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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

DUAS DE LETRA | Lourdes dos Anjos | A culpa é do São João

Lourdes dos Anjos

Das "ilhas" do Porto saem as rusgas

No céu , em festa,dançam estrelas e balões
Com velhos testos e latas se fazem canções
Com papel colorido e tranças roliças
Se unem janelas e varandas fronteiriças
Cheira a manjerico e a erva cidreira
Conta-se á moça uma estória brejeira
O alho porro procura a careca do folião
Entre "sério" e "brincadeira" sai um palavrão...
Salta-se a fogueira e sem ninguém ver
Queima-se a inocência num canto qualquer
O sol e a lua adormecem lado a lado
O dia nasce, ao meio dia, enevoado
Aos pés de Cristo, na cascata das Fontainhas
Deixam-se as penas das asas das andorinhas...
Nessa noite, o pecado tem perdão
O CULPADO DO PECADO, É S. JOÃO.
 
Lourdes dos Anjos
in O PORTO NAS NOSSAS MÃOS


O S.JOÃO DO BONFIM

Da padaria Santa Clara solta-se o cheiro da regueifa quente
Dos arredores da cidade vai chegando um mar de gente
Estremunhada e coscuvilheira aparece a lua
Ao som de testos e bombos, uma rusga desce a rua
Nas janelas há enfeites de papel e balões coloridos
Ao desafio, cantam-se refrões mil vezes repetidos

-AI ORVALHEIRAS, ORVALHEIRAS, ORVALHEIRAS
E VIVA O RANCHO DAS MULHERES SOLTEIRAS.
-AI ORVALHADAS, ORVALHADAS, ORVALHADAS,
E VIVA A RUSGA DAS MULHERES CASADAS.

No céu do Porto o nevoeiro adensa-se e esfria
E obriga a rodopiar até ao nascer do dia
No rosto há o gosto acre do alho porro e da erva cidreira
A cidade cheira a sardinha assada que pinga na broa caseira
Na madrugada, espevita-se o carvão para o caldo verde quentinho
Depois, ateia-se o fogo com malgas de barro donde esborda o vinho.
Enchem-se as ruas de foliona multidão
ONDE TODOS SÃO POVO. SEM TÍTULO OU BRAZÃO
Nos bairros há bailaricos e mexericos
E até a atrevida viúva com o "home" ainda quente
Dá "duas voltas do vira" com o vizinho da frente
Ao romper do dia,em cada canto, há arrolados
Há beijos e juras de namorados. E nove meses passados,
Há a cinza das fogueiras apanhada aos braçados
E a orvalhada da tripeira noite sanjoanina,
Para umas trouxe um moço, para outras, uma menina!

lourdes dos anjos
in NOBRE POVO
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