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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

PÃO E ROSAS | Natércia Teixeira

 

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Enquanto marchamos, marchamos, na beleza do dia,

Um milhão de cozinhas negras, um milhar de moinhos cinzentos,
São tocados por toda a luz revelada por um sol repentino
Porque as pessoas nos ouvem cantar: Pão e Rosas! Pão e Rosas!

Enquanto marchamos, marchamos, lutamos também pelos homens,
Porque eles são as mulheres e são as crianças e são os nossos filhos outra vez
As nossas vidas não devem ser suadas desde o nascimento até ao fim
Os corações morrem de fome como os corpos; dai-nos pão, mas dai-nos rosas

Enquanto marchamos, marchamos, inúmeras mulheres morrem
Gritam através das nossas canções, o seu antigo chamamento pelo pão
É a pequena arte e amor e beleza que os seus espíritos macerados conhecem
Sim, é pelo pão que lutamos, mas lutamos igualmente pelas rosas

Enquanto marchamos, marchamos, trazemos os grandes dias,
O erguer das mulheres significa o erguer da raça.
Não mais o moinho e o tensor, os dez que labutam por um que repousa
Mas uma partilha das glórias da vida: pão e rosas, pão e rosas.

As nossas vidas não devem ser suadas desde o nascimento até ao fim
Os corações morrem de fome como os corpos; dai-nos pão, mas dai-nos rosas

James Oppenheim

Hoje dia 8 de Março, dia Internacional da Mulher, divulga-se a história mais conhecida sobre a origem desta comemoração, uma narrativa sobre um grupo de operárias, cerca de cento e trinta mulheres, vítimas de um incendio intencional numa fábrica têxtil.

Decorria o ano de 1857 e pelo que consta, o crime foi premeditado pelos patrões com a conivência dapolíciae terá ocorrido em retaliação a manifestações e reivindicações das operárias porcondições dignas de trabalho.

Na época, episódios de rebelião de trabalhadoras fabris, motivados pelo descontentamento generalizado, eclodiam numa sociedade alicerçada no capitalismo industrial, estruturado na subordinação e exploração feminina, com fronteiras próximas à escravatura.

Mulheres, sem estatuto e sem direitos que sustentavam com suor, lágrimas e não raras vezes com a vida um sistema económico, político e social assente no patriarcado.

A luta dessas Mulheres, que não desvincula a batalha por direitos básicos dasoperárias por melhores salários, redução dos horários abusivos de trabalho, autorizações básicas para idas à casa de banho; tem, no entanto, contornos de lutas muito mais profundas, motivos e objetivos superlativamente importantes.

A Revolução das Trabalhadoras, que se organizaram na reivindicação de direitos fundamentais, culminava num primeiro e principal objetivo: promover o direito ao voto feminino, um passo decisivo para se alcançar um sistema mais igualitário.

Estruturadas, apoiadas e suportadas por correntes vanguardistas revolucionárias lutavam também por direitos civis (divórcio p. ex) e direitos sociais (greve, equidade salarial entre outros).

Foram precisos muitos anos de duras batalhas em que muitas foram mortas, agredidas e vilipendiadas por acreditarem que seria possível um mundo mais justo, um mundo onde o género fosse apenas uma diferença, não um motivo de discriminação.

Foi graças a essas Mulheres sem medo que hoje podemos escolher o nosso destino e são respeitados princípios elementares de liberdade e igualdade, tais como votar, estudar, guiar um carro, viajar…sair do país sem autorização do pai ou marido, terminar um casamento, usufruir de um salário igual para o mesmo trabalho.

Duvido que Mulheres dessas se comovessem com comemorações mais ou menos patéticas e homenagens hipócritas com hora marcada.

Acredito que o seu propósito fosse tão simples, quanto parece ser difícil alcança-lo:

Respeito.

Respeito pela Vida.

Respeito pelo Ser Humano.

Respeito pela diferença intrínseca de ser-se Mulher.

No dia em que esse Respeito for pleno, no dia em que nenhuma Mulher sentir que precisa ter medo pelo facto de Ser Mulher…nesse dia não haverá mais lutas a serem travadas.

Até lá cabe-nos mostrar ao mundo e aos nossos parceiros homens que conseguimos engolir o medo, ultrapassar séculos de preconceitos que muitos ainda carregam, nos genes e na alma.

Que conseguimos ganhar o próprio pão e comprar as nossas rosas;

Que somos metade do mundo.

Que não existimos para caminhar um passo atrás de ninguém.

Portanto hoje…

Hoje, não quero rosas, quero Respeito.

Hoje não quero ser lembrada, quero nunca precisar de esquecer discriminações.

Hoje não quero que seja mais uma data, quero que seja menos um dia para a mudança de mentalidades e comportamentos que se impõe.

Hoje…lembro todas as minhas ancestrais que lutaram, mesmo com medo e homenageio-as porque sonharam que a nossa existência pode ser uma partilha das glórias da Vida.

Natércia Teixeira