Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

Morreu Jorge Sampaio ! Recordar de uma forma diferente (Gentilmente cedido por Rui Melo Pato)

241282347_2940956619552256_3662826372312147401_n.j

 

JORGE SAMPAIO VEIO A COIMBRA PARA EMENDAR TOMÁS
(nas comemorações do 30º aniversário do 17 de Abril em 1999)
"Foi com um Presidente da República que se desencadeou a crise académica de 69. É com outro presidente, ainda que de outra República, que o episódio deve ser evocado. Esta é a tese de Hugo Capote, o actual presidente da Associação Académica de Coimbra, que interpreta a participação de Jorge Sampaio no 30º aniversário da crise, que hoje se comemora em Coimbra, como "um fechar de ciclo". Por isso, a AAC pretende que, às 15h00, durante a visita do presidente ao Departamento de Matemáticas da Universidade de Coimbra (UC), o deputado socialista Alberto Martins peça simbolicamente a Jorge Sampaio para usar da palavra, como fez há trinta anos na inauguração do edifício, enquanto presidente da AAC. Com a diferença de, ao contrário do chefe de Estado da altura, Américo Tomás, ser de esperar que Jorge Sampaio lhe conceda autorização para falar. Extensível, aliás, a Hugo CapoteOutros projectos que o actual presidente da AAC cogitou para este dia, como a realização de um mega-debate entre antigos alunos, José Hermano Saraiva e Marçal Grilo foram entretanto abandonados. Os ex-dirigentes académicos reagiram mal à ideia e as afirmações entretanto produzidas em entrevista ao PÚBLICO por Hermano Saraiva - que era o responsável pela pasta da Educação, em 1969 - sobre a crise académica e sobre o "anti-fascismo de Salazar" inviabilizaram-na definitivamente. A contestação ao actual ministro da Educação também levou a AAC a desistir do convite a Marçal Grilo. De resto, o presidente da AAC aponta para a actualidade de muitas das reinvindicações dos contestatários de 1969 - exceptuando a da democratização do acesso à Universidade, que relativiza - e defende que o tal debate confirmaria o "slogan" utilizado na última manifestação: "De Saraiva a Marçal/trinta anos, tudo igual".Esta tarde não deixará de assumir um significado especial para Jorge Sampaio que, enquanto aluno da Faculdade de Direito de Lisboa, foi secretário-geral da Reunião Inter-Associações e um dos mais destacados protagonistas da crise académica de 1962. Terá sido nesse ano que Sampaio visitou a república dos "Pyn-Guyns", onde se encontrou com Alberto Martins e Rui Namorado. Às 16h30, o Presidente da República irá regressar àquela residência estudantil, cujo livro de honra documenta a primeira visita. "Rapazes: Não há palavras. Houve foi tinto. Mas adiante: Vivam os estudantes portugueses, que bem precisam de camaradagem. Viva a República dos Pyn-Guyns", escreveu na época o jovem Sampaio. O périplo presidencial incluirá ainda a república "Ay-ó-linda", que comemora o seu 50º aniversário - ou "centenário", como se diz em Coimbra.Entre o Departamento de Matemática e a informalidade das repúblicas académicas, o presidente deslocar-se-á à Casa Municipal da Cultura, para inaugurar, às 15h30, uma exposição audiovisual sobre a revolta estudantil de 1969. Os protagonistas dos acontecimentos desse 17 de Abril de há três décadas serão ainda evocados numa placa comemorativa a descerrar por Sampaio na sede da AAC, que visitará às 17h30 e donde seguirá para uma sessão solene no Teatro Académico de Gil Vicente. De resto, Sampaio deu também um contributo para estas comemorações. Um texto seu consta de uma publicação sobre a crise de 69 que hoje será distribuída. Nesse artigo, o Presidente da República diz que a crise na academia de Coimbra também "conduziu" ao 25 de Abril. E releva a participação de alguns estudantes, compulsivamente incorporados no Exército, "em movimentações decisivas para o derrube da ditadura".Já sem o Presidente da República, um jantar na cantina do Pólo II da UC, que deverá reunir algumas centenas de pessoas, entre ex-dirigentes de Coimbra de e outras academias que com ela se solidarizaram, sem esquecer os actuais responsáveis pela Direcção Geral e secções da AAC.Serão justamente estas últimas as primeiras a intervir no programa das comemorações, logo às 10h30, em diversos palcos montados pela cidade. Enquanto as secções culturais apresentam a música e os cantares da academia, quarenta colegas distribuirão duas mil flores aos munícipes, numa alusão à "operação flor" de 1969."
 
(Notícia de Álvaro Vieira no Público de 17 de Abril de 1999 e foto de Rui Pato)