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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

Eduardo Roseira | MARTELINHOS DE S.JOÃO

Eduardo roseira

Quantos de nós, não andamos já de martelinho de plástico na mão, ano após ano, nas noitadas de S. João, sem sabermos qual a sua origem.

            Tudo começou em meados da década de sessenta, quando Manuel Boaventura, emigrante em França, estava sentado à mesa de um restaurante, pegou por acaso num saleiro-pimenteiro em forma de fole e num rasgo de inspiração lhe surgiu a ideia de fabricar um martelinho de plástico com o formato do respectivo utensílio culinário, que produzisse um som quando o fole fosse pressionado.

            Posta a ideia em prática, o irreverente martelinho surgiu pela primeira vez em 1968, a pedido dos organizadores da Queima das Fitas do Porto, que pretendiam “qualquer coisa” que animasse o Cortejo, oportunidade que Manuel Boaventura não deixou escapar dado que já há uns tempos tinha em “stock” uns milhares de martelinhos, sem saber que destino lhes dar.

            O seu espanto foi enorme, quando ao ver passar o Cortejo da Queima das Fitas, deu com os estudantes bem ao seu modo folgazão, a baterem na cabeça uns dos outros com os martelinhos que tinha inventado e fabricado sem nenhum fim específico.

            Os estudantes tinham acabado de lhe dar uma brilhante ideia.

                       Assim, no S. João desse mesmo ano decidiu distribuir pelos vendedores ambulantes das Fontaínhas, no Porto, para estes darem às crianças os martelos que lhe tinham sobrado.

            Entretanto, no ano seguinte, por pressões do então Vereador da Cultura, da Câmara Municipal do Porto, Paulo Pombo, o Governo Civil do Porto proibia Manuel Boaventura de colocar no mercado os hoje célebres martelinhos; “por estes atentarem contras as tradições sanjoaninas, as quais os portuenses devem defender”.

            Este caso arrastar-se-ia ao longo de três anos pelos Tribunais e foi bastante “martelado” pela imprensa da época.

            A “tese” dos martelinhos acabaria por vencer e estes instalaram-se definitivamente na noite sanjoanina como símbolo do trabalho, agressividade e de vontade do povo do Porto e do Norte.

            O popular martelinho de S. João, como é conhecido, tem sofrido, quase anualmente, metamorfoses na sua essência, pelo que, de símbolo de trabalho, passou de símbolo “agressivo”, a símbolo dócil, de lazer e de vontade para o desejo…

            Alhos porros, erva cidreira, manjericos, farturas, cascatas, rusgas e a inevitável passagem pelas Fontaínhas, continuam ainda a fazer parte da tradição e do “folclore” da noitada do S. João portuense. Mas o martelinho de plástico veio mesmo para ficar e ter uma forte influência nas festas sanjoaninas, provocando uma certa ruptura na tradição.

            Há quem não goste lá muito deste “martelar” a cabeça e prefira, porque tradição é tradição, ir para casa com cheiro a alho porro,,,

Cá por mim, levar com um, ou outro pouco me importa, afinal é o nosso S. João!

            Na noite de 23 para 24 de Junho, em que se celebra o Solstício de Verão e a liberdade na sua essência mais pura, o povo sai à rua numa mescla de idades, condições, credos e raças para gozar de forma anárquica a maior festa democrática do Mundo, que é o S. João do Porto, com as ruas pejadas de gente a dar azo à sua folia, brincando de forma fraterna o S. João, num espírito único em todo o Mundo.

            Esta crónica é também de saudades de um S. João que nos foi roubado já pelo segundo ano consecutiva, por uma sacana de pandemia.

            Eu que até nem sou de rezas, já dei comigo a orar ao nosso santo, que nos livre desta praga, a ver se para o ano podemos sair à rua em liberdade…

 

Eduardo Roseira

Natércia Teixeira | "Chegamos ao Cabo das Tormentas quando o tempo que nos resta é menor do que aquele que já vivemos."

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Chegamos ao Cabo das Tormentas quando o tempo que nos resta é menor do que aquele que já vivemos.

O Dom Juan cinquentão estremece… “la femme fatale” indaga sem ingenuidade se o objeto do seu desejonão apreciará mulheres mais jovens.

Não serão a falta de cabeças a voltarem-se quando passamos, a maior preocupação neste processo…será, no entanto, uma inquietação já que não existe qualquer glória na decadência.

Envelhecer é um percurso natural que se inicia quando se nasce e termina quando se morre, inevitável e incontornável.

Inevitável também causar inseguranças, angustias e incertezas, compreensíveis quando se sabe estar a meio caminho de um término.

Pesem embora os cabelos brancos e as rugas de expressão, raramente são elas a confrontar-nos com a realidade…quase sempre são os outros…mais que as “dores” que vão e vêm como visitas, a lembrar-nos que estamos “velhos”.

Começa no dia em que somos apanhados desprevenidos pelo pasmo de um jovem que estranha as all star que calçamos…continua com o espanto de outro por não termos ainda sido vacinados para a Covid-19…dá a machadada final na nossa ilusão de juventude,alguém que nos questiona quanto à idade que temos e em modo brincadeira acrescentamos dez anos à realidade e recebemos o elogio da iniquidade:

“estás muito bem para a idade!”

Esta é a idade do limbo…em que os jovens nos acham “velhos” para quase tudo; os da nossa idade, “velhos” para quase nada; os mais velhos nos consideram jovens; e nós… depende do dia.

Chegados ao topo do promontório, onde a vista é mais ampla e realista, importa não nos deixarmos subjugar pela tirania dos números nem pelo devaneio da sua irrelevância.

Negar-lhe importância é desvirtuar o supremo objetivo da vida;permitir que nos maniete, é depreciar o caminho adiante.

Pessimistas e otimistas, envelhecerão na mesma, porém não trilharão o mesmo caminho.

Tormentas todos teremos, Boa Esperança terão alguns…provavelmente aqueles que ainda se lembrem que o Gigante Adamastor só existe nos nossos medos e que não foi a escuta-lo que chegamos a outros mundos.

 

Natércia Teixeira

 

A morte por afogamento é rápida e silenciosa!

A morte por afogamento é rápida e silenciosa!

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Perto da piscina ou do mar, nunca perca a criança de vista e vista-lhe sempre um colete ou braçadeiras;

Esteja sempre atento a todos os movimentos das crianças, seja dentro de água ou à beira da piscina;

Nunca deixe uma criança sozinha na água;
Nunca deixe brinquedos dentro da piscina, pois é uma situação que chama a atenção da criança e pode revelar-se fatal;
Se tem piscina em casa, quando a piscina não estiver a ser utilizada, tape-a com uma tela ou lona de proteção;
Na praia respeite sempre as condições do mar e a cor das bandeiras.
Bastam apenas alguns segundos sem supervisão para tudo acontecer!

Aníbal Styliano | OS PEQUENOS TAMBÉM SÃO GRANDES | Os jogos com Veteranos

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Eram sempre dias de festa, de encontro de famílias, de adversários que forjaram grandes amizades, sem esquecimentos, de convívios com memórias, sentidas de modo diferente, nunca opostas mas complementares. Mal a pandemia seja vencida, aí estaremos de novo para sentir os tempos que nunca se perdem. Durante alguns anos, participei pelo FC Porto, pelo Sport Progresso e pelo SC Salgueiros em jogos particulares, festas de futebol e amizade, com momentos inesquecíveis. Acumulei jogos pelo FC Porto e pelo SC Salgueiros, embora quando os dois clubes se defrontavam a minha participação era mais para a fotografia, porque nem podia ser de outra forma. Durante alguns anos, o meu grande amigo e companheiro de equipa, Zé da Costa e eu coordenamos a seção de Veteranos do Salgueiros, com registosde presença em treino semanal, no cimento atrás da baliza junto aos balneários do Vidal Pinheiro. Foram muitos os convites, muitos os jogos, sempre sem campeonatos, mas como convívios. Encontramos vários adversários e no fim, o lanche/jantar de quem recebia, tornava-se um momento especial que trazia memórias de jogadas, de golos, de malandrices. Sempre com ex-árbitros que mantinham a solenidade imprescindível. Dois episódios que merecem evocação entre outros. O clube que, além do FC Porto mais jogos realizou com o Salgueiros foi o União de Lamas que nos recebiam sempre com muito carinho e bom repasto. Pelo FC Porto a minha estreia foi para substituir o Leão de Génova (Virgílio Mendes) que por ele nunca sairia do jogo. Aos 10’ entrei, para outra posição, numa equipa de grandes amigos, companheiros e craques (Séninho, Gualter, Custódio Pinto, Francisco Nóbrega, José Rolando, Festa, Tibi, Valdemar e muitos outros) passando para médio e refazendo a tática. Jogar pelo FC Porto implicava sempre um jantar com autarcas das terras onde íamos (inclusive àilha da Madeira) e umas memórias partilhadas com emoção. Pelo Salgueiros, com o Benfica em Vidal Pinheiro, a equipa era construída em função das presenças ao treino de 2.ª feira. Ora para jogar tinha de ter presenças. Aconteceu que o jogo foi divulgado na Comunicação Social o que atraiu mais gente ecolegas. Como estava estipulado que só quem treinasse jogava, fizemos uma votação para decidir a participação dos que nunca treinaram. Foi decidido acolher todos, E assim, cumprindo as regras mas aceitando exceções, tudo correu muito bem. Tão bem que arranquei com a bola pelo corredor esquerdo, o saudoso Camolas atrás de mim e, junto à área, rematei sobre a barra. Comentei em casa que fiz uma jogada das antigas. Porém, o vídeo é terrível e a cassete revelou dois jogadores a correrem devagar e o da frente a rematar após esforço estóico. Os vídeos deveriam ser proibidos! A partir daí, no aniversário do Salgueiros conseguimos organizar jogos anuais com o FC Porto e os com mais idade, cederam o lugar aos mais novos, nos Jogos da Amizade. Como jogador jovem profissional, integrei seleção de amigos para homenagear jogadores de clubes distritais. Mais do que o jogo, a festa, os aplausos ao jogador que se despedia, a emoção que os adeptos partilharam foi inesquecível, porque esteve presente o essencial do futebol: a amizade com disponibilidade. Gente simples que tanto deu aos clubes, que uniu populações e que construiu família alargada. Para nós foi sempre linda a festa, mas para o jogador que abandonou foi momento único, ser aplaudido por todo o estádio com sorrisos de gratidão.

Nesses jogos, trocavam-se memórias de lances e havia um regresso que supera o tempo e destaca o essencial: jogar com prazer e dando tudo o que se consegue. Vestir uma camisola de um clube, por mais modesto, era atingir o topo do futebol porque havia adeptos que os apoiavam e acompanhavam para todo o lado. Esse futebol, com balneários simples, com bolas contadas e sorteios para arrecadar receita extra para reduzir despesas, nunca pode ser esquecido. Mais, tem de ser apoiado porque aí reside a paixão do jogo, a identidade das regiões, a partilha da amizade. Aí nascem os talentosque os grandes clubes vão buscar e, também por isso, merecem apoios maiores porque só quem tem espírito de sacrifício, de dedicação à comunidade, de constante empenho para criar condições e conseguindo pagar despesas, deveria ser prioridade para a FPF e respetiva Associação Distrital de Futebolreconhecer o mérito, apoiar muito mais e reduzir bastante os encargos. As autarquias são também parte interessada e imprescindível.

Prioridade: Apoiar sempre o clube da sua localidade.

A proximidade é valor a cultivar com disponibilidade e colaboração.

Neste momento, cumpro o meu minuto de silêncio pelos amigos que já partiram, mas que nunca serão esquecidos!

 

Aníbal Styliano (Professor e comentador)