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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

DUAS DE LETRA | Lourdes dos Anjos | Os pregões da cidade (c/ vídeo)

Lourdes dos Anjos

Nasci na cidade do Porto, na Rua do Bonfim, pertinho do Campo 24 de Agosto.
Ali, onde a cidade fervilhava pela madrugada entre a Arca de Mijavelhas e a estação de Campanhã. Entre a igreja do Bonfim e o edifício da PIDE, na rua do Heroísmo. 
Ali, onde as casas burguesas enchiam as ruas dando-lhes a nobreza com que a cidade se vestia.
Ali, onde as fábricas "apuravam" os diferentes sotaques dos operários que iam "cozinhando" as ilhas onde a vida se fazia em espaços demasiado pequenos para tanto sonho de futuro e felicidade e onde morava tanta saudade da aldeia que ficou para trás escondida entre as serras onde os rios nascem.
À procura de pão menos azedo, andavam as mulheres e os homens que, de rua em rua, vendiam os produtos que as gentes da cidade compravam. Essa cidade onde sonharam encontrar a porta de entrada para um país novo.
Eram as galinheiras,as farrapeiras, as peixeiras, as carquejeiras que apregoavam e provocavam o polícia e a senhora fina que, da varanda, lhes fazia perguntas esquisitas... 
Eram os cauteleiros, os vendedores de gravatas, os amoladores, os castanheiros, os engraxadores, os ardinas e os guarda-soleiros.
Eram POVO que largava pedaços de sotaque e alma nos céus da minha cidade
E a menina mais nova do senhor Armindo "filmava " todas as imagens e gravava as vozes e depois enchia o quintal da casa com os sons e os gestos desta gente que tanto a apaixonava.
Entre uma e outra cena aparecia a voz maternal:"deixa-te de artistices e vai estudar rapariga.Ainda levas uma coça que tu vês".
Depois com olhar sereno aparecia o pai: "a tua mãe vai-te chegar a roupa ao pêlo e depois deixas-te dessas palermices minha filha".
E a vida continuava igual em cada manhã e a catraia tripeira também...
Guardei, durante muitos anos, rostos e vozes e imagens de gente que foi o meu encanto de menina.
Depois perdi a vergonha e cumpri um sonho de vestir a alma de mulher do PORTO e aí estão as vozes da minha cidade.
Peço desculpa aos meus PAIS pela desobediência, mas eles sabem que sempre remei contra a maré para conseguir realizar alguns sonhos ...
Orgulho-me das minhas raízes de milho e moliço, mas a minha alma é VERDADEIRAMENTE TRIPEIRA

Aí ficam os PREGÕES da GENTE com quem me fiz gente na rua onde nasci em 1950.