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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

Jaime Froufe Andrade | Histórias avulso

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(A pandemia pôs-nos à espera do futuro. Parados pelo vírus, talvez seja tempo para percebermos o que deixámos para trás. É essa a proposta de Histórias avulso)


Naquele tempo era assim


Estou cercado por licenciados, doutores, investigadores, cientistas, mestrandos e quejandos. É no meu seio familiar, no prédio onde vivo, na casa ao lado, no prédio em frente, em toda a minha rua, nas ruas circundantes, na cidade, no País. A senhora do pomar onde compro laranjas tem um filho investigador. E a filha do sapateiro-rápido mais próximo é cientista. 


Este fantástico manancial de sabedoria certificada que corre à minha volta faz-me sentir um iletrado. De facto, tenho apenas dois diplomas. Muito pouco para os dias de hoje. Um, o do antigo 7º ano do liceu; o outro, o diploma de ranger. Ainda tentei um curso de tirador de cerveja, mas desisti por falta de vocação.


Ironia à parte, devo dizer que muito me agrada ver passar por mim este manancial de canudos. Faz-me prova de quanto Portugal avançou no campo do ensino. É preciso não esquecer que em 1973, anos depois da ida do Homem à lua, quase 30% dos portugueses não sabia ler nem escrever, e cerca de 50% apenas conseguia rabiscar o nome e soletrar os títulos das notícias. 


Venho de um tempo em que os doutores por cá não eram muitos. Era aconselhável ter-lhes muito respeitinho. Sabe com quem está a falar? poderia ouvir alguém, novo ou velho, se não tratasse o senhor por  “senhor doutor”... 

Na dúvida era sempre preferível não arriscar outro tratamento. Sobretudo se o senhor trajasse bom fato. Ou então conduzisse automóvel de boa marca. Não era o meu caso, mas mesmo assim também suscitei dúvidas. No momento de abastecer o carro, por exemplo: Quanto vai meter hoje, senhor doutor? Acabei por informar o funcionário da bomba da minha condição de não doutor. Ficou desorientado. Da vez seguinte, já recomposto, perguntou-me: Quando vai meter hoje, senhor engenheiro? Naquele tempo era assim.

 
Jaime Froufe Andrade
 
 

Rita Diogo | Preconceito e violência, duas faces da mesma moeda?

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Na sequência da minha crónica anterior na qual abordei o bullying enquanto forma de violência que, deve ser combatida por todos nós, hoje trago-vos uma perspetiva que considero complementar sobre a violência assente no preconceito e na discriminação.

Se pensarmos sobre a formação da palavra “preconceito”, surge de imediato “pré + conceito”, ou seja, o conceito criado à priori, antes de sabermos mais sobre algo ou alguém, antes de recolhermos informações sobre algo ou alguém. Preconceito é um "juízo" preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude de discriminação perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou "estranhos". O preconceito faz parte do domínio das crenças, na medida em que assenta numa base irracional e não no conhecimento que é fundamentado no argumento ou no raciocínio sobre algo. O preconceito implica sempre um conhecimento inadequado ou um juízo falso. Os preconceitos são generalizações inflexíveis, rígidas e equivocadas.

O preconceito está intimamente ligado à intolerância e à discriminação, sendo que discriminar significa, de um modo abrangente, “fazer uma distinção”. A discriminação nega às pessoas os seus direitos naturais ou legais pelo simples facto de serem membros de um grupo desfavorecido e estigmatizado. A discriminação reforça os preconceitos e os preconceitos fornecem as racionalizações que justificam a discriminação.

O preconceito é uma das mais perversas estratégias de opressão que rege o processo discriminatório nas sociedades. A violência do preconceito, além de produzir o isolamento entre os indivíduos, introduz a desconfiança entre os pares. Sob o desígnio do preconceito, os indivíduos tornam-se cúmplices do processo social que os engana e violenta. O preconceito, usualmente incorporado e acreditado, é o reprodutor mais eficaz da discriminação e da exclusão, portanto da violência. Supõe que o indivíduo portador do preconceito pode causar algum prejuízo ao sujeito vítima do tal preconceito.

Um dos mais nobres princípios da democracia é garantir os direitos e as liberdades individuais e a superação das discriminações, referentes a status, género, sexualidade, nacionalidade, religião, cor de pele, etnia entre outros. Cada um tem o direito, mas também a responsabilidade, de travar situações discriminatórias. Por mais pequenos que possam parecer, os insultos, as agressões, os comentários, os discursos de ódio, não podem ser aceitáveis. A experiência do insulto, da violência, da exclusão é tão comum que pode passar despercebida. É o traço comum da “piada”, do gracejo acerca da diferença e também da indiferença em relação a isto a que nos devemos opor. Nesta perspetiva, podemos também considerar a empatia. Quando temos dificuldade em nos identificarmos com os outros, quando exorcizamos as diferenças, quando catalogamos as pessoas por meras características e damos a esta categorização uma tónica negativa e pejorativa, cristalizam-se os preconceitos. A reduzida empatia também potencia o desenvolvimento de preconceitos. Não esqueçamos que a empatia é de alguma forma seletiva, na medida em que é mais fácil desenvolvê-la quando há identificação, quando reconhecemos um pouco do outro em nós, ou um pouco de nós no outro.

Falamos de preconceitos religiosos, em relação à mulheres, contra pessoas de outra nacionalidade, sexual e de género, de preconceitos sociais, étnicos e raciais... e tantos outros que em nada contribuem para o exercício e promoção da cidadania. Falamos de situações de violência norteadas pela não aceitação das diferenças, pelo desrespeito pelo outro, pela assunção de uma falsa supremacia. Falamos de situações de violência que são justificadas, vinculadas, suportadas e têm a sua base em preconceitos. Nenhum de nós será livre de usufruir dos seus direitos enquanto estes forem negados ao seu próximo.

 

Manuel Cardoso (Paradela) | Características Do Estilo Musical Barroco c/ vídeo

Manuel Cardoso

O período do barroco na música, contem um estilo que se distingue com o uso com o emprego do baixo contínuo, em que a música deve estar subordinada à expressão do texto, à expressão dos diversos sentimentos nele contidos.

É que nesta época a música era uma linguagem mais compreensível que hoje, tanto o discurso sonoro como o texto era exposto com mais precisão, seguia fórmulas familiares aos músicos (compositores e interpretes) e ouvintes.

Era uma linguagem exata e acertada, compreensível e compreendida. Hoje somente ouvimos esta música sob o ângulo estético, (belo) já não compreendemos a sua fala cheia de virtude particular.

O barroco irá desenvolver todo um sistema de correspondências musicais para as figuras literárias de retórica, um completo vocabulário musical fixo que poderá ser transmitido e ensinado. Daí a proliferação de teorias musicais sobre emoções.

Se formos até Bach, depararemos nele com variadíssimos sinais musicais de significado concreto ou de referência extra-musical suscetiveis de tradução exata, de tal modo os modelos sonoros de que servia, tinham uma finalidade bem definida.

O mesmo podia dizer do estilo de execução em que se deve fazer a leitura musical dessa linguagem, a começar pelo campo específico da ornamentação. A 1.ª obra dedicada ao assunto ao assunto foi o “Tratado de Ornamentos” do violinista e compositor Tartini em (1771).

O barroco foi também a época de desenvolvimento de instrumentos como o cravo e o órgão.

Acho que me fico por aqui para não enfadar mais, com a promessa de voltar ao mesmo tema.

 

 

 

Manuel Cardoso (Paradela)

DUAS DE LETRA | Lourdes dos Anjos | A culpa é do São João

Lourdes dos Anjos

Das "ilhas" do Porto saem as rusgas

No céu , em festa,dançam estrelas e balões
Com velhos testos e latas se fazem canções
Com papel colorido e tranças roliças
Se unem janelas e varandas fronteiriças
Cheira a manjerico e a erva cidreira
Conta-se á moça uma estória brejeira
O alho porro procura a careca do folião
Entre "sério" e "brincadeira" sai um palavrão...
Salta-se a fogueira e sem ninguém ver
Queima-se a inocência num canto qualquer
O sol e a lua adormecem lado a lado
O dia nasce, ao meio dia, enevoado
Aos pés de Cristo, na cascata das Fontainhas
Deixam-se as penas das asas das andorinhas...
Nessa noite, o pecado tem perdão
O CULPADO DO PECADO, É S. JOÃO.
 
Lourdes dos Anjos
in O PORTO NAS NOSSAS MÃOS


O S.JOÃO DO BONFIM

Da padaria Santa Clara solta-se o cheiro da regueifa quente
Dos arredores da cidade vai chegando um mar de gente
Estremunhada e coscuvilheira aparece a lua
Ao som de testos e bombos, uma rusga desce a rua
Nas janelas há enfeites de papel e balões coloridos
Ao desafio, cantam-se refrões mil vezes repetidos

-AI ORVALHEIRAS, ORVALHEIRAS, ORVALHEIRAS
E VIVA O RANCHO DAS MULHERES SOLTEIRAS.
-AI ORVALHADAS, ORVALHADAS, ORVALHADAS,
E VIVA A RUSGA DAS MULHERES CASADAS.

No céu do Porto o nevoeiro adensa-se e esfria
E obriga a rodopiar até ao nascer do dia
No rosto há o gosto acre do alho porro e da erva cidreira
A cidade cheira a sardinha assada que pinga na broa caseira
Na madrugada, espevita-se o carvão para o caldo verde quentinho
Depois, ateia-se o fogo com malgas de barro donde esborda o vinho.
Enchem-se as ruas de foliona multidão
ONDE TODOS SÃO POVO. SEM TÍTULO OU BRAZÃO
Nos bairros há bailaricos e mexericos
E até a atrevida viúva com o "home" ainda quente
Dá "duas voltas do vira" com o vizinho da frente
Ao romper do dia,em cada canto, há arrolados
Há beijos e juras de namorados. E nove meses passados,
Há a cinza das fogueiras apanhada aos braçados
E a orvalhada da tripeira noite sanjoanina,
Para umas trouxe um moço, para outras, uma menina!

lourdes dos anjos
in NOBRE POVO
EDIÇÕES GAILIVRO