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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 10 - Junho 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 10 - Junho 2021

SOCIEDADE E CULTURA | Histórias avulso | Jaime Froufe Andrade

jaime froufeandrade(A pandemia pôs-nos à espera do futuro. Parados pelo vírus, talvez seja tempo para percebermos o que deixámos para trás. É essa a proposta de "Histórias avulso")

O Rei de Copas

Fascina-me escrever sobre gente, pessoas. Bem a propósito, evoco aqui a figura de Manuel Dias, jornalista já desaparecido de "O Primeiro de Janeiro", do "Norte Desportivo" e colaborador da RTP. 

Na arte de escrever sobre pessoas era ele mestre. Tinha uma escrita cintilante, porosa e de grande elegância. Durante anos, manteve no "Norte Desportivo" uma crónica em que radiografava almas. "As pessoas e as suas coisinhas" foi o título genérico que encontrou para a sua coluna e também para o livro em que reuniu parte desse acervo. Ainda não perdi a esperança de encontrar em loja alfarrabista esse tesouro soterrado pelo esquecimento.

Emotivo, de piada pronta e inventiva, sempre refinada, destilava carisma por todos os poros. Sem chegar a ser dandy, tomava-se de cuidados no atavio. A pera e o cabelo comprido, tudo de esmerado aparo, davam-lhe uma vaga aparência de Rei de Copas. 

Foi pena o Manuel Dias não se ter radiografado a si próprio com a sua escrita. Um debuxo de si mesmo feito com as suas palavras hábeis e certeiras seria certamente quadro encantatório. Mas compreende-se que o não tenha feito: o acto de nos vermos a nós próprios é aventura de final duvidoso. Mais fácil e seguro é assestarmos os olhos nos outros e depois escrever aquilo que vemos... E nisso, como acima se diz, ele era mestre, o maior do seu tempo. 

Lembro-me de vê-lo uma vez entrar na redacção muito abatido. Entrou vagaroso, de olhos nas biqueiras. Sentou-se e assim se deixou ficar. O que lhe teria acontecido? 

Vinha de casa de José Maria Pedroto. Passara parte da tarde junto do leito de morte desse seu amigo. O "Zé do boné", apodo do mítico treinador e seu comparsa habitual nas longas conversas sobre bola na portuense pastelaria Petúlia, deixara-lhe uma frase no ouvido, no momento em que se despediu. Disse-lhe: «Deus chutou-me para canto...»

Jaime Froufe Andrade

O autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.