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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

SMS | Natércia Teixeira

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SMS…Serviço de Mensagens Curtas… comparável apenas, ficcionalmente, a uma invasão alienígena massiva, capaz de deixar Bell desconcertado e pessoas como eu à beira de um ataque de nervos.

Passando adiante a promiscuidade da grafia irritante dos “kkk” que se infiltram e multiplicam como vírus nos textos e envenenam uma língua que não os utiliza, temos outra vertente muito mais séria, suportada por um facilitismo que promove a preguiça.

Há também os que usam este expediente para fins inusitados como fazer propostas indecentes, dirigir insultos ou terminar relações…deixo as considerações sobre estes casos de estudo para os especialistas e vou focar-me num comportamento aparentemente inócuo que todos adquirimos e que por esta altura se parece com um elefante na sala…incontornável estar ali, ninguém sabe muito bem como ali veio parar e também se desconhece como faze-lo sair…enquanto isto parece-me que vamos coletivamente emudecendo e paradoxalmente escrevendo pior.

Neste ponto questiono-me que tipo de comunicação pretendemos ter e se vamos chegar ao cúmulo de precisar reaprender como falar uns com os outros.

Recordo, com os meus nove, dez anos, apreciar as conversas do meu pai com os amigos.

Apareciam lá em casa, sem aviso prévio…antigamente as amizades funcionavam assim sem decreto ou hora marcada, as pessoas apareciam na casa umas das outras e eram recebidas com o que havia…quase sempre nada para além da companhia e de uma cadeira para se sentarem.

Eu ficava por perto a ronda-los, fascinavam-me aquelas conversas de “adultos”…falavam sobre tudo e sobre nada, discutiam as noticias que o meu pai já lera no “Primeiro de Janeiro” que chegava a nossa casa religiosamente todos os dias e que eu abria para ver uma banda desenhada que aparecia nas ultimas páginas…recordo ainda o cheiro da tinta que me pintava os dedos de negro…e o meu pai agastado por lhe estar a estragar a impressão do jornal que não era para  eu “brincar”.

Os amigos, com opiniões nem sempre consensuais, descambavam muitas vezes em acesas discussões em que cada um defendia o seu ponto de vista como se disso dependesse a própria vida…não raras vezes viravam costas uns aos outros e saiam porta fora tão agastados que nada faria supor que uns dias depois ou mesmo no dia seguinte, as injurias fossem esquecidas e as rotinas de tertúlia retomadas com a maior das naturalidades.

Um dia, na incoerência dos meus dez anos, achei que podia entrar na conversa dos “adultos” e dirigi-me ao meu pai para dar uma opinião qualquer…consegui ser posta na ordem, mandada calar e convidada a ir brincar com as bonecas.

Suponho que nos dias de hoje isso fosse motivo para um qualquer trauma…no meu caso, limitei-me a desobedecer e a manter-me por perto…em silêncio… e assim aprendi a escutar.

Aprendi ainda, que a velha máxima de que é a falar que as pessoas se entendem é verdadeira…e que para isso são precisos rostos, expressões, vozes e sons… abdicar deles é amputar o diálogo.

Falar não é conversar, ouvir não é escutar…SMSs não servem para expressar emoções que escapam às palavras.

Desola-me esta incapacidade de se comunicar, é confrangedora esta dificuldade de se falar…é deprimente que tenhamos transformado a poesia de dirigirum “boa noite” a quem gostamos, num manhoso e prosaico emoji, de dúbio sentido.

 

Natércia Teixeira