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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 6 - Abril 2021

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Sobre ser Mulher (em pandemia) | Rita Diogo

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Esta pequena crónica é dedicada a todas as mulheres da minha vida, em particular às minhas filhas. Tenho duas filhas, de 14 e 18 anos, que levam muito a sério as questões da igualdade entre homens e mulheres, percebendo o quanto este conceito emana da liberdade e da não descriminação. Entendem que esta igualdade significa aceitar e valorizar de igual modo as diferenças de mulheres e de homens e os vários papéis que desempenham na sociedade. O caminho que fizermos será aquele que lhes permitirá, a elas e todas as raparigas e mulheres, serem livres de desenvolver as suas aptidões pessoais, de prosseguir as suas carreiras e de fazer as suas escolhas sem limitações impostas por estereótipos, preconceitos e conceções rígidas dos papeis sociais atribuídos a homens e mulheres. A igualdade entre mulheres e homens é considerada uma questão de Direitos Humanos e uma condição de justiça social, necessária para que as sociedades se tornem mais modernas e mais equitativas. É, por isto, um requisito para o desenvolvimento e uma condição para o exercício efetivo e pleno da cidadania. Infelizmente, a desigualdade existe, por isso prosseguimos num caminho de luta.

Celebrar o dia 8 de março é celebrar os direitos que as mulheres conquistaram até agora, mas também relembrar que ainda há muito por fazer. Causas como o direito ao voto, igualdade salarial, maior representação em cargos de liderança, a proteção em situações de violência física ou psicológica, ou ainda o acesso à educação continuam atuais.

A pandemia e a crise que se instalou colocou a nu as desigualdades e as injustiças sociais existentes quando se mede a sociedade em função do género, idade, religião ou orientação sexual. De facto, a pandemia está a aumentar as desigualdades e o impacto no mercado de trabalho afeta mais as mulheres.

As mulheres representam três quartos dos profissionais de saúde e outros três quartos dos profissionais de apoio social, setores fundamentais no combate à pandemia. Sou psicóloga, sendo a psicologia uma profissão maioritariamente composta por mulheres. Trabalho numa unidade de saúde com um homem e cinco mulheres. Apesar disto, o trabalho das mulheres continua a ser menos reconhecido, a diferença salarial continua a ser, em alguns casos, baseada no género. São também as mulheres que mais auferem apenas o salário mínimo e as que se encontram com vínculos laborais mais precários. Salários mais baixos, têm ainda como consequência prestações de proteção social e pensões mais baixas, condenando muitas mulheres a um maior risco de pobreza.

Para além desta diferença no trabalho formal, as mulheres são as que gastam mais tempo com o trabalho doméstico e com os cuidados à família, acumulando o trabalho formal com este trabalho invisível e não remunerado. O teletrabalho e o encerramento das escolas e das estruturas de apoio têm um impacto negativo nas mulheres porque elas são, na sua maioria as cuidadoras principais, quer dos mais novos quer dos mais velhos, traduzindo-se numa maior carga: mais cansaço, maior dificuldade em conciliar o trabalho com a vida pessoal e familiar, logo, menor produtividade. Recordemos ainda que mais de 80% das famílias monoparentais são compostas por mulheres.

Sabemos também que a pandemia reforçou uma outra pandemia, a violência doméstica, em que cerca de 80% das vítimas são mulheres. A pandemia não só agudizou os casos de violência doméstica já existentes, como despoletou novas situações, consequência dos períodos de confinamento que forçam a convivência permanente das vítimas com os agressores, com maior dificuldade de denúncia.

As violações de direitos, as desigualdades e a violência contra as mulheres são várias, complexas, distintas e tantas vezes invisíveis. Por tudo isto, é tão importante continuar a marcar datas como o 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Por tudo isto, continua a ser fundamental combater toda e qualquer forma de discriminação, desigualdade, desrespeito, violência contra as mulheres.

Rita Diogo, 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde
Cédula Profissional: 1494 (OPP)
 
 
 
 
 
 
 

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