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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

JAIME MILHEIRO | OBLIQUIDADES (10)

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OBLIQUIDADES (10)

Uma entrevista televisiva, hoje, não vale pela informação. Vale pela estranheza do confessado.
Sem cadáveres “exquis”, não interessará a ninguém. Precisa de vulgaridade, desbragamento e má língua misturados com sangue, para que títulos obtenha e audiências propicie. Exige que se conte o que nunca se contou, que se levantem indiscretas insinuações sobre os alcances da concorrência, que se chorem lágrimas malévolas sobre as mentiras do dia, porque só isso vende.
Fizeram-me inúmeras pequenas entrevistas ao longo da vida. Nada prestam por isso mesmo. Instintivamente enjeitei confessionários. Cuidei das palavras e cuidei de mim, decidindo dizer apenas o meu próprio dizer...

                                       (Bastaram-me as confissões
                                    e penitências em Brantães,
                                    com o padre da freguesia...)

recusando muitas outras pela mesma razão.
Por outro lado, na iniquidade corrente avolumou-se o conceito de que frente a um
microfone será preciso rematar. Significa aparecer, ser alguém, ser o melhor da
vizinhança.
Só coxos o não farão, na atitude pobre de quem das conveniências não trata e nem
percebe que os exibicionismos/voyeurismos lhes engrandecem cofres e dimensões.
Mesmo apenas discorrendo sobre a cera dos ouvidos ou sobre os buracos do corpo...
                                       (Quem não exibe não espreita,
                                    excitado não fica...
                                    Se as pessoas só falassem do que sabem
                                    Haveria um profundo silêncio)

tal sofisticação tornou-se glória suprema, porque o mais importante será vender
anúncios e buscar clientela.
As imensas transformações da Net e os narcisismos daí resultantes transformaram-se
em perverso movimento. Abalaram quanto éramos, descontrolaram quanto se
pretendia.

Distorceram a clássica equação de que será melhor calar do que mal dizer, tornando-
se uma questão de Saúde Pública sem vacina no horizonte.

Dar sentido ao pensamento, promover responsabilidade, orientar autenticidades,
continua a ser possível mas a muito longo prazo, considerando os estragos obtidos. Só
quando as dores forem mais fortes do que o prazer a imaginação retrocede.
Da mediocridade das redes sociais e das caixas de comentários muitos políticos já
seguem os caminhos. Supõem-se aptos a alterar as essências da História e as raízes
da vida em imbecilidades expansionistas.
Invejosos de quem ao longo dos tempos se distinguiu, igualizam por baixo e ao serviço
das suas próprias obliquidades propagam ideias inúteis e confrangedoras...
                                                   (Teremos de os ouvir
                                                   sem deixar de ser quem somos.
                                                   Nem haverá outro caminho...)

na postura de quem pensa que o Universo começou consigo.
Os seres humanos jamais perderão o seu “sentimento de percurso” e o seu
“sentimento de história”, mesmo que porventura esqueçam.
É isso que os define.

JAIME MILHEIRO

Jaime Froufe Andrade | Histórias avulso | Onde é a festa, rapaz? |

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Onde é a festa, rapaz?

Hoje, vou pelo lado das chamadas expressões coloquiais. São incontáveis, e todas têm, obviamente, as suas diferenças. Em termos de longevidade, há aquelas que vazam o tempo, acompanham-nos ao longo da vida. São o caso, por exemplo, do estar à rasca, ou ficar com os cabelos em pé. Outras não resistem à passagem dos anos. Desaparecem da gíria ou sobrevivem apenas na fala dos mais idosos. Quem disser a um neto que fulano é um pipi da tabela, ele, certamente, não entenderá. 

Usadas na conversa informal, de grande utilidade prática, as expressões coloquiais polarizam as palavras, no seio do discurso. Constituem património que todos usamos, no dia-a-dia.

Trago dos fundões da infância uma expressão coloquial fabulosa. Surpreendente o facto de só a ter ouvido uma única vez na vida. Mas não mais a esqueci. Tratando-se de uma pérola, justifica desenvolvimento.

A família, pais, avós, tios, netos, aproveitou aquele domingo solarengo para um piquenique. Escolhida uma clareira num pinhal fora da cidade, ao fim da manhã estávamos já preparados para o arroz de bacalhau, pataniscas, vinho, limonada para os miúdos… 

Em cima do meio-dia rebentou um grande foguetório. Estávamos em Agosto… A corricar por um carreiro do pinhal, surgiu, esbaforido, um fedelho, mais ou menos da minha idade. Um dos tios, pessoa com o desastrado hábito de se meter com a canalha, saiu-lhe ao caminho. 

Em tom impertinente, ríspido para o intimidar, pergunta-lhe: Onde é a festa, rapaz….? 

O fedelho foi competente na resposta: Em São Salamerda Mastiga...

 

Rita Diogo | O bullying voltou?

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A semana passada assistimos a um vídeo impressionante, em que um jovem foi colhido por um carro, quando tentava fugir das agressões de uma outra jovem da mesma idade. É um vídeo real, impactante, que nos faz sair do nosso conforto e nos faz pensar. O vídeo tornou-se viral nas redes sociais e trouxe a lume um debate importante sobre bullying. Falar sobre estes atos é fundamental numa sociedade que se pretende mais justa, inclusiva e integradora. Quando falamos de bullying é de integração de que falamos, é de educação de que falamos, é de valores de que falamos e é também de violência de que falamos.

A vida escolar e a vida social, devido à pandemia que vivemos, estagnou e passamos a relacionar-nos à distância, durante um período de tempo. Durante vários meses, não existiu contacto diário entre os jovens e crianças. Deixou de se viver e conviver em sociedade, passamos a viver mais isolados, e, portanto, não sujeitos a determinados comportamentos. Entretanto, a rotina começou a voltar à normalidade e os contextos onde os jovens e as crianças estão, não foram exceção. Entretanto, voltamos a ouvir falar de bullying.

O bullying não é um crime mas é composto por vários crimes: a ofensa à integridade física, a coação, a ameaça, a ofensa e a injúria. Sabemos que o bullying não é uma brincadeira, mas sim uma forma de agressão. Sabemos que o bullying não é uma situação de agressividade e/ou violência isolada mas sim continuada e repetida no tempo. Sabemos que o impacto deste tipo de violência pode ser devastador podendo gerar depressão, ansiedade, isolamento, stress pós traumático, reduzida auto estima e até mesmo levar ao suicídio. Sabemos que existem adultos com problemas de ajustamento e graves consequência na sua saúde mental por terem sido vítimas de bullying. Ora, se sabemos tudo isto porque se continua a desvalorizar este tipo de interação e as suas consequências na formação e desenvolvimento dos jovens e da sociedade? A violência gera violência e traduz uma grande dificuldade de viver em sociedade, traduz sempre uma desadaptação a regras sociais. Assim, é preciso reforçar que o bullying não é normal, não faz parte da criança ou do crescimento, não torna as crianças mais fortes ou resistentes à adversidade ou ao confronto. A violência é, assim, a promoção repetida de sofrimento, sem culpabilidade nem reparação! Seja ela física ou psicológica, claro. Quando não há culpa e/ou arrependimento perante a agressividade, esta transforma-se em violência.

O bullying corresponde a um comportamento intencionalmente agressivo, violento e humilhante, que envolve um desequilíbrio de poder: as crianças que fazem bullying usam o seu poder (a sua força física ou o acesso a alguma informação, por exemplo) para controlar e prejudicar outras crianças. É um comportamento repetido ao longo do tempo. O bullying inclui comportamentos como ameaçar, espalhar boatos, atacar alguém fisicamente (bater, arranhar, cuspir, roubar ou partir objectos) ou verbalmente (chamar nomes, provocar, dizer às outras crianças para não serem amigas de uma delas, gozar) ou excluir alguém do grupo propositadamente.

As crianças vítimas de bullying podem sentir-se constantemente com medo, ansiosas, com dores físicas e dificuldade em concentrarem-se na escola. Em muitos casos as crianças vítimas de bullying comprometem-se a permanecer em silêncio sobre as agressões como forma de evitar novas retaliações. Não se sentem capazes de lidar com a situação, achando-se impotentes para resolver o problema. Podem mostra-se zangadas, irritáveis, podem não querer ir à escola, podem dormir mal, ter pesadelos, ter dificuldades de concentração, ter vergonha, estarem mais fechadas e introspetivas.

É fundamental falar com as crianças sobre o que é a violência, como identificamos a agressividade em nós mesmos, o que representa, como se lida com a agressividade dos outros, como ser assertivo. As crianças que sabem o que é o bullying conseguem identificá-lo e podem falar sobre isso se acontecer com elas ou com outros.
É fundamental trabalhar as vítimas e os agressores. O jovem do vídeo não teve, felizmente, sequelas físicas graves que decorreram do atropelamento mas, e as sequelas emocionais? Que consequências terá ao nível da sua saúde mental, estabilidade e ajustamento? Como se fará a reparação desta situação traumática?

Por outro lado, quem agride, quem humilha, quem usa a violência verbal, física ou psicológica como estratégia de relacionamento com os seus pares, parece não estar bem no seu eu, parece desajustado, parece precisar de ofender para não ser ofendido. A ausência de empatia de quem agride é sempre um mau preditor do desenvolvimento.

Devemos considerar seriamente este problema e resistir à tendência para negar ou desvalorizar a su gravidade. O bullying não é um comportamento normal nem faz parte de crescer. Cada criança e jovem deve entender que é um comportamento é inaceitável e que não pode ser tolerado. Os adultos devem transmitir o exemplo da não violência, do respeito pelos outros e da empatia.

Rita Diogo

Odete Souto | A escola e os sujeitos aprendentes

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Na minha habitual crónica quinzenal regresso à escola, instituição que tem sido objeto de grandes parangonas por parte de “muitos/as entendidos/as” em matéria de apuramento de culpas, mas que, na minha humilde opinião, raramente colocam a análise na sua complexidade.

Quando falamos da escola devemos ter em conta que falamos de uma instituição de vida das crianças e dos/as jovens. Nesta perspetiva, tem que estar preparada para formar cidadãos/ãs e não pode ignorar dinâmicas que existem entre os/as alunos/as e as pessoas que os/as habitam, as suas histórias e as suas realidades. Da mesma forma, precisamos de ter a noção de que ninguém ensina ninguém, ninguém aprende sozinho, mas que todos/as aprendem beneficiando do papel da mediação que os/as outros/as podem exercer na nossa relação com o mundo. O património cultural não se transmite, ainda que seja objeto de apropriação, quer por via da influência deliberada ou ocasional dos/as outros/as, quer por via do processo de reinterpretação e de recriação do mesmo, por parte de cada um/a daqueles/as que vive esse processo de apropriação.

Cada escola está inserida num território com características próprias, quer em termos económicos quer em termos socioculturais.Cada comunidade escolar é específica e implica sempre uma abordagem ecológica e sistémica. No entanto, há documentos fundamentais que deveriam, a meu ver, ser objeto de estudo e fazer parte do curriculum, explícito ou não, de cada escola. São eles: Constituição da República Portuguesa, a “Convenção dos Direitos das Crianças”, a Lei de Promoção e Proteção e a Lei Tutelar Educativa. Da mesma forma, deveria ser do conhecimento de todos/as, o Projeto Educativo, o Regulamento Interno e do Estatuto do Aluno. São documentos fundamentais para a cidadania e, por isso, deveriam ter centralidade na escola e na formação.  A criança/aluno só se pode implicar no seu projeto de vida integrando a escola, a aprendizagem e os saberes escolares, se criar relação de pertença, se a sentir como sua e se fizer parte dela. É um sujeito de direitos que deve sempre ser ouvido naquilo que diz respeito à sua vida e esta audição tem que ser informada, consentida e com sentido.

As crianças e os/as jovens são atores sociais, produtores/as de cultura e devem participar ativamente nas instituições que integram, sejam elas a família, a escola ou outras a que pertençam, numa perspetiva democrática e emancipatória. Por esta razão, para além da partilha das diferentes culturas dos/as alunos/as, esta educação requer uma atenção acrescida dos/as professores/as e restantes agentes educativos aos processos de desenvolvimento e às formas de manifestação de preconceitos e discriminações, de riscos e de perigos a que estes/as possam estar expostos e/ou se exponham, e à implementação de estratégias e metodologias adequadas que reduzam esses sentimentos e atitudes.  Da mesma forma, é importante agir com firmeza sempre que os meios ao dispor se tenham esgotado e o desvio de comportamento e atitude se mantenham e, se necessário comunicar à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens com competência territoriale, se de crime se tratar cometido por jovem maior de 12 anos e menor de 16, ao Ministério Público, para efeitos de processo tutelar educativo.

Não é de certeza impondo, coagindo, não dando o espaço necessário para dialogar, contratualizar, partilhar, construir e integrar que se consegue formar, no sentido de assimilar e criar relações de pertença. Não é desprezando os contextos informais e não formais da educação que se consegue conferir condições de igualdade de oportunidades de acesso e de sucesso. Não é comparando o que é incomparável. Uma escola que assim se organiza inscreve-se num padrão de seleção, de segregação e de exclusão. A comunicação é coartada e a linguagem dos afetos, aquela que mais transmite, que mais comunica e que mais forma, não tem possibilidade de ser implementada. A empatia esbate-se e os processos de delinquência, sexismo, bullying, assédio, ganham corpo e dimensão.

De alguma forma a escola criou o/a aluno e o/a aluno/a desalojou a criança e o/a jovem, negligenciou a pessoa que habita esse aluno/a/pessoa. O/a aluno/a é considerado/a como aprendente, muitas vezes reduzido/a a um papel absolutamente passivo, entendendo-o/a como recetáculo de saberes e competências. Ignora-se, assim, a vida que entra na escola, com a criança e a cegueira impera. Não é possível ensinar nada a quem não está disponível para aprender e se estivermos em presença de alguém maltratado, de crianças em perigo, nunca conseguiremos, nesta postura, perceber sinais, ouvir os gritos silenciosos que tantas e tantas vezes dão sem que ninguém os ouça, e a escola está condenada ao insucesso em toda a linha.

A relação pedagógica é uma relação interpessoal, atenta, implicada e comprometida entre pessoas com diferentes papéis. E nesta perspetiva, somos todos/as sujeitos aprendentes.

Aos “especialistas especialmente especializados” que debitam em grandes parangonas as culpas sobre escola e a educação, desafio-os/as a virem passar um dia apenas, em algumas escolas e algumas salas de aula. Também seriam sujeitos aprendentes.

Maria Odete Souto

 

Eduardo Roseira | O VALOR DO TEMPO

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O VALOR DO TEMPO

A propósito do Dia Mundial da Criança

Neste Dia Mundial da Criança, quero-vos falar do valor do tempo.

Vivo na Beira Rio de Gaia, numa casa de janelas apontadas para a ponte Luiz I e com vista para as margens ribeirinhas do rio Douro.

E tal como muitos de vós, estive em 2020 e neste ano de 2021, por mais que uma vez, alguns meses sem sair de casa, sem conviver com os meus familiares e amigos e as poucas saídas foram para bem perto e apenas para o essencial.

Todos nós fomos obrigados a tal, pelo bem da nossa e da saúde dos outros.

Custou, claro que custou, mas tenho que vos confessar, que muito à minha maneira de ser, tive de encontrar o lado positivo dos dias em que estive em casa, cumprindo com o meu dever de cidadão, evitando sair.

Por exemplo, dei conta, de que o nosso rio Douro, está cheio de diversos tipos de aves, que eu desconhecia e nunca delas me tinha apercebido. Numa casa em ruínas, sem telhado, mesmo ao lado da minha, dei conta que lá dentro começou a aparecer uma enorme e linda árvore, cheia de folhas verdes, o que antes me parecia uma coisa a cair de velha, passou a ser uma imagem de beleza, ou seja, uma frondosa árvore a sair daquelas feias ruínas.

Mas meus amigos, aqueles meses sem sair de casa, deram-me para regressar aos meus tempos de criança e jovem e comecei a rir-me de mim próprio, mas passo a explicar:

Quando em mais novo fazia umas asneiras, o meu pai dizia-me:

            - Menino, já sabes, este fim-de-semana não há idas ao cinema?

– ou então, cortava-me o Sábado e o Domingo, sem poder sair de casa para andar de bicicleta, jogar à bola com os amigos e, pior, sem poder ir ter com a namoradinha.

            Ai, aqueles dois dias, pareciam-me dois meses, de tanto que me custava aquele castigo.

            E meus amigos, naquele tempo, não havia redes sociais, telemóvel, o próprio telefone era coisa de luxo e onde eu vivia, em Moçambique, não havia televisão, portanto aqueles dois dias pareciam-me dois anos…

E foi este regresso aos meus tempos de criança que me ajudaram a passar melhor aqueles meses fechado em casa e assim, passei a dar valor ao tempo.

            Tempo que tem um valor importante nas nossas vidas, se o soubermos aproveitar bem, especialmente por sabermos que quando regressarmos aos dias normais que aí vem, o contacto que tivermos com os nossos amigos, vai-nos saber melhor.

            Podia agora falar-vos mais sobre o valor do tempo, mas ninguém sabe ao certo o seu valor, por tal finalizo com um poema de Ruy Belo, que nos fala d’ “O VALOR DO VENTO”, que diz assim:

 

“Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento.

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e

só entram nos meus versos as coisas de que gosto

O vento das árvores, o vento dos cabelos,

o vento do inverno, o vento do verão.

O vento é o melhor veículo que conheço.

Só ele traz o perfume das flores, só ele traz

a música que jaz à beira-mar em agosto.

Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento

O vento actualmente vale oitenta escudos....pois…

Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto.”

 

Nota: No poema onde se lê “…oitenta escudos…”, podem trocar por “…oitenta euros…”, que de certeza que o poeta Ruy Belo, não se importará da substituição da moeda antiga, para a actual.

Desejo-vos que vivam e disfrutem o melhor que podem todos os momentos das vossas vidas, com os vossos familiares, professores e amigos, seja em dias de vento ou mais calmos. Lembrem-se que a vida é linda demais para perdermos tempo, só porque o dia é de vento e se partiu a janela do nosso quarto.

Eduardo Roseira

Natércia Teixeira | “Nenhum animal é tão selvagem quanto o homem quando ele tem o poder de expressar a sua raiva.”

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Proferiu esta frase Hannibal Lecter, personagem ficcional dos romances de Thomas Harris.

Sabe quem viu a magistral interpretação de Anthony Hopkins, tratar-se da história de um dos mais famosos e fascinantes psicopatas da história do cinema.

Psicopatia sendo um conceito controverso é uma designação atribuída a um individuo com um transtorno de personalidade cujo padrão comportamental passa despercebido numa sociedade para a qual a agressividade, o egocentrismo a frieza e a indiferença são condutas e recursos aceites e estimulados com vista a um determinado patamar de sucesso.

Estima-se que 2 a 4% da população, seja por predisposição genética ou vivencias perturbadoras, passível de se enquadrar nos padrões desta patologia.

Alguns cometem crimes, outros vivem paredes meias connosco e nunca matarão efetivamente ninguém.

Provavelmente nunca nos iremos cruzar com nenhuma criancinha perversa que nos matará o gato nem com nenhum médico alucinado que mate pessoas à dentada, mas a probabilidade de nos cruzarmos com “psicopatazinhos” de mochila ou colarinho branco é elevada.

Psicopatas são psicopatas e desvalorizar as suas condutas é tão mau como ignorar que estas pessoas existem e fazem vítimas.

Aprender a identifica-las é a única forma, de dentro do possível, nos protegermos daqueles que sem diagnostico clínico para problemas do foro mental, infernizam a vida de quem com eles tem de lidar.

É-me indiferente a terminologia que se lhes aplica, não sou, porém, indiferente acomportamentos reiterados,perpetradosintencionalmente com o intuito de roubar a dignidade a pessoas, quase sempre numa posição de vulnerabilidade, funcional ou emocional.

“Psicopatazinho” é o adolescente que sozinho ou em grupo, ostraciza, humilha e agride o colega de turma.

“Psicopatazinho” é o chefe de serviço que assedia moralmente o seu colaborador/a.

“Psicopatazinho” é o companheiro/a que desconsidera a integridade e a vida do outro e faz dela umparque de diversões.

Traços comuns destes indivíduos são a ausência de culpa e remorso; a mentira e a manipulação compulsivas, o encanto fingido e uma absoluta falta de empatia pelo sofrimento alheio.

Não conseguimos em muitas situações evitar estes contactos,temos porém,a obrigação de osexpor e de os combater, sejamos ou não os visados, isto para que nenhum jovem tenha de correr risco de vida ao ser atropelado a fugir de um bando de desequilibrados que o perseguem;

Ou que o nosso colega tenha de abandonar um trabalho que gosta porque um superior insano inviabiliza uma relação normal de trabalho;

Ou numa situação extrema, vejamos alguém que nos é caro absolutamente destruído porque se deixou enlear nas teias de uma relação toxica com alguém com estas características de personalidade.

Como observadora e sem ingerências em áreas que me são estranhas, constato que muito precocemente crianças e jovens dão sinais de desequilíbrios comportamentais que o fator educação não sendo alheio, não será preponderante, pelo que ajuízo que um rastreio a nível de saúde mental para identificar patologias e trata-las numa fase precoce, não seria de descartar quando isso se justifique, pelo bem do próprio, pelas vítimas, pelas organizações e por todos nós.

O primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem define:

TODOS os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.

Dotados de razão e de consciência, devem agir uns com os outros em espírito de fraternidade.

A segunda parte deste primeiro artigo poderia integrar uma declaração de Responsabilidades institucionais e pessoais, que infelizmente amiúde, são desconsideradas.

Tudo se educa e tudo se aprende, começar pelo conceito de fraternidade talvez seja o caminho, não para a cura de patologias, mas para uma mudança de politicas e posturas.

Natércia Teixeira

 

 

PROVA DE VIDA | Arnaldo Trindade | PODER DE SEDUÇÃO | COLHER A ÚLTIMA FLOR

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PODER DE SEDUÇÃO

poder de sedução
um dom
íman que atrai
o ser que 
quer dizer
o que lhe vai-na-alma-
mágico momento
de encantamento
não se desvanece
no tempo
distância
nunca mais
se esquece
 
Arnaldo Trindade
 
 
 
 
COLHER A ÚLTIMA FLOR
 
quando brisa ao ouvido sussurra
palavras que dizer teria querido
do céu água pura caía
alagando a terra dura
 
pelo sol e fogo empedernida
nunca mais podia ter vida
para azul celeste mudava céu
de repente em negro breu
 
mas para lá do horizonte
do outro lado do mar a fonte
terra mãe encontrou o amor
onde irá colher a última flor
 
Arnaldo Trindade

lourdes Dos Anjos | CANTAR PORTUGAL (dos pequeninos) | CANTAR PORTUGAL

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CANTAR PORTUGAL (dos pequeninos)

No pequeno mundo do Porto e arredores por onde semeio poesia, encontro um Portugal dos pequeninos, povoado de “vananas” e “vaidosos”. Os poucochinhos que restam são parolos e provincianos, palermas e sonhadores, talvez honestos e são, de certeza, “pobo”…
Quem diz que a cultura é para semear graciosamente, leva logo com um encolher de ombros como quem diz: “Deve ser fraquinha! “. e quem exige carro, tacho, palmas a acompanhar e uma notita para os alfinetes, é muito bom, é carote, mas é bom… é muito bom!
Há passeando-se, pavões, araras, papagaios domesticados e artistas de meio palmo no jardim dos “vaidosos”. Depois, no mesmo pequeno mundo, há gente que nunca diz “não” quando a cultura vai á procura de gente e encontra gente que quer ter cultura.
Isto passa-se com os grupos corais, os amigos que cantam Zeca e Adriano, os tenores, os músicos, as pessoas a quem pedimos para falar da nossa história, da sua estória, de saúde, de civismo, de poetas, de artistas que partiram mas deixaram obra e que continuam almas humildes, generosas, verdadeiras e sem brasões nem galões.
Tantos nomes que podia aqui escrever, tanta gente que comigo avança levando saber certo e sorriso franco. E quantas pessoas deixamos felizes, nos centros de dia, nas bibliotecas, nas igrejas, na cadeia…quantas vezes saímos com lágrimas nos olhos perguntando coisas estúpidas a um deus que nem sequer sabemos se existe; sentindo que lavramos terra barrenta e dura mas onde as papoilas ainda se conseguem vingar com tolerância, palavras certas e passos firmes. Somos o grupo dos Vananas. Vamos, vamos embora, vamos carago, e já lá estamos…sempre!
À mistura, ainda encontramos os lindinhos, os amigos dos senhores “dótores”, primos dos “inginheiros” e muito próximos do político que está na moda lá práquela banda. Querem nome em letra gorda nos cartazes, um lanche ajantarado com fotos e vídeos e, se possível, uma suite com bidé, para lavar os inchaços. Estes levam um cachet, porque, é claro, são pessoas muito solicitadas nos “inventos”, conhecem gente fina e fica bem levar uns euritos. Até porque levaram também uns “vananas” que são muito bons e são assim…coitados, boas pessoas…”vananas” a sério. Estes são os que militam e penetram nas fileiras de toda a “vida artística”, os tais que estão na TV, no comício dos Jotas e é claro no bar In da malta “bem”.
Depois há os outros. Há o “pobo” parolo e provinciano, honesto e sonhador, que é uma mistura disto tudo e que, porque é muito católico, perdoa tudo e ama os seus inimigos e vai a Fátima a pé e ainda acredita que os meninos chegam de avião, se não houver greve nos voos lowcoast, senão aproveitam mesmo o bico de uma cegonha que fez ninho ali prás bandas de Estarreja. e aparecem em casa à hora do tacho.
Sabem que mais: Estou velha e cansada. Pertenço à tal peste grisalha que hoje se tornou a maior casa da Misericórdia Portuguesa, porque paga as fraldas dos seus velhos pais que sonharam, para nós, um futuro diferente, paga as rendas de casa dos nossos filhos, agora quase tão pobres como os seus avós porque foram ficando desempregados; paga os livros dos nossos netos e isto enquanto se olha mensalmente para a reforma que vai mingando, mingando, mingando porque choveu muito e ela molhou-se.
Vivo a última etapa da minha vida num moliceiro que já nada consegue arrancar do fundo da ria de Aveiro, que perdeu o leme e anda ao sabor do vento e, ainda por cima, esqueci-me de tomar as pastilhas para o enjoo e farto-me de vomitar. Fiquem em paz…
Vou ver se amanhã acordo “baidosa” porque, hoje estou farta de ser “vanana”, ainda quero ter coragem de ser e morrer Pobo nesta terra portuguesa, e amar, até ao fim, este país tão mal frequentado. Se ainda souberem, ajudem-me a cantar, de pé, este hino maravilhoso:
“Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal
Levantai, hoje de novo, o esplendor de Portugal"
Lourdes dos Anjos
 

É CANÇÃO DE ROUXINOL. É SINO DE MADRUGAR
É LUZ MÁGICA E MANSA QUE ACORDA DEVAGAR
É MAR QUE SE FAZ PÃO EM DIA DE BONANÇA
É ERGUER A VOZ,BEM ALTO, NUM HINO À ESPERANÇA
É SERRANIA SILENCIOSA ONDE O RIO NASCEU
É PLANÍCIE FÉRTIL ONDE O CÉU ADORMECEU
É TRONCO FEITO LEITO, MESA, BARCO OU CAIXÃO
É FADO, FEITIÇO...É PROMESSA E ORAÇÃO
É MINHO, MILHO, COR AMOR E FANTASIA
É DOURO, É VINHO, VIDA,CENTEIO E ALEGRIA
É TER SOTAQUE E, ORGULHOSAMENTE, SER NORTE
É SALTAR A FRONTEIRA E DESAFIAR A SORTE
É ESCONDER AS LÁGRIMAS,AZEDAS, ATREVIDAS
É CANTAR, PARA ESQUECER,AS SAUDADES SENTIDAS
É MONDEGO E VOUGA E SOLO FECUNDO
É MARÃO,ESTRELA E ALENTEJO PROFUNDO
É SADO E SOL E MAR DE ÁGUA CALMA E CLARA
É BRISA QUE AGITA O TRIGO QUE COBRE E EMPRENHA A SEARA
É O BERÇO E A RAIZ DUM MUNDO NOVO
É TER ORGULHO DE SER E MORRER POVO.
É RESISTIR AO SONHO E OUTRA VEZ FICAR
É ABRAÇAR O CHÃO QUE NOS VAI SILENCIAR
É FAZER DOCE O AMARGO DO SAL
É, MESMO MAGOANDO,AMAR E CANTAR PORTUGAL

Lourdes dos Anjos

Manuel Cardoso (Paradela) | O Barroco Musical

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Esta nova idade da história da música inicia-se no final da renascença e abarca os séculos XVII e XVIII e tem como limite a Revolução Francesa.

O Barroco foi o mais esplendoroso e fértil período da história da música. Perante a luminosa herança cultural da renascença, o seculo XVII encontra-se diante de um dilema, ou sujeita-se a prosseguir o caminho desse passado, ou reagir abrindo novas perspetivas. Os tempos haviam mudado por isso escolheu a segunda via.

Um novo estilo artístico iria nascer em Itália, e, sobretudo em Roma e  sob o seu impulso tornando-se ela o 1.º grande cliente dos arquitetos, escultores, pintores e músicos do século XVII e XVIII.

A passagem para uma nova época históríco-cultural,  traz sempre consigo um sinal no sentido de instabilidade,  sobretudo na primeira faze da transição.

O Barroco é assim a fase artística em que a energia criadora do homem, se entrega a uma atribulada busca de forma, em que possa realizar-se o novo panorama.

Daí que o sec. XVII procure acima de tudo a liberdade da fantasia, e os efeitos capazes de suscitar emoções desencontradas de preferência à plena contemplação da beleza.

O que é então em música o estilo barroco?

Seria como nas demais artes, um movimento que iria restituir um desejo de renovação da linguagem musical, que representasse com realismo os sentimentos humanos. Todo ele teatral, expressivo e que se iniciará à partida com o género mais específico da sua vitalidade, a Ópera.

E hoje, para não enfadar mais fico-me por aqui, sem que na próxima vez que atormentar os leitores que têm a amabilidade de perder um pouco do seu tempo com a leitura dos artigos que aqui vou publicando, voltar ao mesmo tema.

Manuel Cardoso (Paradela)

 

AGENDA CULTURAL | Dia 26 de Junho em Mesão Frio: Abertura da Exposição "Diálogo Familiar" entre desenho e pintura de Arnaldo e Noly Trindade

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Mesão Frio recebe  Exposição “DIÁLOGO FAMILIAR”, de Arnaldo e Noly Trindade. A inauguração (26 Junho) contará com a participação da cantora Minda Araújo e amigos, sendo convidadas diversas individualidades do âmbito da Cultura.

A exposição está relacionada com o livro DIÁLOGO (FAMILIAR) ENTRE DESENHO E POESIA, que deixamos como sugestão de leitura.

No livro, Arnaldo é o pai, e Noly o filho. Como na vida. Mas há outro Trindade, o avô Januário Augusto Trindade, a quem é dedicada a obra. A belíssima pintura da capa deste livro já indicia o caminho escolhido e a caligrafia a acompanha-lo.

A entrada é livre, devendo ser cumpridas as medidas adotadas pela DGS, visando garantir a segurança e bem-estar dos visitantes.

 

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A exposição poderá ser visitada de segunda a sexta, das 9h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h00, na Biblioteca Municipal de Mesão Frio, situada na Avenida dos Combatentes, nº506 - Mesão Frio.

Como a segurança e o bem estar são fundamentais para nós, esta iniciativa decorre ao abrigo das orientações da DGS, cumprindo todas as normas de segurança e proteção.

Aguardamos a sua visita

 

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PROVA DE VIDA | Arnaldo Trindade - BAIÃO CANAL | Jornal N.º 7 - Maio 2021
 

Arnaldo Trindade

Arnaldo Trindade foi um conhecido editor na indústria fonográfica das décadas de 1960, 1970 e 1980 em Portugal. Foi o fundador da editora discográfica Orfeu.

 

Minda Araújo (vocalista da Brigada Victor Jara)

 

 

Crítica de Risoleta Pinto Pedro ao livro "diálogo familiar" de Arnaldo e Noly Trindade

UM LIVRO FEITO COM O CORAÇÃO NAS MÃOS

Sobre o livro: DIÁLOGO (FAMILIAR) ENTRE DESENHO E POESIA

Um pai, uma filha, um avô… ou um pai, um filho e uma neta… ou uma neta, um pai e um avô?

Não importa. Quando se abre o livro, somos surpreendidos pelo desaparecimento de Gutenberg, quero eu dizer, os velhos tipos que nos vêm contando histórias e dando notícias desde o aparecimento da tipografia, são aqui substituídos pela caligrafia, essa primeira escrita do tempo da inocência, de quando nos debruçávamos sobre o caderno de duas linhas com uma caneta a pingar tinta, a língua de fora num esforço concentrado de coordenação, reproduzindo os gestos dos copistas medievais. Quando a escola, antes de se transformar numa fábrica, ainda era um convento, para o melhor e para o pior.

A capa, com seu título e autoria escritos manualmente, já o indiciava, mas poderia ser estilo, efeito gráfico, originalidade editorial. Não é. Já lá vamos. Voltemos antes aos nomes apresentados como dos autores: Noly e Arnaldo Trindade. Este apelido diz-nos muito. Para além de ser encantador como pessoa, todos o conhecem como prestigiado editor das artes do som. É dizer pouco, mas diz mais do que se aqui nos limitássemos a desfilar a obra, o que deixamos ao critério de quem, não conhecendo, tiver curiosidade por mais. No livro, Arnaldo é o pai, e Noly a filha. Como na vida. Mas há outro Trindade, o avô Januário Augusto Trindade, a quem é dedicada a obra.

No interior, tudo, desde a ficha técnica até ao que arrisco nomear como posfácio, é caligrafado. E sem termos a pretensão de penetrar na motivação de quem fez esta opção, vale a pena debruçarmo-nos sobre o étimo da palavra “caligrafia” que vai ao grego (“kalligraphia”) buscar a raiz “kallos”, que traz o conceito de beleza da raiz indo-europeia “kal”, onde significa belo; “graphein”, tem a ver com o que é escrito ou gravado, palavra que passou a aplicar-se também ao registo de som. O que aqui se torna muito significativo. Com esta explicação, talvez me possa aventurar a acreditar que a belíssima pintura da capa já indicie o caminho escolhido e que a caligrafia prossiga estes passos. A opção pela estética é, aliás, a marca do trabalho fonográfico de Arnaldo Trindade, sempre marcado por enorme rigor num tributo à beleza, rigor sem o qual esta soçobra.

Numa espécie de ante-prefácio sem esse nome, Noly apresenta-nos a génese do livro. Entremos então nele com este primeiro texto. Ficamos a saber que presidiu ao nascimento deste livro um exercício de que um cabalista, ou Platão no seu “Fedro”, ou uma criança, não desdenhariam. Aqui mostra como olhou algumas palavas como se pela primeira vez, e como lhes reagrupou as letras. A propósito disto, anexo a esta crónica o endereço de um texto que escrevi em tempos sobre o nosso tão extraordinário quanto ignorado filósofo da linguagem, António Telmo e os processos de manipulação das palavras:

https://www.antonio-telmo-vida-e-obra.pt/news/voz-passiva-63/

O que Noly descreve no seu texto como explicação ou apresentação do que se segue no livro, é a operação a que começou por se entregar, decompondo palavras e criando polissemias. Mas existindo um sentimento prévio a esta decomposição que era o peso das palavras, foi pelo desenho que procurou expressá-lo. O que conseguiu. Temos então palavras, as mesmas decompostas, desenhadas e, cumprindo o prometido no título da capa “diálogo (familiar) entre desenho e poesia”, os poemas, onde entra o pai, artista dos sons e poeta, o que não deixa de ser algo muito parecido.

O prefácio, esse sim, assim nomeado, do editor Rui Vaz Pinto, e se me é permitido, um talvez posfácio de Jorge Cordeiro, são como lampiões que tal como o candeeiro presente em todos os desenhos, iluminam o que deve ser iluminado.

Na contracapa um ponto não final, mas de exclamação, sem a forma gráfica que lhe conhecemos, e sim com palavras:

“um apelo d'humanidade”. Assim termina este manuscrito impresso envolto numa capa como numa iluminura. Iluminado. Por tudo isso aqui especialmente recomendado.

Quarta-crescente” seguinte, nº472, em 2021-05-12 (http://www.unicepe.pt/quartas_14/q_472.html), Risoleta Pinto Pedro tem o post scriptum que segue:


(Na última crónica “trouxe” aqui um adorável livro elaborado num contexto de família, mais especificamente, a família de Arnaldo Trindade. O livro é dedicado ao seu pai e criado em colaboração com Noly... seu filho!, e não filha, como eu erradamente supus, apesar de nada me induzir a isso, apenas a minha fantasia. Vá-se lá saber porquê.

risoletacpintopedro@gmail.com 

OS PEQUENOS TAMBÉM SÃO GRANDES | Aníbal Styliano | Sentir o futebol

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Depois do tempo dos relatos na rádio, que permitiam a cada um ver o “seu” jogo, transmissões televisivas, a princípio raras e atualmente várias por dia, mudaram a forma de sentir o futebol. Perderam-se “deuses” e sonhos; agora alimentamo-nos de rotinas cansativas. A publicidade é terrível! A excelência cede lugar à normalidade e a jogada inesquecível é substituída por outra ainda mais original. Nem há tempo para saborear. A tecnologia pulverizou distâncias e uniformizou projetos de jogo. Os adeptos trocaram a proximidade dos ídolos pelos salários exorbitantes dos craques à distância de milhares de quilómetros.

Das entradas como “bando de pardais à solta”, despareceram muitos espaços livres para convívio e padroniza-se velozmente a forma de assistir: cada um na sua cadeira. Em casa, os sofás amontoam-se com a família, os amigos e não faltam palpites, comentários e críticas mais duras aos que falham golos ou passes perdidos: “Até eu marcava!”.

Como “tudo é composto de mudança”, a linguagem futebolística deixou-secontaminarpor uma novilíngua. George Orwell avisou do perigo que é real, porque impede o pensar em liberdade e acrescenta riscos de alienação!

Os dribles, dobras e coberturas cederam perante a largura e a profundidade.A desmarcação cedeu à pressão, a identidade e os duelos vão desaparecendo. O espaço de jogo é cada vez mais inflacionado pelo aumento da procura. A mobilidade aperfeiçoa a dinâmica e o contra-ataque passa a transição rápida. A movimentação coletiva implica dinâmicas diferenciadas, assim como a organização do jogo para controlar o espaço e a bola.

A reação à perda da bola ganha cada vez mais importância para a recuperar e regressar à organização ofensiva para criar espaços para finalização, em função dos jogadores de referência na área adversária. As táticas são mais fluídas e do 3x4x3, muda-se para o 5x3x2, ou mesmo o 4x3x3, de forma imparável… As diferenças diluem-se e tornam-se hábito.

Mas há sempre quem consegue improvisar, inventar um movimento que ilude o adversário e surpreende tudo e todos. São cada vez mais raros, mas ainda existem artistas que não perdem a bola. Normalmente são aqueles que ainda fazemreceções orientadas com a cumplicidade do esférico. Há equipas mais pragmáticas, com espaços definidos para cada um, e outras que nunca param,comsistemáticas trocas de posição.

Há quem aborde os princípios esub-princípios do jogo, diferentes periodizações, fatores de desequilíbrio, equipas com características definidas e quem prefira o jogo direto. Uns falam do modelo de jogo, outros preferem padrões, mas no fundo quem gosta de futebol (para além do clubismo) pretende emocionar-se com um passe inesperado, uma desmarcação surpreendente, um lance ao primeiro toque em velocidade, um golo impossível ou um voo do outro mundo de um guarda-redes que supera as leis da gravidade. E quanto mais cedo tivermos a oportunidade de memorizar lances fantásticos, mais colaboramos na imortalidade do jogo em que onze jogadores de cada lado disputam a posse de uma bola, para ganhar um jogo. Em momentos históricos, já houve jogos em que países que estavam em guerra e as suas equipas disputaram uma partida numa prova internacional, todos os jogadores deram uma importante lição aos governantes e ao mundo. Nessaépoca o futebol esteve prestes a ser um candidato a Prémio Nobel da Paz... Mas há sempre quem não o entende como linguagem universal onde, sem falar, apenas com o olhar e a expressão facial, todos se entendem completamente.

O futebol será sempre um espaço de inteligência em movimento. Nunca se pode repetir um jogo porque é único. Desde o apito inicial, a sorte (ou o destino) está lançada.

Se cada jogador se transforma num elemento especial, os adeptos e espectadores devem confiar no que estão a ver. Por vezes, quem comenta acrescenta pormenores parciais, podetentar alterar a percepção dos lances repetindo com insistência, para criar uma ilusão que acaba por se tornarnuma falsa realidade. Por isso, a velocidade com que se criticam árbitros, a relação de factos ocorridos no passado com o jogo do presente (sempre guardados para ocasião escolhida), as insinuações que “especialistas” mantém em lume brando e só usam quando oportuno, é muito intensa. Raramente, uma equipa de arbitragem recebe as felicitações pela sua ação! Será por esquecimento? É impossível (mesmo com tecnologia a auxiliar) acertar sempre ao longo de 90’ (mais o tempo extra) quando numsegundo cada um vê de forma diferente, em função do espaço em que se encontrae tem de decidir.

Sintam o jogo. Valorizem os lances de qualidade. Puxem pela vossa equipa sem perder tempo a insultar “os outros”, garantam-lhes confiança e, no fim reconheçam o esforço independentemente do resultado. Nós somos uma só equipa!

Grandes são os clubes que apoiam sempre a sua equipa.

É raro o adepto que diz: “A minha equipa joga hoje”. Sempre diz: “Nós jogamos hoje”. Este jogador númerodoze sabe muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os outros onze jogadores sabem que jogar sem adeptos é como dançar sem música.” Eduardo Galeano.

Aníbal Styliano (Professor e comentador)

 

 

ESTÁGIOS PARA JOVENS DO ENSINO SUPERIOR

Foram abertas mais de 300 vagas em todo o país      

PEJENE2021

Consulta aqui as vagas existentes!

Os estágios têm uma duração de entre 2 a 3 meses, e realizam-se entre os meses de julho e dezembro de 2020. O Estágio incluí a atribuição de subsídio de alimentação e de transporte, assim como um Seguro de acidentes pessoais.

PEJENE é um programa de estágios, promovido pela Fundação da Juventude, para jovens a frequentar o Ensino Superior em todas as áreas académicas.

Em 2021, a Fundação da Juventude contempla ainda a realização de workshops e palestras sobre temas ligados à empregabilidade: dicas para construção de um bom CV, preparação para uma entrevista, entre outros. Mais informação aqui: https://www.fjuventude.pt/pt/atividade 

PSD | “HÁ UMA CLARA FALTA DE VISÃO ESTRATÉGICA PARA A ZONA DA PALA!”

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PSD Baião apontou duras críticas ao atual executivo camarário durante visita à zona ribeirinha de Baião, no sábado

 

“HÁ UMA CLARA FALTA DE VISÃO ESTRATÉGICA PARA A ZONA DA PALA!”

Em 35 quilómetros de margem de rio, durante 16 anos, pouco ou nada foi feito. Foi esta a principal crítica expressa pelo PSD de Baião na conferência de imprensa realizada no sábado, dia 29, na margem do rio Douro, na Pala, Ribadouro. A presidente da concelhia do partido, Ana Raquel Azevedo, acompanhada pelo candidato do PSD à câmara municipal de Baião, Paulo Portela, sublinhou “os alertas que já haviam sido dados há quatro anos, para a falta de ideias concretas para uma área com extremo potencial” e que “infelizmente continua no mesmo estado de abandono”. Para Paulo Portela, “as atividades têm sido muito poucas, ou nenhumas, nos últimos 16 anos, para um concelho que tem cerca de 35 km de margem de rio”, adiantando que “as obras feitas nas diversas fluvinas do concelho são obras da única e exclusiva responsabilidade da APDL, a câmara limita-se a pedir e no fundo a colher os louros daquilo que não faz”.

Com ponto de encontro na zona da Pala, com o maior espelho de água entre o Porto e a Régua, o candidato do PSD à câmara municipal foi crítico sobre “a falta de utilização que há nestas infraestruturas e em muitas outras estendidas ao longo dos 35 quilómetros de rio, dentro do concelho”, o que reforça “a opinião dos operadores turísticos sobre a falta de incentivo ao turismo na nossa região, sem uma visão e estratégia de futuro, devidamente concertada com as necessidades”. “Por muito que o atual executivo afirme que faz, os operadores turísticos têm demonstrado uma grande insatisfação pelas políticas não concertadas que o atual executivo da câmara tem tido”, adiantou Paulo Portela.

“O tema não é novo”, garante Ana Raquel Azevedo. “Há quatro anos a nossa candidatura falou muito sobre o tema, sobre a falta de visão e de estratégia na área do turismo por parte da autarquia baionense, que continua sempre a reagir, em vez de agir e de pensar estrategicamente o concelho nesta área”.“Pelo número de barcos e pela quantidade de pessoas que passam por esta via marítima, podiam usufruir da nossa beleza, dos nossos restaurantes, dos nossos hotéis, é nisso que temos de trabalhar.Quatro anos passaram e continuamos na mesma, é preciso mudar a estratégia do concelho, é preciso pensar o concelho para o futuro e, não apenas, continuar a reagir em vez de agir”.

A estação da Pala, em Ribadouro, está na linha de atuação de Paulo Portela caso seja eleito. “É uma propriedade da Infraestruturas de Portugal, mas se formos eleitos propomo-nos fazer deste equipamento um polo de desenvolvimento desta zona, com a solicitação da concessão ao seu proprietário. É imperioso criar uma estrutura dirigida por públicos ou privados, para que seja um polo de alavancagem desta localidade da freguesia. Sem dúvida nenhuma, que aqui um bom restaurante,um bom café ou uma boa área de lazer, que são equipamentos inexistentes nesta zona do concelho, seriam uma grande mais-valia, tal como acontece em muitos outros locais, de outros concelhos, espalhados por esta linha tão linda do Douro”, propôs durante a apresentação aos meios de comunicação social.

“Com visão de futuro, é sempre possível fazer mais e melhor!  É lamentável que durante os últimos 16 anos as entidades públicas – quer a Infraestruturas de Portugal quer a câmara municipal - nada tenham feito com esta estrutura tão importante, localizadanum sítio privilegiado, junto ao Douro e com a linha do comboio, onde é fácil fazer acontecer. Era obrigação do atual executivo ter uma visão integrada para este espaço”, rematou.

PSD-BAIÃO

Prémio Manuel António da Mota - 12ª Edição (2021)

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Prémio Manuel António da Mota - 12ª Edição (2021)
Portugal Resiste

O Prémio Manuel António da Mota foi criado em 2010 pela Fundação Manuel António da Mota com o objetivo de reconhecer anualmente organizações que se destaquem nos vários domínios de atividade da Fundação.

Nas edições anteriores o Prémio Manuel António da Mota distinguiu instituições que se destacaram nos domínios da luta contra a pobreza e exclusão social (2010), promoção do voluntariado (2011), promoção do envelhecimento ativo e solidariedade entre gerações (2012), promoção da cidadania europeia (2013), naqueles que foram os Anos Europeus dedicados a estes temas, tendo distinguido em 2014 as instituições que atuam no domínio da valorização, defesa e apoio à família, por ocasião do 20º aniversário do Ano Internacional da Família.

Em 2015 distinguiu as instituições socialmente inovadoras nas respostas aos problemas sociais, tendo em 2016 consagrado instituições que se notabilizaram na apresentação de projetos nos domínios da educação, emprego e combate à pobreza e à exclusão social, retomando em 2017 o tema do combate à pobreza e à exclusão social, com particular enfoque na pobreza infantil, dos jovens e das famílias.

Em 2018 e 2019, na sua 9ª e 10ª edições, o Prémio Manuel António da Mota deu relevo às instituições que contribuíram com os seus projetos para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Em 2020, o Prémio Manuel António da Mota, sob o lema “Portugal vence a Covid-19”, premiou as instituições que se distinguiram no combate à crise epidémica e às suas consequências nas áreas do combate à pobreza e exclusão social, saúde, educação, emprego, inovação e empreendedorismo social, inclusão digital e tecnológica e apoio à família.

Em 2021, na sua 12ª edição, o Prémio Manuel António da Mota retoma a agenda do ano anterior e, sob o lema “Portugal Resiste”, premiará as instituições que se distingam no combate às consequências da crise pandémica nas áreas da luta contra a pobreza e exclusão social, saúde, educação, emprego, apoio à família, inovação e empreendedorismo social, inclusão e transição digital e tecnológica e transição climática.

Pelo décimo segundo ano consecutivo, a Fundação Manuel António da Mota e a TSF-Rádio Notícias formalizaram uma parceria para a divulgação do Prémio e das iniciativas que lhe são inerentes.

Podem candidatar-se ao Prémio pessoas coletivas de direito privado sem fins lucrativos, nomeadamente instituições particulares de solidariedade social (IPSSs), fundações, associações, cooperativas, organizações não governamentais (ONGs), incluindo as da área do ambiente, e outras entidades que integrem o setor da economia social e se encontrem regularmente constituídas de acordo com a legislação em vigor.

Podem ainda candidatar-se pessoas coletivas de direito público de âmbito nacional, regional ou local, nomeadamente autarquias, estabelecimentos de ensino básico, secundário ou superior, estruturas de saúde públicas, centros de estudo e de investigação e outros organismos públicos com projetos enquadráveis no âmbito do respetivo regulamento.

Pelo décimo segundo ano consecutivo, a Fundação Manuel António da Mota, promotora do Prémio, renovou com a TSF – Rádio Notícias uma parceria de comunicação para a divulgação do Prémio na antena da rádio e das iniciativas a ele associadas.

Toda a informação poderá ser consultada em www.fmam.pt.

 

 

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Entregues, até ao momento, 11 682 armas nos Postos da GNR
Se tem armas de fogo não manifestadas ou registadas, regularize a situação em qualquer Posto da GNR.
Nos termos da Lei 5/2021, de 19 de fevereiro, decorre, até dia 23 de junho, o período de entrega voluntária de armas detidas fora das condições legais, sem consequência para os seus detentores.