia seus passos no calvário da rua
sobre as pedras vestidas da miséria nua
Guardava na boca o cheiro a pão quente
prometia fartura ao filho abrigado no ventre
escondia o rosto no saco de serapilheira
e fazia do seu corpo uma besta carrejona
Sabia de cor cada janela que se abria
chamava pelo nome os pássaros que ouvia
com eles repartia o seu naco de broa
sonhava o sol em cada negra madrugada
e rezava aos santos uma prece praguejada
Na margem do Douro, os rabelos pariam
as dores de viver que nelas cresciam
Construíam montanhas de carqueja
com ela fizeram armas, sonhos e suor
lágrimas, escravatura , sustento e amor
e iam queimando o fogo da vida em cada dia
Elas foram mães, santas mães como Maria
foram mulheres, amantes e guerreiras
e deram o nome á Rampa das Carquejeiras
 
Lourdes dos Anjos
 

Video RTP

 

Eça de Queiroz | Quando dá jeito....

Eça-de-Queirós

 

A 25 de Novembro de 1845, nasce, na Póvoa de Varzim, o escritor e diplomata português José Maria Eça de Queiroz (1845-1900), autor de "Os Maias", "A Ilustre Casa de Ramires" e de tantas outras obras.

Escritor português, José Maria Eça de Queirós nasceu a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim, filho de um magistrado, também ele escritor, e morreu a 16 de Agosto de 1900, em Paris. É considerado um dos maiores romancistas de toda a literatura portuguesa, o primeiro e principal escritor realista português, renovador profundo e perspicaz da nossa prosa literária.
Entrou para o Curso de Direito em 1861, em Coimbra, onde conviveu com muitos dos futuros representantes da Geração de 70, já então aglutinados em torno da figura carismática de Antero de Quental, e onde acedeu às recentes ou redescobertas correntes ideológicas e literárias europeias: o Positivismo, o Socialismo, o Realismo-Naturalismo, sem, contudo, participar activamente na que seria a primeira polémica dessa geração, a Questão Coimbrã (1865-1866).
Terminado o curso, iniciou a sua experiência jornalística como redactor do jornal O Distrito de Évora (1866) e como colaborador na Gazeta de Portugal, onde publicou muitos dos textos - indiciadores de uma nova estilística imaginativa - postumamente reeditados no volume das Prosas Bárbaras. Em 1867 fundou o jornal O Distrito de Évora. No final desse ano, formou-se o "Cenáculo", de que viriam a fazer parte, nesta primeira fase, além de Eça, Jaime Batalha Reis, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e Salomão Saragga, entre outros. Após uma viagem pelo Oriente, para assistir à inauguração do canal de Suez como correspondente do Diário Nacional, regressou a Lisboa, onde participou, com Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, na criação do poeta satânico Carlos Fradique Mendes e escreveu, em 1870, em parceria com Ramalho Ortigão, o Mistério da Estrada de Sintra. No ano seguinte, proferiu a conferência "O Realismo como nova expressão da Arte", integrada nas Conferências do Casino Lisbonense e produto da evolução estética que o encaminha no sentido do Realismo-Naturalismo de Flaubert e Zola, com influência das doutrinas de Proudhon e Taine. No mesmo ano, iniciou, novamente com Ramalho, a publicação de As Farpas, crónicas satíricas de inquérito à vida portuguesa. Em 1872, iniciou também a sua carreira diplomática, ao longo da qual ocuparia o cargo de cônsul sucessivamente em Havana (1872), Newcastle (1874), Bristol (1878) e Paris (1888). O afastamento do meio português - aonde só ia muito espaçadamente - não o impediu de colaborar na nossa imprensa, com crónicas e contos, em jornais como A Actualidade, a Gazeta de Notícias, a Revista Moderna, o Diário de Portugal, e de fundar a Revista de Portugal (1889), dando-lhe um critério de observação mais objectivo e crítico da sociedade portuguesa, sobretudo das camadas mais altas. Aliás, foi em Inglaterra que Eça escreveu a parte mais significativa da sua obra, através da qual se revelou um dos mais notáveis artistas da língua portuguesa. Foi, pois, com o distanciamento crítico que a experiência de vida no estrangeiro lhe permitiu que concebeu a maior parte da sua obra romanesca, consagrada à crítica da vida social portuguesa, de onde se destacam O Primo Basílio (1878), O Crime do Padre Amaro (2.ª edição em livro, 1880), A Relíquia (1887) e Os Maias (1888), este último considerado a sua obra-prima. Parte da restante obra foi publicada já depois da sua morte, cuja comemoração do seu centenário teve lugar no ano 2000.
Na obra deste vulto máximo da literatura portuguesa, criador do romance moderno, distinguem-se usualmente três fases estéticas: a primeira, de influência romântica, que engloba os textos posteriormente incluídos nas Prosas Bárbaras e vai até ao Mistério da Estrada de Sintra; a segunda, de afirmação do Realismo, que se inicia com a participação nas Conferências do Casino Lisbonense e se manifesta plenamente nos romances O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro; e a terceira, de superação do Realismo-Naturalismo, espelhada nos romances Os Maias, A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras.

NOTA DE IMPRENSA | Câmara de Baião com frota automóvel mais amiga do Ambiente

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A autarquia baionense adquiriu, em 2021, duas novas viaturas elétricas, dando assim continuidade à aposta na mobilidade elétrica, que garante maior poupança e é mais “amiga do ambiente”.

A frota automóvel da Câmara Municipal conta neste momento com cinco veículos 100 % elétricos.

Uma das viaturas está afeta aos serviços de limpeza, higienização e manutenção de espaços verdes do concelho. As restantes servem para deslocações dosvários serviços.

As viaturas têm em média uma autonomia de 370 quilómetros, à exceção do veículo afeto à jardinagem que tem uma autonomia de 85 quilómetros.

A compra destes veículos repartiu-se pelos anos 2017, 2020 e 2021 e foi financiada em 66 por cento pelo Município de Baião e em 33 cento pelo Fundo Ambiental. O investimento total foi de 189 mil euros.

 

FROTA MAIS EFICIENTE

“Estas viaturas causam menos impacto no ambiente e permitem uma poupança nos combustíveis. Ao adquirir estas viaturas fizemos também o abate de cinco veículos antigose que eram menos eficientes e mais poluentes”, explica o vereador do Ambiente, Henrique Ribeiro.

APOSTA PARA CONTINUAR

“É importante termos uma consciência ambiental e, nesse sentido, a renovação da frota da Câmara Municipal é mais um passo para a sustentabilidade. Instalámos também postos de carregamento de veículos elétricos,já realizamos mais três candidaturas ao Fundo Ambiental para a aquisição de veículos elétricos e estamos a desenvolver o processo de certificação de Baião como destino turístico sustentável. Este é um caminho com o qual estamos comprometidos e que iremos continuar a prosseguir rumo à sustentabilidade”, acrescentou Henrique Gaspar.

 

CARREGAMENTO DE VEÍCULOS ELÉTRICOS EM BAIÃO

Já se encontra disponível um posto público de carregamento de carros elétricos localizado junto ao bairro Francisco Sá Carneiro, em Campelo, que permite o carregamento de dois veículos em simultâneo.

NOTA DE IMPRENSA | Ministro da Administração Interna visita o concelho de Baião

Ministro da Administração Interna Eduardo Cabrit

 

O Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita,estará no próximo sábado, 20 de novembro, em Baião para participar na cerimónia de homenagem ao Ex-Presidente da Direção, Augusto Freixo e ao Ex-Comandante, José Costa, da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Baião.

A visita inicia-se com uma receção nos Paços do Concelho, pelas 12h00, seguida de uma reunião de trabalho com o Presidente da Câmara Municipal de Baião, Paulo Pereira.

Às 15h00 terá início a cerimónia de homenagem no quartel dos Bombeiros Voluntários de Baião.

 

Programa:

12h00 - Receção ao Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, seguida de reunião de trabalho.

Local: Paços do Concelho

 

15h00 - Cerimónia da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Baião, de homenagem aos Ex-Presidente da Direção, Augusto Freixo e Ex-Comandante, José Costa.

Programa:

 - Formatura geral;

 - Receção às entidades;

- Intervenções e homenagem.

OS PEQUENOS TAMBÉM SÃO GRANDES | Aníbal Styliano

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A magia do tempo

Ninguém sabe como acontece… mas acontece mesmo.

Há um clube que se apodera do coração e da mente. A paixão surge sem explicação, de forma natural, espontânea.

O clube começa como extensão de família mais alargada; como em todas as famílias que se querem bem, aceitam-se as diferenças, compreendem-se as divergências, toleram-se as discordâncias, pois há um elemento essencial superior, mais forte: a identidade e a procura da felicidade.

O sucesso de um é sempre motivo de orgulho para todos. Inveja (a última palavra com que Luís de Camões terminou “Os Lusíadas” no século XVI) não entra NUNCA!

Depois, os diálogos, os convívios intergeracionais, perpetuam momentos, memórias, jogos, vitórias, lances únicos, passes impossíveis e golos imortais.

Ao recontar, com todos os pormenores, as imagens surgem na mente de quem ouve e de quem fala (como hologramas de última geração): reforça-se um património comum de valor incalculável.

Em miúdo, quando ouvia alguns nomes (Pinga, Hernâni, Pedroto, Jaburu, Carlos Duarte e muitos outros) incluindo de décadas anteriores ao meu nascimento, conseguia, de imediato, “vê-los, acompanhar as jogadas, os golos, as arrancadas, os dribles, as defesas e cabeceamentos, até pontapés de bicicleta”, não como filme de passado mas como se estivesse a acontecer ao vivo, em presença, e tudo isso graças à forma como os familiares e amigos me contavam os acontecimentos… com paixão, claro.

Fiquei a saber que era possível pulverizar limites e que o grande Einstein podia não saber jogar futebol mas sabia que era possível viajar no tempo…

O tempo reforça laços e tolerâncias mas também alarga a família. Eassim se começa a compreender os outros, a admirar proezas fantásticas de atletas de outros emblemas, que outras famílias nos abrem as portas, sem confusão, nem contradição, mas com desportivismo.

Paixão pelo clube é intensa, permanente, sem fanatismos redutores de quem não consegue partilhar.

Cada um tem direito à sua liberdade de opção…

Sem desvios, aprende-se a gostar de quem merece, de quem traz arte para o futebol, de quem procura cumprir a essência e a excelência do jogo. Essas influências passam para a nossa vida quotidiana como tesouro a perpetuar.

Mesmo nos estádios (ou simples campos de jogos) por mais afastados que possamos estar dos nossos ídolos, eles atingem dimensões enormes e chegam até nós com uma proximidade única.

As emoções dão largas à mística que representa sentir o clube como família (não só nas vitórias) e, desse modo, construir novas memórias e acrescentar mais sentido que, nada nem alguém, conseguirá apagar.

Esperemos que o exagero de transmissões televisivas (será que vão acabar por saturar?), dasapostas desportivas, do futebol-negócio e a carência de um plano global adequado para TODO o nosso futebol, não o prejudique gravemente.

Herança recebida, herança partilhada: dos clubes, sempre descobrindo e recontando os feitos dos ídolos, mas também reconhecendo outros que se perpetuam - são inúmeros os exemplos, felizmente para o futebol, uns mais antigos, outros bem recentes.

Aceito, com naturalidade, as divergências de opiniões… nunca compreenderei os fundamentalismos.

 

Aníbal Styliano, Professor e comentador

Regional | Nota de imprensa

 

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Rota do Românico lança rede de geocaching

A Rota do Românico concluiu o projeto de uma rede temática de geocaching, com a instalação de 31 geocaches nos seus monumentos e centros de interpretação.

O geocaching é uma atividade recreativa ao ar livre, feita em grupo ou de forma individual, cujo objetivo é encontrar recipientes georreferenciados (as geocaches), escondidos em locais públicos, com o recurso a um dispositivo com sistema de posicionamento global (GPS), como um simples telemóvel.

As experiências desta “caça ao tesouro” são partilhadas online, nas redes sociais e na plataforma www.geocaching.com, onde estão publicadas todas as geocaches disponíveis, bem como as pistas para a sua localização.

Nos últimos anos, esta desafiante atividade tem vindo a atrair um crescente número de entusiastas em todo o mundo. Em Portugal, estão registados atualmente cerca de 53 mil praticantes e existem mais de 83 mil geocaches ativas.

O geocaching apresenta-se, deste modo, como uma interessante ferramenta e um “pretexto” complementar para a descoberta e exploração dos bens patrimoniais da Rota do Românico e do seu território de influência.

O projeto da rede de geocaching da Rota do Românico, disponível desde o passado mês de julho, foi desenvolvido por uma equipa do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Coimbra, e conta já com cerca de 550 registos do tipo “encontrei” na plataforma.

A rede de geocaching da Rota do Românico está enquadrada no projeto EEC PROVERE Turismo para Todos: Valorização, dinamização e promoção turística da região, cofinanciado pelo Norte 2020, Portugal 2020 e União Europeia.

A Rota do Românico reúne, atualmente, 58 monumentos e dois centros de interpretação, distribuídos por 12 municípios dos vales do Sousa, Douro e Tâmega (Amarante, Baião, Castelo de Paiva, Celorico de Basto, Cinfães, Felgueiras, Lousada, Marco de Canaveses, Paços de Ferreira, Paredes, Penafiel e Resende).

As principais áreas de intervenção da Rota do Românico abrangem a investigação científica, a conservação do património, a dinamização cultural, a educação patrimonial e a promoção turística.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS | Governo volta a comparticipar testes rápidos de antigénio

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Lisboa, 18 nov 2021 (Lusa) - Os testes rápidos de antigénio efetuados nas farmácias e laboratórios aderentes ao regime excecional de comparticipação vão voltar a ser gratuitos a partir de sexta-feira, anunciou hoje o Ministério da Saúde.

A portaria que prorroga o regime aprovado em junho é publicada hoje em Diário da República, adianta o ministério numa nota enviada à agência Lusa.

A comparticipação continua a ser limitada ao máximo de quatro testes por mês e por utente.

O Ministério da Saúde justifica esta renovação do regime tendo em conta a atual situação epidemiológica e a importância de voltar a intensificar a realização de testes para deteção do SARS-CoV-2 de forma progressiva e proporcionada ao risco, que contribuam para o reforço do controlo da pandemia.

Segundo os últimos dados divulgados pela Task Force para a promoção do Plano de Operacionalização da Estratégia de Testagem para SARS-CoV-2, já foram feitos em Portugal mais de 20 milhões de testes de diagnóstico à covid-19 desde o início da pandemia em março de 2020.

Este ano foram efetuados cerca de 48 mil testes por dia, em média, mais de 70% do total de testes de diagnóstico realizados desde o início da pandemia, adiantam os dados divulgados a 06 de novembro.

A covid-19 provocou pelo menos 5.113.287 mortes em todo o mundo, entre mais de 254,29 milhões infeções pelo novo coronavírus registadas desde o início da pandemia, segundo o mais recente balanço da agência France-Presse.

Em Portugal, desde março de 2020, morreram 18.283 pessoas e foram contabilizados 1.112.682 casos de infeção, segundo dados da Direção-Geral da Saúde.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detetado no final de 2019 em Wuhan, cidade do centro da China, e atualmente com variantes identificadas em vários países.

HN//RBF

Lusa /fim

Jaime Froufe Andrade | Histórias avulso

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O homem do fato de cotim

O problema para o Marques Pinto, naquela tarde outonal, era a crónica. Deixara esgotar o prazo de entrega. Agora, a edição do dia de O Primeiro de Janeiro estava à espera do texto. Ele, ao contrário de outras vezes em que isso lhe sucedera, estava seco, sem ideias. Tinha de arranjar um tema o mais depressa possível. 

 

Assuntos não faltavam a este jornalista de boa memória, profissional completo, de escrita rápida, profícua, e um dos fundadores do CFJ, cooperativa de formação de jornalistas. Mas faltava-lhe tempo para, na escrita da crónica, poder jogar com as palavras até conseguir driblar a censura. Decidiu-se por uma lírico-vegetal, expressão usada na gíria para nomear crónicas inócuas, quase sempre à volta dos encantos da natureza, de flores, pássaros, fios de água…. Então, o detentor da carteira profissional nº 11, o escritor de um livro policial, o criador da revista Medalha, com a Numismática por tema exclusivo, saiu para a rua à procura de inspiração.

 

De olhos atentos e ouvidos alerta, deambulou pela baixa portuense, na expectativa de ver uma cena, de ouvir uma ponta de conversa a que se pudesse agarrar, lembro-me de assim ele me dizer.

 

Tanto procurou que encontrou. Foi na Praça Carlos Alberto. Viu um operário que, em contraste com a pressa dos transeuntes, especado, olhava fascinado para a copa das árvores daquela praceta ajardinada. Casaco e calças de cotim, boina na cabeça, lancheira na mão, grosso guarda-chuva pendurado na gola do casaco, este o modo como o Marques Pinto me descreveu o homem que não tirava os olhos das alturas. 

 

A cena tocou o jornalista, puxou-o para o lado da ternura. Havia ali, sem dúvida, motivo para uma crónica lirico-vegetal. Entretanto, o operário mantinha-se de nariz apontado ao céu, a observar uma chusma de pardais ruidosos que se preparavam para a pernoita. Aproximei-me, meti conversa, e ele nada, nem sequer me olhou, sempre de olhos postos na passarada. 

 

Marques Pinto, sensibilizado, continuou a falar-lhe. Partilhava com aquele desconhecido a emoção causada por aquele quadro que a natureza ali colocara diante dos dois, ambos, certamente, a ferver de ternura perante o esvoaçar de tanto passarinho inocente…

 

O homem do fato de cotim acabou finalmente por reagir. Voltou-se para o Marques Pinto, disse-lhe: Era mas é uma mexa de enxofre… botá-los todos abaixo… carago...Que rica arrozada no domingo... 

Jaime Froufe Andrade: Jornalista! Escritor

MARIA ODETE SOUTO | Da vida, do amor e da morte.

Odete Souto

 

A minha reflexão de hoje vai direitinha para a minha Mãe que nos deixou no passado dia 8. Não permitiu a sorte que chegasse ao dia 6 de dezembro para completar 95 voltas ao sol. Partiu antes, serena, com uma vida bem cumprida. Deixou um vazio enorme, mas excelentes memórias que nos ajudarão a preencher este vazio.

A minha Mãe, era um gigante, uma força da natureza a quem a vida foi sempre muito complicada, mas que, sem lamentos, sempre a enfrentou de sorriso aberto e com determinação. Era frequente ouvi-la dizer “vence na vida quem quer” ou agora, quando recontava episódios, “a vida foi difícil, mas, juntos, vencemos”. Ela uma lutadora e a ela devemos tudo aquilo que somos.

A Senhora Carolina foi a Mãezinha de muitas pessoas. Pela casa da minha Mãe foi criada muita gente, mesmo no tempo em que escasseava tudo. Menos amor e entrega.

Era uma pessoa extremamente inteligente.E culta. Tinha só o 3º ano de escolaridade porque teve que trabalhar para ajudar a sustentar a família. Mas lia imenso. E discutia aquilo que lia. Era sábia.

As suas marcas começaram a ser deixadas logo na adolescência, quando ia a pé, de cesto de laranja à cabeça, durante a noite, de Guimarei até à vila, agora cidade de Santo Tirso, (5/6 quilómetros), para vender a laranja, logo ao amanhecer para logo regressar pois tinha de trabalhar. Foi, desta forma, que comprou, à peça, o serviço de loiça que ainda hoje lá está. Mas, sobretudo, a cama e uma coberta. E como ficou feliz quando o irmão adoeceu e foi preciso um médico vir a casa. Tinha uma cama decente.

Era uma pessoa alegre, muito ativa e ligada à comunidade. Ainda adolescente leu muito, às escondidas.E fez teatro, na pequena freguesia de Guimarei.

Casou e foi feliz. Eram agricultores e tinham um moinho, onde trabalhavam de noite. Mas, quis a sorte que esta união fosse abruptamente interrompida. A 7 de novembro de 1966, um acidente com os bois, em casa, ceifou a vida ao meu pai. E lá ficou a Carolina, com 9 filhos nascidos e grávida. Tinha39 anos e 10 filhos para criar.

Mas esta heroína não cruzou os braços. Tinha muitas bocas para alimentar e nem o abono de família. Não tinha rendimento. Mexeu-se como ninguém e, no dia 1 de janeiro de 1967, dois dias depois do nascimento do meu irmão, abriu um posto de recolha de leite, onde trabalhava 2 horas por dia. Não era tanto pelo ordenado, mas foi a forma de conseguir abono de família para os filhos.

E vendeu adubos, pesticidas, herbicidas. E continuou com o moinho, com a agricultura, e fez projetos, partilhou-os e realizou-os. E vencemos na vida, dizia a ela.

Foi um poço de amor e generosidade. Sempre se deu aos outros e ajudou, sem olhar a quem.

Na nossa casa criava-se e matava-se o porco. Era a carne que se consumia. Os salpicões eram para oferecer e/ou para dias especiais; o presunto para as vindimas, e o restante para o governo da casa. Comia-se carne à quinta-feira e ao domingo. Mas havia outra gente necessitada e lá dizia a mãezinha a um dos filhos: “vai levar esta carne à Sra. A. que também tem 10 filhinhos e passam mal”. Ou os pedintes que por lá passavam e lá comiam, daquilo que houvesse.

Era esta a generosidade que tinha e que assim continuou vida fora. Relembroo episódio do vizinho que queria construir casa, mas que não tinha terreno para fazer a entrada. A minha mãe lá sugeriu que se desse o terreno e assim foi feito. Ou a criança que nasceu e a quem deram o nome Beatriz, em homenagem à minha avó materna, e a mãezinha lá disse que podíamos dar-lhe “aquele alfinete de ouro que era da avozinha”. E assim se fez… E não, não éramos ricos. Tínhamos uma rica Mãe e isso bastava.

Era determinada, resiliente e firme, muito firme nas suas decisões. E foi-o na educação dos filhos. Malandrosquanto baste, só uma pessoa especial teria a capacidade de aceitar e gerir o crescimento e as tropelias de 10, que ainda por cima se davam bem. E traziam amigos, portugueses e estrangeiros, e a tudo a mãezinha se adaptava. E era amada e admirada por todos/as.

A mãezinha sonhava, fazia sonhar e foi assim que nos fez crescer gente. Com muito trabalho. Os filhos eram o seu orgulho. E os netos que tanto a afagavam e que ela adorava. E a bisneta que ela ainda teve ao colo. Era muito senhora da sua prole. Tinha um sentido de família incrível e sempre procurou saber a história da nossa família, lendo documentos antigos e procurando junto da Biblioteca ou pedindo a quem lho fizesse. Foi muito, muito à frente do seu tempo.

Liderou grupos locais de assistência, participou ativamente na comunidade, decidiu sempre da sua vida. Era apaziguadora. Velava pela harmonia de todos e partilhava as ideias, as dúvidas, a vida que sempre via pelo lado positivo. E era uma pessoa de fé, de uma fé inabalável.

Era uma delícia falar com ela. Sobre os livros e sobre a vida. Dizia-nos da sua felicidade, da gratidão à vida e a Deus. Rezava todos os dias. E partiu.

Numa das primeiras mensagens públicas que recebi, após a sua partida, estava escrito “Até um dia ti Carolina. Nunca esqueceremos o seu pão”. E veio-me à memória a broa que a minha mãe fazia e que tão apreciada era. 

Foram imensas as pessoas que se quiseram despedir da Mãezinha. E foram muitas as que disseram que ela também era a sua Mãezinha, sua segunda mãe. Guimarei ficou de luto.

Um oceano de flores encheu a capela em que o seu corpo esteve depositado e que, depois, foram colocadas no cemitério, sobre a sua campa, pelo agente funerário. Revisitei o cemitério, numa comunhão de silêncios, de que necessitava, e do meio daquela montanha de flores emergia a pagela fúnebre, com a fotografia da minha mãe, sorridente, parecendo dizer, mais uma vez, “sabes, estou muito feliz”.

Com José Saramago, acredito que “aviagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa”.

Num momento em que a dor da perda nos invade ficam as memórias, excelentes memórias, e o tributo à vida por nos ter dado a sorte de termos tido esta MÃE. Que imensa sorte tivemos, Soutos!

 

Maria Odete Souto

NACIONAL | Celebração dos 100 anos do nascimento de José Saramago começa hoje

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A aldeia natal do Nobel da Literatura José Saramago vai assinalar, na terça-feira, a data em que o escritor faria 99 anos com a plantação da 99.ª das “100 oliveiras para Saramago” que estão a ser plantadas na Azinhaga, Golegã.

A Fundação José Saramago, que tem um polo na Azinhaga, concelho da Golegã, distrito de Santarém, inicia na próxima terça-feira, 16 de novembro, dia em que se assinala o 99.º aniversário do nascimento do escritor, as celebrações do seu centenário com a plantação da 99.ª oliveira, das 100 que decidiu plantar na aldeia natal de Saramago.

“A ideia seria, recuperando um pouco a mágoa que o próprio José Saramago várias vezes referiu, pelo facto de na Azinhaga já não existir o olival e as oliveiras como ele tinha conhecido em criança, que seria bonito a celebração do seu centenário com a existência de cem oliveiras plantadas em sua homenagem”, disse à agência Lusa a curadora da Fundação José Saramago responsável pelo polo da Azinhaga, Ana Matos.

Apresentado à Câmara da Golegã e à Junta de Freguesia da Azinhaga, em 2019, o projeto foi apadrinhado por um agricultor da região, Manuel Coimbra, que “prontamente ofereceu 100 oliveiras com algum porte”, disse.

Nos últimos dois anos foram plantadas 98 oliveiras, na sua maioria concentradas numa das ruas principais da aldeia, a rua Vítor Guia, e outras espalhadas pela aldeia, com a 99.ª a ser plantada na terça-feira, assinalando o início das celebrações do centenário.

Cada uma das oliveiras receberá o nome de uma personagem saramaguiana, depois de ser acertada com o município da Golegã a forma como essa designação será representada, sendo a proposta a da inscrição no pavimento, adiantou Ana Matos.

A centésima oliveira será plantada no dia 16 de novembro de 2022, data em que Saramago faria 100 anos, e a árvore receberá o nome da sua avó materna, Josefa.

Também na terça-feira acontecerá a iniciativa “Leituras Centenárias”, resultante de um desafio lançado pelo Comissariado do Centenário às escolas “um pouco por todo o país”, mas também em Espanha e na América Latina, acrescentou.

Em mais de uma centena de escolas portuguesas, entre as quais as do Agrupamento de Escolas da Golegã, Azinhaga e Pombalinho, alunos do ensino básico vão ler, em simultâneo, a partir das 10:00, o conto “A Maior Flor do Mundo”, numa iniciativa que junta a Fundação José Saramago, a Rede de Bibliotecas Escolares e o Plano Nacional de Leitura.

No Brasil, de acordo com a embaixada portuguesa, também a partir das 10:00, a iniciativa mobiliza escolas de Brasília, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Natal, Recife, Fortaleza, Curitiba e Porto Alegre, assim como nas localidades de São Jerónimo, em Rio Grande do Sul, e de Pedro Leopoldo, em Minas Gerais.

A Embaixada de Portugal e a rede de consulados portugueses, no Brasil, instituições universitárias e escolares brasileiras, o Camões – Centro Cultural Português em Brasília e a Feira Literária de Poços de Caldas (Flipoços) abrem, por seu lado, as suas redes sociais à transmissão das sessões de leitura, associando-se assim ao projeto da Fundação José Saramago.

“A Maior Flor do Mundo” faz parte do currículo escolar do 4.º ano do Ensino Básico, em Portugal, e do Ensino Fundamental do Brasil.

Paralelamente, em Portugal, os alunos da escola Mestre Martins Correia, na Golegã, vão inaugurar uma exposição de desenhos, intitulada “Retratos”.

Ao longo do dia de terça-feira, as sete bibliotecas da Rede de Bibliotecas José Saramago, em Almada, Avis, Beja, Leiria, Loures, Montemor-o-Novo e Odemira, promovem diversas atividades, estando marcadas para as 18:00 leituras encenadas, maratonas de leitura, leituras pelas redes sociais, entre outras.

A sessão de abertura do Centenário está marcada para as 20:00, no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, com a escritora Irene Vallejo, que lerá um “Manifesto pela Leitura”, seguindo-se um concerto pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Pedro Neves.

O programa do concerto é composto por “As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz”, de Joseph Haydn, com leitura de textos de José Saramago pela atriz Suzana Borges, numa parceria da Fundação José Saramago com a Câmara Municipal de Lisboa.

Ana Matos salientou que, além das atividades que estão a ser preparadas pela Fundação José Saramago, com “muito do cunho do pensamento” do comissário para as comemorações do Centenário, Carlos Reis, há um conjunto de iniciativas que estão a surgir “de uma forma muito espontânea, muito autónoma”, da sociedade civil, das escolas, de associações, que vão de leituras, a apresentações de peças de teatro, a exposições de artes visuais.

Afirmando ser com “alegria” e “comoção” que a Fundação recebe essas iniciativas, Ana Matos considerou-as “um sinal da força maior que o José Saramago ainda hoje continua a representar, não só pela sua literatura, mas também pelo seu pensamento”.

A programação do Centenário pode ser consultada em: www.josesaramago.org. .

Lusa

 

 

 

Natércia Teixeira | Confiança

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... Deixei-me ficar na cama, embalada por pensamentos e perdida em antevisões.

Aconchegada pelo carinho do Eros, acabei por adormecer novamente num sono leve, povoado de sonhos e premonições.

Via-me sozinha a descer a encosta de uma serra.

Ao fundo um grande lago pintado de negro pelo reflexo do céu carregado pela borrasca que se aproximava.

Descia o mais rapidamente que podia, para me tentar antecipar à tempestade que pressentia nas minhas costas...uma vã tentativa de fugir ao temporal…à solidão que sentia no peito, ao sabor do medo e do abandono.

Sabia não haver escapatória…uma carga de água, prestes a alcançar-me iria abater-se sobre mim.

Corria em direção ao lago sem nenhum propósito e também não procurava refúgio no arvoredo que me rodeava.

A chuva começou a fustigar-me e eu continuava em debandada.

Relâmpagos riscavam o céu cinza escuro e os trovões explodiam por cima de mim.

Eu continuava em fuga sem avistar um porto de abrigo.

O bater do meu coração...o meu próprio ofegar, misturavam-se com o ruído da tempestade que me perseguia.

Outro som sobrepôs-se e despertou-me daquela angústia...um som insistente e desconectado daquela realidade paralela...o som de chamada no meu telemóvel.

Aturdida e confusa peguei-lhe...era da biblioteca...significava que já passava das nove da manhã e devia haver alguma notícia sobre o meu pedido de licença.

Precisava de me recompor e decidi não atender, retornaria a chamada mais tarde.

Levantei-me, bebi água e fui refrescar-me.

Liguei a televisão e a música serpenteou no espaço.

Devidamente recomposta e calma, devolvi a chamada...intuía que o motivo do contacto era o passaporte para a minha nova vida.

A colega que me atendeu confirmou, sem surpresa, a necessidade da minha presença no sector de recursos humanos para formalizar o procedimento da minha licença, surpresa foi a abordagem que se seguiu.

Cautelosamente e desculpando-se pela intromissão, questionou-me sobre o destino que iria dar à minha casa durante o tempo de ausência.

Apanhada de surpresa, confessei não ter ainda decidido nada e exprimi disponibilidade para aceitar propostas, o mote perfeito para a minha colega, alegremente me comunicar que tinha a solução perfeita para o problema.

Quem me vinha substituir seria uma conhecida dela de Cascais, que pedira a transferência porque o marido, enólogo, iria realizar um trabalho numa quinta aqui próximo.

Esse casal, tinha absoluta necessidade de arranjar alojamento para se instalar rapidamente, portanto, no caso de eu estar na disposição de alugar temporariamente a minha casa, ambas as partes beneficiariam com a situação.

Confesso que a sincronicidade do universo me deixou perplexa...a ponto de o meu silêncio ser entendido como hesitação.

Entusiasmada e nada apreensiva com a recomendação, agradeci pela inesperada sugestão.

Tudo parecia conspirar a favor dos meus intentos e se encaminhava para que durante a tarde, trabalho e casa fossem assuntos resolvidos.

Depois de desligar, dei com o Eros a olhar-me fixamente...parecia estar a compreender o que se passava, mas não comungava da minha excitação.

Suspirou e ficou sentado diante de mim, estático, a olhar-me e a parecer perguntar-me se tinha a certeza sobre o que me preparava para fazer.

Baixei-me.…abracei-o e sussurrei-lhe na orelha macia: "vai correr bem..."

Abanou a cauda e pareceu convencido.

Dirigir-se alegremente para a cozinha era a confirmação que a apreensão tinha desaparecido e a sua forma de me comunicar um "confio em ti!".

Sorri intimamente...era isso...tudo se resumia a uma única questão: Confiança.

Senti uma muito discreta pressão no peito...uma brisa suave entrou pela janela aberta da cozinha...um subtil arrepio percorreu-me o corpo...um ínfimo ponto brilhante de duvida acendeu-se na minha mente.

E eu?.... Eu confiava?

 

 In Grãos de Pimenta Rosa

Natércia Teixeira

AJA | Concerto tributo a José Mário Branco

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Venho, em nome da AJA, informar da realização de um Concerto, no Fórum Lisboa, distribuído por dois dias, de homenagem a José Mário Branco que terá lugar no dia 20 de Novembro, às 21.30h e dia 21 de Novembro, às 17.30h, no Fórum Lisboa. Este evento, para além de prestar tributo a uma figura incontornável da cultura portuguesa, que deixou músicas e canções icónicas no panorama musical portuguêsinsere-se nos concertos anuais que a AJA tem vindo a realizar por ocasião do seu aniversário.
 
A organização de dois concertos em vez de um, como é habitual, impôs - se como prevenção devido à  pandemia, por isso terem o mesmo elenco.  A  escolha do repertório teve  como critério  abranger todas as fases criativas do Zé Mário, desde a sua produção individual, fundação do GAC,  passagem pelo teatro, cinema, até à incursão no  fado, rap, etc. Assim, participam : CRAMOL, Pedro Branco, El Sur, Marco Oliveira, Jakilson Pereira e Flávio Almada.
 
Como sabe José Mário Branco foi fundador da AJA, companheiro de José Afonso e participou em alguns discos  do "mestre", como ele gostava de nomear o Zeca, tal  como colaborou com grandes nomes da sua geração. Contudo, a sua inquietude e talento não o deixaram anquilosar e soube fazer, como ninguém, a ponte com outros géneros  de música, fora da sua margem de conforto, colaborando  com músicos que abraçavam diferentes estilos, como o fado bem como novas sonoridades, como o Hip Hop. 
 
De salientar, ainda, que no dia 21, pelas 15.00 será realizado o lançamento da obra  José Afonso-todas as canções (partituras. letras e cifras),  da autoria de José Mário Branco, Guilhermino Monteiro, João Lóio e Octávio Fonseca, obra fundamental para quem queira estudar a música do Zeca. A apresentação desta segunda edição, com a chancela da AJA, terá um  preço de € 15,00 e  será da responsabilidade de Octávio Fonseca, Pedro Branco e Paulo Esperança.
 
Paralelamente, no átrio do Fórum, decorrerá uma Exposição de fotografias de Tiago Vital, memória  dos últimos dias de José Mário, em trabalho de estúdio com Marco Oliveira, intitulada "Quantos é que nós somos?" 

 

AJA

DUAS DE LETRA | Lourdes dos Anjos

Lourdes dos Anjos

 

SER PROFESSORA

Escrito numa madrugada de lágrimas,depois duma noite sem sono com uma
carta presa nas mãos e uma dor imensa na alma  ...
Antigamente, talvez há mais de duzentos anos, quando a minha carreira
ainda ia a meio, os alunos não tinham apoios psicológicos nem
pré-primária nem pais que os soubessem ensinar a fazer os trabalhos de
casa. Quando tinham dificuldades de aprendizagem, havia a palmatória,
as proibições de ir ao recreio, as palavras difíceis vinte vezes cada
uma e ainda os sermões paternais que ajudavam a missa docente.
Era assim tudo muito indecente naquele tempo de há quase dois séculos atrás…
Os filhos não eram principes nem princesas e os pais eram gente que
AMAVA mas sem saber conjugar  todas as formas desse verbo.
Quando a canalha não ia, nem assim nem de outra maneira, andava na
escola até aos 16 anos e depois ia para a costura, ia servir, para
qualquer profissão de segunda classe como aprendiz e, pronto, o futuro
era apenas só presente e triste. Neste rosário de “padres nossos”
fiquei com muitos amigos que hoje quase são da minha idade e me
ensinaram muitos segredos da pesca do sável, da matança da lampreia,
do jogo do pião, da forma de ajudar o parto das porcas e das ovelhas e
também como se faziam os temperos dos chouriços e a receitas de muitos
bolos tradicionais que os mais pobres inventavam de forma maravilhosa.
Uma dessas meninas, que deve ter hoje cerca de 50 anos, saiu da escola
com 15 anos bem avantajados, mal escrevia o seu nome mas fazia contas
de cabeça quase tão rapidamente como eu.
Para ganhar “alguma coisita” foi vender fruta pelas portas com a mãe,
e zangava-se muito sempre que a velha raposa enganava as freguesas com
o peso ou a qualidade das laranjas ou das maçãs. Também não percebia
porque raio a mãe teimava em vender muito artigo a quem pagava aos
soluços, ainda que lhe explicassem que se iam metendo pelo meio das
parcelas umas “croas” que davam para os juros da divida.
Não concordava, zangava-se, dizia uns quantos palavrões, vinha até
junto da sua professora pedir conselho e lá continuava a carregar a
sua cruz até ao calvário acompanhando a sua  velha mãe.
Dizia-me que gostava de ser “senhora sua“, ter um andar pequenino numa
rua onde ninguém a conhecesse, longe de todos os pobres como ela e
pronto…ser gente.
Muitas vezes a contrariei e muitas outras a ajudei a sonhar.
Um dia largou a giga da fruta e foi para a feira. Depois arranjou um
companheiro e fez um filho; depois ficou só com esse filho para criar.
Depois , se calhar proibiram-na de sonhar e depois…
Um dia encontrei-a numa esquina duvidosa de uma rua ruinosa da cidade.
 Fui ter com ela dei-lhe um abraço grande e ouvi, sem nada perguntar,
a minha menina dizer que estava ali porque esperava uma cunhada que
trabalhava num armazém das redondezas.
Fiz de conta que era verdade.
Fiz de conta que não percebi.
Fiz de conta que acreditei.
Dei-lhe outro abraço agora mais forte e não fui capaz de segurar umas
lágrimas atrevidas e azedas que se escaparam da cela dos meus olhos.
Muitos dias depois, na minha caixa do correio, tinha uma carta cheia
de erros, muitos erros, com letra de imprensa (a única que aprendera a
fazer e mal feita) dizendo que não perdoava o pecado de me ter feito
chorar e lhe tinha custado muito ver aquelas lágrimas enchendo o rosto
da professora que tanto admirava. A vida sempre lhe tinha dificultado
a tarefa de aprender a ler e a escrever na escola mas, muito
rapidamente, na rua, tinha - lhe ensinado como se acrescentava ao seu
nome, a azeda palavra “Puta!”.
E a sua professora nem teve vergonha de a abraçar ali naquela rua...
Hoje, não sei por onde anda, nada mais consegui saber dos seus
pesadelos e das suas raivas, mas tenho a certeza que vou levar comigo
o rosto da menina que queria ser mulher séria e caminhar por caminhos
largos e sem sombras, de mão dada com a alegria, sem cheiros de ervas
ruins nem sombras de vampiros.
Se calhar abril continua a ser um tempo de tempestade e eu também tenho culpa.
Hoje ainda me interrogo :"QUEM FALHOU, A MULHER OU A PROFESSORA?"
Talvez as duas e... quase vinte anos depois...  ainda não sou capaz de
passar naquela esquina da rua Barão de S. Cosme sem recordar a minha
aluna que queria apenas SER SENHORA SUA E TER UMA CASINHA NUMA RUA
ONDE NINGUÉM A CONHECESSE...

Lourdes Dos Anjos

OS PEQUENOS TAMBÉM SÃO GRANDES | Aníbal Styliano

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Futebol é outro mundo

O futebol é um tempo específico, no qual temos a sensaçãode dominar o mundo, o tempo, os adversários, exceto a bola que, por vezes, atrapalha um pouco…

A equipa pode ser considerada como um relógio.Mas só funciona bem se for um todo coerente: É a entidade máxima. O futebol evolui, com recuos, retrocessos e avanços.

O treinador, seja em que clube ou escalão for, respira futebol e o jogador também… até quando se diverte.

Por isso, o treinador, em função dos jogadores e do clube, define prioridades, um projeto de jogo: princípios básicos, movimentações, dinâmicas ofensivas e defensivas, estruturaçãoda equipa de forma coerente, para jogar como treina.

Uma equipa é sempre uma identidade, onde todos compreendem o que têm de fazer e por que razões, embora com margem para a criatividade que pode surgir a cada instante. Não pode haver distração: concentração absoluta, controlando emoções, confiança e sem receio de falhar, tudo tem de ser reforçado, treinado, com coerência e responsabilidade.

Não devemos perder a bola, nem podemos errar passes, mas acontece…

Agora o que nunca pode deixar de acontecer é procurar corrigir de imediato o erro (o meu ou do meu colega) defendendo de forma articulada, dificultando o adversário, com colaboração total e organizada.

Cumprir e colaborar, é sempre o caminho certo.Quando não se consegue, avisa-se. As substituições são para tentar novas soluções para superar um problema. Por isso, quem sai e quem entra compreende essas mexidas, com naturalidade.

Numa equipa, dentro do campo, no treino ou no jogo, não pode haver equívocos, relações de indiferença ou desatenções.

A mentalidade de jogador é trabalhar sempre com “garra”, com vontade e determinação. Mais tarde, em qualquer profissão após a fase de jogador, esses atributos definem competência.

Nunca protestar (com árbitro, colega, adversário, público…), falar sempre frontalmente, pensar na equipa, esclarecer dúvidas com o treinador. Superar as limitações, com treinos e exercícios específicos, acreditando que é possível fazer melhor…porque é mesmo.

Aumentar concentração, controlar ansiedade, sem correr riscos desnecessárias, aperfeiçoar movimentos, melhorar a relação com a bola e o entendimentos comos colegas. Uma peça do relógio, por mais pequena que for, pode ser a chave para o sucesso ou o insucesso. Por isso criar rotinas de sono, de tarefas, de alimentação e de estudo/trabalho.

Não há pressa, nem culpas, mas antes responsabilidade, atenção eesforço.

Todos são importantes, nas suas diferenças, desde que transformem a equipa no mais importante.O treino é a maior possibilidade para a inspiração. As rotinas o melhor caminho para o sucesso, porque criam aptidões de decisão, com confiança para vencer mais vezes…

Jogar bem dá menos trabalho do que jogar mal, mais alegrias e maior auto-estima.Para isso, há que treinar com atenção e perceber os objetivos de cada exercício. Disciplina é essencial. Nunca desperdiçar recursos, nunca discutircom equipas de arbitragem (ou outros), porque não são atitudes inteligentes: nunca ganham, só perdem e gastam paciência, concentração e nunca trazem benefício.

Os ouvidos, os olhos, os sentidos, devem estar programados para a equipa e para os treinadores, os colegas, a bola, a defesa da nossa baliza e para se conseguir construir situações de finalização na baliza adversária.

O golo como objetivomáximo compensa tudo e ilumina sorrisos.

 

Aníbal Styliano (Professor e Comentador)

BAIÃO | Dos 18 concelhos do distrito do Porto 17 possuem estádios Municipal!

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Dos 18 concelhos do município do Porto 17 possuem estádios Municipais!
Alguns exemplos dos muitos que podia dar : Estádio Municipal de Paredes, Estádio Municipal Penafiel, Estádio Municipal Dr. Machado de Matos (Felgueiras), Estádio Municipal deAmarante, Estádio Municipal De Valbom (Gondomar), Estádio Municipal de Lousada, Estádio Municipal Dr. José Vieira de Carvalho (Maia), Municipal F C Pedras Rubras (Matosinhos), Estádio Municipal do Marco de Canaveses, Estádio Municipal da Capital do Móvel (Paços Ferreira), Complexo Desportivo de Campanhã(Porto).Estádio Municipal da Póvoa de Varzim,Parque Desportivo Municipal Rabada
( Santo Tirso) , Clube Desportivo Trofense, Estádio Municipal dos Arcos (Vila do Conde), Estádio Municipal da Lavandeira (V, N, de Gaia),Estádio Municipal de Valongo!
Concelhos vizinhos: Estádio Municipal de Mesão Frio, Estádio Municipal Prof. Cerveira Pinto (Cinfães), Estádio Municipal de Fornelos (Resende)... E Baião?
Quanto a relvados?
Felizmente ou infelizmente conheço centenas de campos, estádios, pelo país fora, posso garantir que a grande maioria, para não dizer a totalidade, possuem sintéticos, e relvados naturais de qualidade, claro que isso só é possível com as ajudas dos municípios!
Para reflexão...
Carlos Magalhães

Jaime Froufe Andrade | O homem macaco

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Esta ouvi-a à minha avó, Margarida Froufe. Hoje, teria bem mais de 120 anos se fosse viva. Certo dia, menina e moça, desceu ela o seu Douro natal até ao Porto. Devidamente acompanhada, (menina daquele tempo não andava sozinha na rua) foi às compras para os lados da Rua Cândido Reis. Seria sábado, manhã alta.

Quando chegámos à Cordoaria o povo era muito, das traseiras dos Clérigos até à Cadeia não se rompia, um rebuliço... tudo por causa do homem macaco...

O início da história foi suficiente para espantar os meus seis anos de vida. A minha avó continuou: Criatura assim, Deus não criou outra. Tinha o tino de um homem, mas os modos eram de macaco...

Por ocasião da festa da Santa Eufêmia, alguém lhe falara já da criatura. E até lhe deixara um aviso: Foi um barqueiro. Até jurou pelas almas do rio que essa criatura, o homem macaco, molestava as mulheres só de olhar para elas. As mais fracas caíam logo, desmaiadas.

A minha avó, rapariga na altura, ia ter oportunidade de ver a criatura ao vivo. Contou-me ela:  Furei por entre o povo até chegar à frente. Era conforme o barqueiro o pintava: atarracado, com uma tanga igual à do São João Baptista quando estava a ser baptizado no Jordão pelo primo Jesus Cristo. O cabelo crescia-lhe na testa e nos pomos do rosto. 

Na manhã desse tão distante dia, havia um prémio à espera do homem macaco: Se em meia hora trepasse a torre dos Clérigos, a paga estava ali em cima de um tabuão, à vista de todos... doze sêmeas e um cântaro de água para ajudar a engolir. 

O desafio obrigava a preparativos: Chegaram-lhe um balde com cinza e ele meteu lá as manzorras. E pôs-se a subir… Cada lance da ascensão do homem macaco arrancava exclamações de pasmo ao magote. Indiferente, ele ia trepando, trepando sempre. Por vezes, dava arriscados saltos no vazio. Pulava na vertical até fincar as unhas nas frestas do granito. E foi subindo, sem se deter.

Antes da meia hora escoar, já ele estava no topo da torre. Caprichou em oferecer número extra à multidão. Em inesperada manobra, que arrancou risos e pôs outros a persignar-se, fez o pino nos dois braços da cruz cravada no último pináculo. Depois desceu rapidamente os 240 degraus da escadaria interior. A pressa de receber o prémio era muita, verificou a minha avó.

Foi assim que tudo se passou. E eu, relator desta mirabolante história de minha avó Margarida Froufe, não estou receptivo a ser desmentido sobre este sucesso por algum especioso purista da história da cidade.

* Texto publicado no livro Porto, a torre da cidade nos 250 anos da Torre dos Clérigos / Helder Pacheco

Jaime Froufe Andrade: Jornalista/Escritor

Rita Diogo | Sexo ConSentido

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Contra vários tabus, estereótipos e preconceitos a sociedade evoluiu e evolui em termos de educação sexual, de aceitação das diferenças e identidades. Foi um caminho longo este, durante anos sentimos que não se saía do sítio, que falávamos numa linguagem estranha e que, para muitos, soava a libertina e promíscua. Atualmente, a educação sexual existe em todas as escolas, existem escolas que vão mais longe, outras que dão passos mais curtos, mas todas têm avançado e isto deve ser dito. Em casa, na família também se aborda este assunto, com mais ou menos à vontade. O caminho faz-se caminhando e a verdade é que temos caminhado alguma coisa.

A sexualidade faz parte integrante da vida de cada um de nós. As crianças e os jovens têm o direito de receber informação fiável, científica e abrangente neste domínio. Deram-se passos muito importantes nas últimas décadas, de forma a ir além da biologia e da reprodução e “equipar” as crianças e jovens com conhecimentos sobre o seu corpo e os seus direitos, informando-as sobre a igualdade de género, a orientação sexual, a identidade de género e as relações saudáveis, tendo por base o respeito e a forma como as suas escolhas afetam o seu próprio bem-estar e o de outros e ainda compreender e assegurar a proteção dos seus direitos ao longo da vida.

Quando a educação em sexualidade é abrangente e assenta nas várias dimensões da criança ou jovem torna-se num meio eficaz de combater a violência, os abusos e a discriminação e de promover o respeito pela diversidade. A educação sexual é hoje mais necessária que nunca, pois a maioria das crianças pode obter informação por outras vias, em particular através da internet e das redes sociais. Estas fontes de informação podem ser úteis e apropriadas, mas podem igualmente transmitir uma imagem deformada da sexualidade e deixar de lado alguns dos aspetos ligados aos seus direitos e à dimensão afetiva. Vale a pena sublinhar que a educação sexual nas escolas visa complementar, e não substituir, o que os pais possam transmitir em casa.
A educação sexual deve pois contribuir, desde o início da escolaridade, para fazer passar mensagens fortes a favor da igualdade entre mulheres e homens, para promover papéis de género não estereotipados, para educar para o respeito mútuo, o consentimento das relações sexuais, a resolução não violenta dos conflitos nas relações interpessoais e o respeito da integridade pessoal.
A questão do consentimento das relações sexuais, por exemplo, não é um tema suficientemente aprofundado, nem na escola nem na família. Continuam a surgir casos em que a relação sexual acontece sem consentimento. Continuo a ouvir, na prática clínica, histórias de jovens para quem a relação sexual foi indesejada, irrefletida e muito negativa. O consentimento deve ser claro. A promoção da assertividade no campo da privacidade e da intimidade exige minúcia e destreza nas conversas. Explicar a uma criança ou jovem que “não é não”, que não deve aceitar fazer ou dizer aquilo que não quer, nem fazer ou coagir outros a fazerem o que não querem é mais complexo do que possa parecer. Falar sobre consentimento é falar sobre limites, respeito, compreensão e autoconhecimento. Ajudar um ou uma adolescente a tomar consciência de si mesma não é tarefa fácil e deve começar na infância. O gosto pelo risco, pela adrenalina e a vontade de testar limites deve ser tema de conversa, ajudando a compreender a importância do consentimento.
A educação que promove uma sexualidade saudável é aquela que se sustenta na aprendizagem e reflexão acerca dos nossos direitos e da importância de respeitar os direitos dos outros, que permite a proteger a saúde física e mental e que adota uma atitude positiva relativamente às questões sexuais e relacionais. Permite igualmente adquirir competências úteis para a vida, tais como a autoconfiança, o pensamento crítico e a capacidade de tomar decisões informadas.