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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 9 - Junho 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 9 - Junho 2021

ENTREVISTA | António Eça de Queiroz, bisneto do escritor, em entrevista ao Baião Canal | Jornal

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António Benedito Afonso de Eça de Queiroz, bisneto do escritor Eça de Queiroz, desagradado e crítico, com a possibilidade de trasladação do seu bisavô para o Panteão Nacional e com a forma como o processo foi conduzido aceitou falar sobre esta situação ao Baião Canal/Jornal.

 BC/J – Estando em andamento o processo que poderá culminar com a trasladação dos restos mortais do seu bisavô, pode dizer-nos se a família foi ouvida sobre o projeto político de trasladação para o Panteão? Qual a posição dos familiares? É consensual?

 AEQ - A família, os descendentes mais próximos de Eça de Queiroz - os bisnetos, portanto - foram confrontados com uma "decisão" unilateral por parte da Fundação Eça de Queiroz, onde o seu presidente e meu primo Afonso Eça de Queiroz Cabral nos dava conta do andamento do processo; não conheço a posição de todos os bisnetos vivos (que são 22), mas eu e os meus três irmãos, sendo que o mais velho, José Maria d'Eça de Queiroz, é também o decano dos descendentes, estamos absolutamente contra.

BC/J – É conhecedor que a vontade da Sr.ª Dona Maria da Graça Salema de Castro, fundadora e Presidente da Fundação Eça de Queiroz até à data da sua morte, foi no sentido de que os restos mortais e o espólio do Eça ficassem em Baião?

 AEQ - Sobre o espólio não pode existir qualquer dúvida: a Fundação Eça de Queiroz foi criada exactamente com essa finalidade, e toda a família foi instada a contribuir de alguma forma, maior ou menor - evidentemente, a maior contribuição foi a da minha Tia Maria da Graça, pois a Quinta de Vila Nova (Casa de Tormes) pertencia-lhe; sobre os restos mortais do escritor, não só ela quis isso como também as suas cunhadas, netas de Eça então vivas, decidiram no mesmo sentido.

BC/J - Que tem a dizer sobre a tomada de decisão política com vista à trasladação?

AEQ - Considero-a objecto de promoção pessoal dos seus promotores, e um equívoco global da Assembleia da República; parece que se esqueceram do que o escritor disse dos seus "antepassados" profissionais, e acho que pensarem que assim iriam "honrar" o escritor deve ser entendido ao contrário: os políticos empenhados em tal manobra querem fundamentalmente erguer um "troféu" - como já o tentaram antes e com outras personalidades. Aliás, eu considero o Panteão um mecanismo maioritariamente político - como se viu com o artista Zeca Afonso, que também não foi para lá por vontade de familiares e amigos.

BC/J – Dona Maria da Graça Salema de Castro era dos poucos familiares que visitava a campa, em Lisboa.  Durante cerca de 90 anos essa mesma campa esteve, praticamente, votada ao abandono. O que nos diz sobre isto?

AEQ - O mausoléu onde Eça foi sepultado originalmente pertencia aos Condes de Resende - ou seja, à família da esposa de Eça e também do marido da minha tia-avó Maria Eça de Queiroz de Castro. Sei que a Dona Maria da Graça foi lá - particularmente aquando da transladação para Santa Cruz do Douro. Dos outros familiares não posso falar porque não sei - eu não fui.

BC/J – Ao que sabemos Dona Maria da Graça Salema de Castro tudo fez para transladar os restos mortais de Eça de Queiroz, de Lisboa para o jazigo de família existente em Santa Cruz do Douro. A doação do espólio à Fundação Eça de Queiroz, com sede em Baião, foi condicionada ao enquadramento institucional a dar continuação à divulgação e ao estudo da obra de Eça de Queiroz, bem como à promoção e desenvolvimento de toda uma gama de iniciativas culturais, de âmbito nacional, internacional, ou de incidência mais estritamente regional. Isto é a realidade?

AEQ - Tudo fez e conseguiu, nem havia maneira de impedir tal acção: o jazigo em causa (em Lisboa) fora vendido e era preciso, digamos, esvaziá-lo. Sei que na altura houve uma tentativa do Estado o levar para o Panteão - o que foi recusado pela família. Se isso seria concomitante com a criação da Fundação Eça de Queiroz parece-me improvável - pois a ideia fundacional existia desde o tempo de Dona Maria Eça de Queiroz de Castro, a primeira herdeira da Quinta de Vila Nova/Casa de Tormes. Quanto à "incidência mais estritamente regional" da Fundação Eça de Queiroz, essa é uma matriz do comportamento de Dona Maria da Graça Salema de Castro, pois ela sempre dedicou uma boa parte da sua vida ao desenvolvimento e apoio local no Município de Baião. Lembro-me de há talvez 60 anos visitar com ela algumas escolas onde se estavam a dar os primeiros passos na implementação da Telescola (esta é uma memória bem distante pois eu teria uns oito ou nove anos) - mas sei que a sua acção se estendeu por várias outras áreas.

BC/J – Dada a sua posição relativamente a todo este processo está disposto a encabeçar uma petição contra a trasladação dos restos mortais de Eça de Queiroz para o Panteão?

AEQ - Certamente que sim.

BC/J – Em meu nome pessoal e do Baião Canal/Jornal, agradeço a disponibilidade e a prontidão com que nos recebeu.

Carlos Magalhães

Opinião | Artur Borges (trasladação de Eça de Queiroz)

Artur Carvalho Borges sobre Eça de Queiroz 2021.j

O Baião Canal | Jornal  estabeleceu contacto com Artur Carvalho Borges, no sentido de nos dar a sua opinião relativamente à Resolução da iniciativa do deputado José Luís Carneiro, sobre a qual já aqui demos notícia e que visou determinar a constituição de um grupo de trabalho com a incumbência de definir e orientar o programa de trasladação do escritor Eça de Queiroz para o Panteão Nacional.

Tendo Artur Carvalho Borges sido um dos impulsionadores da constituição da Fundação Eça de Queiroz e estado envolvido no apoio à trasladação dos restos mortais do Escritor, de Lisboa para o jazigo da família, sito no cemitério de Santa Cruz do Douro, ao tema em apreço, transmitiu-nos a seguinte mensagem:

"O sentimento de perda que sinto na transladação dos restos mortais de José Maria Eça de Queirós. 

Na ocasião da transladação de Lisboa para Santa Cruz do Douro a iniciativa partiu da Exma. Senhora Dª Maria da Graça Salema de Castro, neta por afinidade. As entidades oficiais, na ocasião, colaboraram na opção da Dª Maria da Graça. Relativamente à situação atual, continua a ser uma decisão da família a que legitimamente tem direito, pelo que não vou interferir nessa decisão que, somente, à família compete. Reafirmo contudo o sentimento de perda que sinto.

Agradeço a vossa atitude em me ouvir. Caso entenda ser necessário uma outra intervenção, estou disponível."

OBLIQUIDADES (2) | Jaime Milheiro

Jaime Milheiro Os seres humanos rejeitam, por norma,  os portadores daquilo  que   em si próprios  pressentem mas não suportam.

Quem nega ou recalca a sua própria avareza, por exemplo, gozará de óptimas condições para rejeitar e atacar  a avareza dos outros.  No dia a dia obstinadamente a perscruta e numa  incumbente necessidade a toda a hora nos outros inventa  mesquinhices a propósito do dinheiro, transformando-se num  explícito acusador  daquilo que em si  próprio  existe mas não aceita. Sem dar por isso, remexe-se  nas intolerâncias que sempre considera rigorosamente pertinentes e louvatórias dos bons costumes, feito sacristão de si mesmo.

Se admitisse  a   sua própria avareza  suportaria  muito melhor a dos outros e reconciliar-se-ia internamente 

 

                                               (Os idênticos  vislumbram-se,

                                                num formato  pouco consciente,

                                                accionados pela inteligência  matriz … )

 

conseguindo  discernimentos muito mais adequados para os seus julgamentos e preconceitos.

 

Acentuando essa linha:

Só os incapazes de íntima reconciliação  odeiam a vida

Só eles não aceitam as perdas porque nunca no seu  imaginário  aceitarão perder, no balanceio do que foram ou  não foram, do  que fizeram ou não fizeram

São pessoas cuja subjectividade  desconstruiu os   sentimentos básicos de segurança e de esperança

 

                                               (Condição que os fez crescer,

                                               sem tais sentimentos nem  sobreviveriam...)

 

trocando-os por invejas e desconfianças.

 

Rejeitando-se  a si mesmos,  rejeitam  tudo o que à sua volta circula, numa atitude  tanto mais grave quanto mais investida. E  arrastam-se  na queda, recusando  admitir a sua  real participação no que obtiveram ou não obtiveram.

Nesse insólito estrabismo

                                              

                                               (Incapazes de uma justa avaliação

                                               incapazes de uma justa despedida...)

                                                

apenas reconhecem racionalidades utilitárias nas relações onde escorregam noite e dia

delas excluindo a  íntima  capacidade de  sussurro que todos os seres humanos  afagam desde o início  

                                              

                                               (Não  sussurrar será  desumanizar,

                                               será apenas aferir, conferir, deprimir…)

 

mas que a levada sumiu.

Jaime Milheiro

SOCIEDADE | Escutei o episódio que... | Natércia Teixeira

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Escutei o episódio que relato, numa daquelas esperas solitárias em que o tempo disponível nos permite dar atenção a vidas que não são nossas.
Pelas circunstâncias, fazia horas dentro do carro.
A janela semiaberta permitia a entrada de uma voz que me prendeu a atenção, pelo timbre… altiva, fria, ríspida.
“… apenas pretendo saber o montante de Outubro a Dezembro.”
Outra voz, baixa, titubeante juntou-se-lhe.
“… fiz mensalmente pagamentos de 30 euros…tenho os comprovativos…”
“… o montante se faz favor…”

Movi-me instintivamente no banco, aquela arrogância patológica, para quem estar numa qualquer posição de superioridade é salvo conduto para vexar o outro, incomodou-me ao ponto de não encontrar uma posição confortável no assento do meu próprio carro.

No silencio da ausência de resposta, via um rosto confuso que imaginava, humilde.

A voz áspera e impaciente elevou-se um pouco mais e arranhou-me os tímpanos, ou talvez a alma não sei, mesmo não sendo a mim que se dirigia.

“diga o montante!”

Silêncio…imaginava o espanto da voz modesta…talvez a confusão…talvez a incompreensão.

Surpreendeu-me a calma da entoação, a simplicidade das palavras:
“…30 euros de Março a Dezembro, dez meses, são 300 euros.”

A voz altiva arremessou um “obrigado” e eu fechei a janela do carro.

Olhei o relógio e desejei saber queimar tempo…nunca aprendi, só consigo fazer horas… horas como estas em que me consumo a pensar que educação não é instrução, não são boas maneiras ou regras de etiqueta… que empatia pode ser trabalhada, mas é inata.

Num mundo em que somos avaliados pelas posses, em que tudo é cobrado e moeda de troca para uns poucos idealistas, ainda vale o que cada um é pela essência e boa índole…ainda prevalece a convicção que o fato que se veste é menos importante que a atitude que se tem, que o cargo que se ocupa não define o caracter de ninguém.

Tento desenhar mentalmente, os personagens donos das vozes que escutei, mas não sou capaz…olho novamente o relógio…não tenho mais horas para fazer.

Fora do carro olho em redor… é-me impossível identificar o local de onde aquelas vozes sem rosto procederam…acabavam ali as minhas divagações.

Quanto a conclusões ocorre-me uma…andar sempre com uma calculadora na mala…a probabilidade de nos cruzarmos com palermas é elevada, uma vez que são muitos e convém estar prevenida.

Natércia Teixeira

EDUCAÇÃO | Escola e Famílias em tempos de pandemia | Maria Odete Souto

Odete Souto“Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer” - Geraldo Valdré

Estamos num tempo de emergência sanitária, comunitária, social, económica e mais do que nunca, nas nossas vidas, se impõe sentido de solidariedade, de missão e de responsabilidade individual e social.

Estamos no meio de uma tempestade sem fim à vista. E não, não estamos todos/as no mesmo barco. Há quem esteja a enfrentar isto num iate, num cruzeiro, e quem esteja numa jangada. As condições são diferentes, mas é necessária uma cabeça de comando e organização. Compete à tripulação ser ordeira e cumpridora, opinar se for para ajudar, e seguir as orientações, sob pena de afundar as embarcações.

Não é o tempo para avaliar as decisões. É o tempo de salvar vidas e de sobreviver com os menores danos possíveis. É o tempo de nos focarmos e nos reinventarmos. É o tempo de dar as mãos.

Confesso-me cansada de ouvir “papagaios” que tudo sabem, preditores/as das maiores catástrofes, arautos da desgraça, como se já não bastasse aquela que vamos vivendo. O medo excessivo paralisa e mata. E mata tanto ou mais que o COVID-19. É preciso manter a esperança para que nos possamos manter à tona.

A suspensão das atividades letivas (sim, porque as escolas mantêm-se abertas e o pessoal docente e não docente a trabalhar) foi necessária, dado os números galopantes da pandemia. Seria, para mim, uma situação limite, porque nada substitui a escola com aulas presenciais. A situação tornou-se insustentável e o confinamento geral, em boa verdade, implica o “encerramento” das escolas.

Discute-se “pentelhices” de saber se se deveria passar imediatamente a ensino a distância, se as escolas estavam preparadas, se o governo falhou, se, se e se…

É meu entender que, logo que possível do ponto de vista da evolução pandémica, se deve voltar às aulas presenciais, não tanto por aquilo que os/as alunos/as vão aprender ou não, enquanto currículo escolar, mas muito mais por outras dimensões de vida das escolas e das pessoas que habitam os/as alunos/as.

No regresso à escola, em setembro, as nossas crianças e jovens vinham, na sua maioria, com marcas negativas enormes do confinamento anterior. Muitos deles/as viciados em jogos online, que “colmataram a sua solidão”, outros/as confinados com os seus algozes… Muitos e muitas com problemas emocionais imensos e, na sua maioria, não queriam voltar a confinar.

Se recuperaram aprendizagens das diferentes disciplinas, é minha convicção que não. Recuperaram outras coisas fundamentais, que a escola também cumpre. E relembro aqui um email por mim recebido, às 23 horas, de uma menina de 12 anos que dizia “Tive que preparar o meu psicológico para fazer isto. Não pode arranjar um tempinho, fora do seu horário e do meu, para falar comigo? É que o ano passado falava comigo fora das aulas e fazia-me bem.”  E claro que o tempo nunca me faltou porque nunca me prometeu. E ela contou e comigo…

Não sabemos como e quando esta situação pandémica vai ser revertida, mas a vida não para, não se suspende.

É o tempo de assumirmos que o ano letivo, no sentido tradicional do termo, está comprometido como esteve o anterior. E não posso esquecer aquilo que ouvi de alguns dos meus alunos e algumas das minhas alunas que, em seu entender, todos/as deveriam ter ficado no mesmo ano letivo.

Não sei se é esta a solução. Não vem mal ao mundo por isso.

A minha geração teve ano propedêutico, serviço cívico, e não perdeu nada com isso. E não estávamos em contexto pandémico.

Acho que é um tempo em que as famílias precisam de se reinventar, não tanto para colmatar o papel da escola e dos/as professores/as, mas para estreitar relações, partilhar tarefas, entreajudas, aprofundar valores de solidariedade, de respeito e de afeto. Criar laços e ajudar a crescer como pessoas. Deixar de ter príncipes e princesas e passar a ter filhos e filhas.

É um tempo em que a escola precisa de se reinventar também. Não tanto para encontrar no digital a solução de todas as coisas, porque o não é, mas para se repensar em termos de currículo e de estratégias de aprendizagem inter e transdisciplinares. O conhecimento constrói-se de muitas formas e, se formos criativos, conseguimos caminhar sem este sentido de aula tradicional. Mas isto implica coragem e honestidade intelectual por parte de todos: pais, professores/as e tutela.

Pode ser um tempo profícuo, assim cada um saiba cumprir a sua parte.

Sigamos com esperança e responsabilidade.

 

Maria Odete Souto

 

 

DUAS DE LETRA | Entre ontem e amanhã | Lourdes dos Anjos

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Lembro-me muito bem de ouvir o meu pai dizer que Salreu (a terra que foi seu berço e sua sepultura) era uma terra de viúvas de homens vivos porque por lá envelheciam as fêmeas parideiras enquanto os homens abalavam para o fim do mundo...para a Venezuela.

Lembro-me de o ouvir dizer que não era cigano para partir sem eira nem beira, deixando a mulher e as filhas, e chegar vinte ou trinta anos depois, com uma saca de notas para comprar umas terras e fazer uma casa grande mas...sem saber se as "suas mulheres" adormeciam à lareira chorando as dores do luto e acordavam cheias de noite, ao lado dos filhos "orfãos" ... seus herdeiros perante a lei.

Lembro-me que só muito tarde percebi o que o meu pai queria dizer...

Ele, que nunca partiu, viu crescer as filhas e nascer os netos mas nunca comprou quintas, nem fez palacetes.

Morreu em paz, cheio de amor, entre os meus braços (a sua filha mais nova), o abraço doce do seu neto mais velho e o beijo da minha mãe, agradecendo-lhe a vida que tinham construído enquanto lhe pedia perdão de não o acompanhar nesta última viagem porque não era capaz de sair viúva da igreja de onde saíra casada . Iria depois ao seu encontro quando a vida quisesse. Sei que eram "contratos" DELES que não eram gente de grande fé e desconfiavam das religiões reinantes. Conversas de vida que continuam a ser os seus segredos.

Deixou uma fortuna enorme feita saudade e lágrimas e, tal como era sua vontade, repousa na sua terra, no cemitério de Salreu.

Foi assim ONTEM.

HOJE, no meu país, partem os que se recusam ser os escravos dos novos tempos, com direito a diploma, um computador e um telemóvel de última geração e uma mala com rodinhas mais um bilhete comprado para um voo low cost.

Levam a vontade firme de se transformarem em ramos de enxertia sem raíz e sem chão.

Querem morrer longe deste covil de banqueiros e politiqueiros e empresários rafeiros e exigem ser cremados para não cheirar mal aos vindouros.

Como eu percebo esta geração de novos navegadores que recusam ser operários dum país em ruínas onde os senhores mesários das Santas Casas vivem com chorudos vencimentos mensais à custa de rifas e jogatinas mais uns favorzinhos dos amigos da Opus Dei e vão gerindo Hospitais e Creches e Lares e empresas de lavagem de cifrões como quem trata da associação dos bichinhos abandonados sem direito a fazer barulho depois das 22h.

Como eu percebo este desencanto, este pouco amor, este "viver onde calhar,e não voltar".

Depois dou comigo a pensar que amei tanto os meus avós e amo tanto os meus netos e não queria adormecer chorando de saudade dos meus amores vivos.

Depois penso que a minha geração que conseguiu uma reformita, mais uma casita, mais um carrito, mais uns trapitos que nos fazem parecer melhorzito...come e cala e esconde a sementeira que foi fazendo depois de abril ser mês e ter nome...e teme o senhor doutor malcriado, mais o senhor engenheiro enjoado, mais o enfermeiro que trabalha aqui e ali e acolá e fica mal dormido e mal disposto, mais o jovem que mete prá veia e ressaca fora de horas, mais a menina que amuou porque lhe negaram umas sapatilhas XPTO...

Entre toda esta amálgama de gente zangada com a vida e descrente do amanhã, que se habituou a ter tudo não sendo nada, restam os profissionais que guardam a velha alma portuguesa e são PESSOAS capazes de dar o melhor de si nos postos de trabalho que ocupam respeitando mas, algumas vezes, não sendo respeitados.

É urgente mudarem-se as bafientas mentalidades do quero, posso e mando, e abraçar o futuro, com esperança e humildade, repartindo as horas de paz e lutando sempre para que todos possamos ver no horizonte um PAÍS menos desigual, onde todos saibam qual é a COR DA SOLIDARIEDADE.

Acredito que ainda será possível multiplicar o amor vezes sem fim, entre gerações que se encontram para cumprir a missão de sermos menos desiguais e mais felizes. Por isso:
Lembrar-me -ei sempre dos rostos e das mãos que , exemplarmente, me mimaram na minha meninice tão cheia de primavera.

Lembrar-me-ei sempre das palavras doces que tantas pessoas , tantas vezes, comigo partilharam, apesar do enorme cansaço em dias de tempestade.

Nunca esquecerei que ,há gente que, tal como os meus pais, nunca serão gente rica de bens materiais, mas são PESSOAS que sabem sorrir para os outros enquanto limpam as lágrimas do seu próprio sofrimento.

ONTEM, caminhei sem destino entre meninos tristes e mães sem esperança, e penso que ajudei a semear esperança e verdade.

HOJE tento sorrir mesmo chorando as dores da velhice que já me veste, e continuo , com humildade, a pensar que vale a pena ter a alma limpa e as mãos abertas para quem precisa de afetos puros.

Lourdes dos Anjos

SOCIEDADE E CULTURA | Histórias avulso | Jaime Froufe Andrade

jaime froufeandrade(A pandemia pôs-nos à espera do futuro. Parados pelo vírus, talvez seja tempo para percebermos o que deixámos para trás. É essa a proposta de "Histórias avulso")

O Rei de Copas

Fascina-me escrever sobre gente, pessoas. Bem a propósito, evoco aqui a figura de Manuel Dias, jornalista já desaparecido de "O Primeiro de Janeiro", do "Norte Desportivo" e colaborador da RTP. 

Na arte de escrever sobre pessoas era ele mestre. Tinha uma escrita cintilante, porosa e de grande elegância. Durante anos, manteve no "Norte Desportivo" uma crónica em que radiografava almas. "As pessoas e as suas coisinhas" foi o título genérico que encontrou para a sua coluna e também para o livro em que reuniu parte desse acervo. Ainda não perdi a esperança de encontrar em loja alfarrabista esse tesouro soterrado pelo esquecimento.

Emotivo, de piada pronta e inventiva, sempre refinada, destilava carisma por todos os poros. Sem chegar a ser dandy, tomava-se de cuidados no atavio. A pera e o cabelo comprido, tudo de esmerado aparo, davam-lhe uma vaga aparência de Rei de Copas. 

Foi pena o Manuel Dias não se ter radiografado a si próprio com a sua escrita. Um debuxo de si mesmo feito com as suas palavras hábeis e certeiras seria certamente quadro encantatório. Mas compreende-se que o não tenha feito: o acto de nos vermos a nós próprios é aventura de final duvidoso. Mais fácil e seguro é assestarmos os olhos nos outros e depois escrever aquilo que vemos... E nisso, como acima se diz, ele era mestre, o maior do seu tempo. 

Lembro-me de vê-lo uma vez entrar na redacção muito abatido. Entrou vagaroso, de olhos nas biqueiras. Sentou-se e assim se deixou ficar. O que lhe teria acontecido? 

Vinha de casa de José Maria Pedroto. Passara parte da tarde junto do leito de morte desse seu amigo. O "Zé do boné", apodo do mítico treinador e seu comparsa habitual nas longas conversas sobre bola na portuense pastelaria Petúlia, deixara-lhe uma frase no ouvido, no momento em que se despediu. Disse-lhe: «Deus chutou-me para canto...»

Jaime Froufe Andrade

O autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

 

SAÚDE | Rita Diogo

Rita Diogo

Resiliência, um recurso a potenciar em cada um de nós

Nunca gostei de me centrar nos aspetos negativos da vida, no que concerne à saúde mental não poderia ser diferente. Prefiro tentar compreender aquilo que nos protege, aquilo que existe dentro de nós e que nos ajuda a lidar com situações difíceis e desafiantes. O objetivo desta crónica é alertar as mentes mais curiosas para um processo psicológico essencial na promoção de vivências positivas e saudáveis em meios e contextos profundamente negativos.

Comecemos por tentar perceber do que falamos quando nos referimos à resiliência. De uma forma abrangente, dizemos que a resiliência é um conceito da psicologia que se traduz na capacidade do indivíduo enfrentar obstáculos e dificuldades. Enquanto conceito psicológico, o termo resiliência começou a ser utilizado a partir da década de 80. Pode dizer-se que se caracteriza por um conjunto de processos sociais intrapsíquicos que possibilitam ter uma vida ‘sã’ num meio ‘não-são’. Estes processos realizam-se ao longo do tempo, resultando da combinação entre as caraterísticas do indivíduo e do seu ambiente familiar, social e cultural. Definimos aqui a resiliência de uma forma lata e transversal, como a capacidade de operacionalizar conhecimentos, atitudes e habilidades no sentido de prevenir, minimizar ou superar os efeitos nocivos de crises e adversidades. Consequentemente, descrevemos um indivíduo resiliente como aquele que, tendo que enfrentar uma situação adversa, é capaz de utilizar os seus próprios recursos a ponto de desenvolver as competências de que precisa.

Assim, entende-se a resiliência numa perspetiva dinâmica, uma vez que varia ao longo do tempo (conforme as circunstâncias) e resulta do equilíbrio entre os fatores de risco, os fatores protetores e a própria personalidade. A resiliência não pode ser entendida como absoluta ou adquirida, mas sim como uma capacidade resultante de um processo dinâmico e evolutivo que varia conforme as circunstâncias, a natureza humana, o contexto e a etapa do ciclo vital, variando também de diferentes maneiras nas diferentes culturas. Existem duas componentes essenciais: uma é a capacidade que põe em  prática os mecanismos de proteção; outra é uma capacidade que permite enfrentar positivamente as contrariedades e os fatores indutores de stresse. Podemos dizer que a resiliência faz parte de um processo evolutivo que pode ser promovido em todas as fases do ciclo vital.

As estratégias para promover a resiliência enquadram-se na procura de alternativas que permitam ampliar os recursos pessoais e grupais para fazer frente a situações adversas. Ativar a resiliência é uma forma de garantir a qualidade de vida. A resiliência implica a existência de algumas condições pessoais, tais como a autoestima consistente e segura, a persistência para enfrentar acontecimentos desafiantes, a empatia e a reciprocidade, a criatividade e a flexibilidade de pensamento. Todos nós almejamos possuir estas competências tão necessárias a fim de sobrevivermos às crises e de nos mantermos mentalmente saudáveis em contextos adversos. Somente após a ocorrência de um acontecimento negativo é que percebemos que conseguimos responder à dor de uma forma construtiva, assertiva e saudável. Ao invés de ficarmos estagnados e cristalizados no lamento, conseguimos desafiar certos paradigmas mentais e emocionais rígidos e disfuncionais baseados no medo, na vergonha e na culpa. A resiliência é o que explica que as situações de crise possam contribuir de forma tão importante para o desenvolvimento e crescimento pessoal de cada um de nós. O impacto que estas crises têm é mediada pela resiliência. As crises exigem que nós tenhamos e/ou que possamos construir estratégias para promover atitudes que nos alavanquem diante de tal cenário.

E, assim, termino a minha crónica como a comecei, prefiro compreender aquilo que nos protege, aquilo que nos faz crescer como pessoas interventivas e com capacidade de pensar sobre tudo aquilo que nos coloca em perigo. Uma crise que abala a nossa estrutura é também aquela que nos faz mudar e que nos possibilita sermos mais fortes.

Rita Diogo, Psicóloga 

 

 

 

 

SOCIEDADE | Prisão domiciliária | Paulo Esperança

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PRISÃO DOMICILIÁRIA? 

Não vou discorrer sobre o negacionismo, sobre a incúria de quem anda na rua ao deus dará, muito menos de quem acha que se pode dar ao luxo de achar que a saúde dos outros não conta para nada.

Nestes tempos conturbados apetece-me falar de diversos comentários que, de forma paulatina, atravessam os meios de comunicação social.

O Estado de Emergência, o Confinamento e tudo que está associado a estas situações são apresentados como possíveis causadores de diversas patologias do tipo: distúrbios psicológicos ou psíquicos, problemas de isolamento, desarranjos na saúde mental das camadas mais jovens, etc.

Não enquadro aqui quem vai de Campanhã a Vilar de Andorinho comprar o pão diário...só porque é feito em forno de lenha. Muito menos de quem vai para a baía de Cascais passear uma trela...argumentando que o cão ... fugiu!

E não comento porque todo(a)s sabemos do que o povo português é capaz! Tanto mata o Rei como organiza um atentado destinado a eliminar Salazar.

Somos um povo que, de facto, para o bem e para o mal, sabe inventar!

Voltemos aos aduzidos argumentos sobre as dificuldades, prejuízos e consequências derivadas da emergência e do confinamento.

Não se desconhece que estar distanciado da família e do(a)s amigo(a)s, vê-los à distância, não lhes dar o abraço ou beijo há muito desejado é constrangedor.

É evidente que estar fechado em casa não agrada a ninguém e é potencialmente gerador de alguns naturais desequilíbrios e depressões.

Não ir ao “Piolho”, não passear pela Casa da Música custa...e muito!

Sendo tudo isto verdade e penalizador, é necessário analisar outros lados.

Em primeiro lugar parece-me algo egoísta e redutor não se assumir que, para muitos de nós, é um privilégio podermos ficar em casa. A minha questão é a seguinte: e quem não tem casa? Que confinamento saudável e estável tem condições para fazer? E quem ficou no desemprego ou viu limitado o seu acesso aos rendimentos auferidos pelo seu trabalho?

Mas temos mais: a sociedade atual dispõe de meios de comunicação que não existiam há duas dezenas de anos. Claro que nada substitui o contacto pessoal porque os afetos precisam de olhares e de sorrisos.

Mas estamos num estado de resistência. E isto é que é necessário ter em conta. Mais a mais porque é preciso assumir-se que a vida humana não pode ser baseada no imediatismo. Para quem quer ter futuro tem, necessariamente, de se cuidar no presente porque atrás dos tempos vêm tempos e outros temposhão-de vir.

Vou fazer sessenta e seis anos e desde os dezassete anos que ando envolvido em guerras. Nunca estive quase um ano a ver voar os passarinhos com as mãos nos bolsos.E isso custa-me! Mas racionalizo e digo: terei muito tempo para outras guerras se me cuidar agora.

E para a consolidação deste processo de resistência vem à colação um livro: “Abril - Vivências na Clandestinidade” de Domicília Costa. Leiam-o e percebam o que é resistir. Acompanhou os pais, funcionários clandestinos do PCP desde 1953, viajando por inúmeros locais e casas sem qualquer contacto com as crianças da sua idade.

Que é feito dela! Aí continua, rija, pronta para as lutas que valham a pena!

Claro que não somos todo(a)s iguais. Há gente temperada como o aço!

Mas se pensarmos em quem esteve anos e anos preso em Peniche ou Caxias, se nos lembramos de quem andou fugido nas sombras da noite durante meses e anos a fio...talvez nos possamos dar ao luxo de dizermos...ok, a emergência e o confinamento são uma chatice...mas no fim de contas sou um(a) privilegiado(a) ...simplesmente porque o posso fazer!


Paulo Esperança

MÚSICA | O Prelúdio, por Manuel Cardoso (Paradela)

Manuel Cardoso ParadelaOlá mais uma vez.

Por certo que o leitor por diversas vezes ouviu o vocábulo “Prelúdio”. Se for ao dicionário da Priberam, entre outros significados encontrará que o prelúdio é o acto ou exercício preliminar ou introdutório. Já agora, estamos a falar de formas musicais, não leve o leitor o preliminar para outras situações que não as musicais, visto a linguagem musical ser muito fértil a outras interpretações.

Esta forma não é mais que uma introdução no campo musical, em que se anuncia o que aí vem geralmente na ópera e no ballet, formas musicais estas de maior complexidade e de maior grandeza que o prelúdio, mas que no introdutório se adivinha o que se passará mais à frente, geralmente com repetições de frases que se passaram no que foi o preliminar, ou seja repetições de frases musicais do prelúdio, e, neste ponto é que o prelúdio se diferencia da abertura que não se repete na peça que se segue.

Convém também referir que os prelúdios podem também ser apenas peças para um instrumento, e nesta situação não introduz outra peça maior, sendo neste caso o prelúdio por si só a forma musical, que é o caso por exemplo de Chopin que escreveu vários prelúdios para piano.

Na sua origem, o prelúdio era o trecho que antecedia uma fuga, forma esta de que falarei em outra oportunidade.

Poderia aqui desenvolver mais um pouco esta forma musical, mas fico-me por aqui para não enfadar os leitores que irão consumir um pouco do seu tempo na leitura deste pequeno artigo.

Manuel Cardoso (Paradela)

W. A. Mozart - KV 284a - 4 Preludes for keyboard

 

OS PEQUENOS TAMBÉM SÃO GRANDES (2)

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Um futebol a perder a bola.

Panorama preocupante no momento que atravessamos. Muitas nuvens impedem a luz do Sol. São múltiplas as notícias sobre dirigentes de SAD e clubes, com exemplos pouco edificante eaté dramáticos (Desportivo das Aves, Vitória SC de Setúbal, dois dos últimos dramas, certamente não os últimos). O Campeonato de Portugal e os Distritais podem tornar-se num grande problema porque sem os apoios, os modelos de competição e as regras adequadas. O futebol organizou-se com estruturas específicas, porém com práticas que poderão destruir um património valioso e revelando o reverso da especialização: suspeições, desconfianças, polémicas contínuas, promoção de ódios e conflitos, insegurança e eventuais casos de corrupção.

O destaque centra-se nos milhões e na desejada revitalização da indústria do futebol: entendo o negócio enquadrado no jogo e não o seu contrário. Jogos transmitidos pelos canais televisivos todos os dias, para além de empobrecer o desporto, provocam perda de rotinas de convívio, passando a ser fontenários de polémicas obsessivas que nada têm que ver com o jogo. As receitas televisivas não têm a distribuição equitativa que teriam de obter.

Mesmo nas Ligas profissionais a clivagem é enorme. A diferença de valores dos orçamentos é um ponto de partida com limitações, que marcam a diferença.

Mesmo assim, os clubes com menores orçamentos conseguem lutar e vencer outros com maior poder económico.Os jogos não têm vitórias antecipadas.A Comunicação Social revelauma atitude parcial: Quando um clube com menor “peso” mediático vence um dos “grandes” a notícia destaca quem perdeu e não quemvenceu.

Os nossos “grandes”, comparados com as equipas das “BigFive”, passam a ser pequenos. É sempre uma questão de escala, de poder, de influências diversas e de circulação de capitais. Mesmo assim, há resultados que permitem reconhecer que, com trabalho competente e boa organização, se podem construir equipas que alimentem percursos desportivos de realce. Por isso, cada clube deve construir e alimentar a sua própria mística. A competitividade desportiva é um foco importante para motivar.

À volta do futebol (do desporto em geral) instalam-se interesses, por vezes contraditórios, que podem criar obstáculos ao seu desenvolvimento. Uma casa não se constrói pelo telhado mas pelos alicerces. Para não surgirem graves e sucessivos problemas, o clube deve pensar com visão alargada: aumentar número de sócios iniciando o percurso de filiação desde cedo, fidelizando de forma gratuita até aos 15 anos; construir base de dados que permita enviar mensagensno aniversário de cada sócio, convidando-o para iniciativas diversas; fomentar o clubismo, como universo especial. Se os dirigentes souberem manter relacionamentos exemplares com todos os clubes, especialmente com os mais próximos, poderão organizar torneios que ganham tradição, desde os escalões jovens aos veteranos.

Mas há nuvens escuras pela tendência em separar em vez de unir. À volta do futebol existe um conjunto alargado de negócios que têm de ser claros, com regras exigentes, para evitar aventureirismos destrutivos.

E se é verdade que há clubes a extinguirem-se, é possível reverter essa tendência, porque a vida em sociedade implica convívio e solidariedade. Temos um número de praticantes desportivos assustadoramente baixo, que nesta pandemia perdeu 75% (cerca de 180 mil praticantes). Ora, o desporto é uma atividade valiosa para a saúde, para a motivação, superação de objetivos, trabalho em equipa e muito mais. Lamentamos que o exemplo dos clubes menos poderosos economicamente sejadesvalorizadotambém no espaço mediático.

A tentação de aumentar estatisticamente onúmero de praticantes, para obter dimensão e benefícios oficiais, por vezes é ilusão, dado que se trata de crescimentos virtuais, conseguidos com inclusões de várias competições (autárquicas, etc.), na respetiva federação e não de novos praticantes. Para isso os clubes com menor dimensão já são úteis, porque gota a gota…

Se a dimensão económicado negócio, caminhar para objetivo único (a indústria), tenho a convicção de que a bola, descontente, fugirá a grande velocidade, deixando-nos sozinhos, sem a sua magia.

A mediatização da “final four” da Taça da Liga deixou evidências preocupantes: primazia para o espectáculo digital, tecnológico, e o negócio, mas futebol claramente como secundário.A presunção de atribuir um título de “campeão de inverno”, numa prova tão curta, é uma componente da estratégia comercial pura. Esta inversão de valores vai ter consequências nefastas cujos sinais já são notórios…

Aníbal Styliano (Professor, comentador)

CULTURA | UNICEPE | Rui Vaz Pinto

unicepe

UNICEPE, 1963-2020: 57 anos!

Em 24 de março de 1963 foi criada no Porto – Rua da Maternidade, nº 29 –, a “República” 24 de março, que em 24 de março de 2013 celebrou os seus 50 “séculos”, com a edição do livro MEMÓRIAS DA REPÚBLICA 24 DE MARÇO.

Ali nasceu a ideia de criar uma cooperativa que permitisse reduzir o preço de aquisição dos livros e o acesso a outros que não havia à venda, proibidos pela censura. Nasceu então, a 19 de novembro desse mesmo ano, a UNICEPE – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, SCARL (em 1981, com o Código Cooperativo, alterada para UNICEPE – Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL), que começou a funcionar nessa mesma Rua da Maternidade.

Depois de breve passagem pela Rua José Falcão, fixou a sede na Praça de Carlos Alberto, 1º andar do nº 128-A, na esquina com a Praça Gomes Teixeira (vulgo “Praça dos Leões”), onde ainda continua.

O facto de se situar mesmo em frente à Universidade do Porto facilitava a vinda dos estudantes, de tal modo que em 24 de abril de 1974 o número de associados já atingira 3810.

Naturalmente, aqui se trocavam ideias e foi onde muitos estudantes começaram a adquirir consciência do país em que viviam. Era a resposta organizada à perseguição movida às Associações Estudantis.

Por vezes, aparecia a polícia com mandados de apreensão de livros ou discos. Outras vezes, levava-os mesmo sem mandado, não respeitando as suas próprias leis. Em ambos os casos, prejudicando a cooperativa. E agora, 57 anos volvidos desde esses sinistros dias, custa a crer que essas apreensões incluíssem, por exemplo, os discos de José Afonso, com as maravilhosas canções de que se gosta mais e mais, cada dia que passa…

Porque o espaço era reduzido, as sessões abertas ao público eram efetuadas em cooperação com a Cooperativa ÁRVORE, o Clube Português de Cinematografia – CINECLUBE DO PORTO ou a COOPERATIVA DO PORTO PORTUENSE. A esta, veio falar, por exemplo, pela primeira vez durante o exílio em França, António José Saraiva. Armando Bacelar, Armando de Castro, Augusto da Costa Dias, Ferreira de Castro, Jofre do Amaral Nogueira, Mário Sacramento, Óscar Lopes, por exemplo, estavam sempre disponíveis. A divulgação também se fazia por publicações: “Boletim”, “Estante”, “Rodaviva” (que também foi programa de rádio, inovador com entrevistas telefónicas), “Latitude”.

Depois do 25 de abril de 1974, já com liberdade e sem censura, a UNICEPE continuou a crescer, não só em número de associados, como na realização de atividades. Muitos poetas, escritores, músicos e outros artistas já passaram pela cooperativa para tertúlias, encontros com muito diálogo e passagem de testemunho histórico e emocional. José Saramago foi um deles. Esteve aqui em 1984, ano e meio depois de ter lançado O Memorial do Convento. A sala estava a abarrotar… Aqui anunciou O ano da Morte de Ricardo Reis. Foi uma noite memorável.

Em 1993, coordenado por Viale Moutinho, tivemos um ciclo semanal, que se chamou Primeiro Encontro Porto-Galiza, a que vieram vários poetas galegos. E também Isaac Díaz Pardo (Santiago de Compostela, 1920-2012), presidente da Cerâmica de Sargadelos, que veio inaugurar uma grande exposição-venda. Recentemente foi criada a página www.isaacdiazpardo.gal/gl dedicada ao centenário.

Além de muitas apresentações de livros e exposições de pintura e de cerâmica (com oleiros do Alentejo a trabalhar no passeio) e algumas viagens culturais, desde 1996 temos desenvolvido atividades calendarizadas:
– Jantar de Amizade UNICEPE: já efetuámos 193, sobre os temas mais heterogéneos, com convidados de Japão, Timor, Moçambique, Angola, Guiné, Cabo-Verde, Argentina, Chile, Brasil, Cuba, Panamá, Porto Rico, EUA e Espanha.
– Memórias da Música: Audição de cantores ou temas, com explanações de Jorge Ribeiro.
– Noites de Poesia e Música, com apresentação de José Silva e poesia dita pelos “anónimos” presentes, intercalada pela voz e guitarra de cantora(e)s amiga(o)s.
– Encontros de Escritores Portuenses, igualmente com apresentação de José Silva e leituras pelos “anónimos” presentes, também intercaladas por canções de amiga(o)s.
– Roda de Choro (a primeira do Porto).
– Receções a galegos alunos de Português na FLUP, no programa aPorto, a quem oferecemos canções e poesia. Já recebemos 30 turmas.
– Cursos de Esperanto e de Latim.
(Todas as atividades são anunciadas em www.unicepe.pt  e por e-mail, se no-lo pedirem para unicepe@net.novis.pt).

Por motivos especiais, também temos editado alguns livros. Apenas 34 em 57 anos. A lista pode ser consultada em www.unicepe.pt/edico.html 

Embora Baião esteja a 70 km, o facto de o Porto ser a “grande cidade” mais perto determina que muitos Baioneses aqui se desloquem com alguma frequência. Basta aproveitar e abastecerem-se de livros na UNICEPE. E para as atividades culturais, quando forem do agrado, juntando-se 4 ou 5 amigos torna económica a deslocação. Há associados que vêm de Coimbra, Aveiro, Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Vila Real, etc., e dizem que vale a pena.

Desde o início já se inscreveram na cooperativa 7718 associados. Além de livros, a oferta da UNICEPE passa por revistas, música e arte. As vantagens dos associados são imensas e a quota mantém-se em apenas 7,50 euros por ano. E para isso basta adquirir o mínimo de 30,00 euros de capital. Com 14 anos já se pode ser associado. É uma magnífica prenda a familiares e amiga(o)s. Façam parte da cooperativa de resistência e afetos!

Rui Vaz Pinto

POESIA | A chegada (José Pereira)

A pandemia pode ter mudado o canto deste pardal - GQ | Noticias

Eu sou aquele pardal que canta no nosso terreiro
E em frente ao teu poleiro, eu irei cantar o dia inteiro
Sem medo da gaiola, sem medo de me fazerem prisioneiro
Ando entre a Cidade e as Serras, mas não é pelo poder ou dinheiro

Neste chão onde instalaste o teu poleiro, era onde eu morava
Mas sendo atirado às águas do Douro, eu sonhava e navegava
Vivendo afastado ou emigrado, eu sempre cantava
Acreditando que quando se abrisse a gaiola, para Baião eu voltava

Tão perto ou tão longe, eu sempre regressei na madrugada
Cantando em frente ao teu poleiro, no romper da alvorada
E vou continuar a cantar, pela nossa terra e gente amada
Para que saibam que é possível sonhar e regressar à nossa morada

29/01/2021

https://zedebaiao.com
Zé de Baião

 

POLÍTICA | Opinião | JSD

JSD

O poder local deve ser considerado pelo cidadão como o primeiro aliado a quem se deve dirigir para ver respostas as suas necessidades.

De acordo com o que a Constituição da República prevê as autarquias locais integram um dos três níveis de governação pública, o poder local. Este subdivide-se em Municípios, cujos órgãos são a Câmara Municipal e a Assembleia Municipal, e as Freguesias, no qual os órgãos são a Junta de  Freguesia e a Assembleia de Freguesia.

Constituem atribuições da Junta de Freguesia, órgão executivo, a promoção e salvaguarda dos interesses próprios das respetivas populações, em articulação com o município. Este órgão dispõe de atribuições, entre muitos outros, designadamente, nos seguintes domínios: equipamento rural; abastecimento público; educação; cultura, tempos livres e desporto; cuidados primários de saúde. As atribuições das freguesias abrangem ainda o planeamento, a gestão e a realização de investimentos nos casos e nos termos previstos na lei.

A assembleia de freguesia é o órgão deliberativo, da freguesia. Nos termos da Lei n.o 169/99, de 18 de setembro, alterada pelas Leis n.os 5- A/2002, de 11 de janeiro, e 67/2007, de 31 de dezembro, e pela Lei Orgânica n.o 1/2011, de 30 de novembro, a assembleia de freguesia é eleita por sufrágio universal, direto e secreto dos cidadãos recenseados na área da freguesia.

A assembleia de freguesia tem as suas competências de apreciação e fiscalização e as competências de funcionamento previstas na Lei 75/2012, de 12 de setembro.

Em termos locais na sua esmagadora maioria o órgão deliberativo é quase desconhecido, uma vez que o órgão executivo tem em si a maior visibilidade, nomeadamente pela inatividade que as próprias assembleias têm e que, na sua generalidade, os eleitores e eleitos pouco valorizam, bem como pela fraca cooperação com este órgão que é um dos principais na estrutura autárquica a nível de freguesia.

No que à minha União de Freguesias, Campelo e Ovil, diz respeito várias têm sido as inquietações que a população procura por nostransmitir, esperando que alguma coisa melhore e se faça. Todas estas preocupações ou sugestões de melhoria, que me chegam, são apresentadas, em assembleia de freguesia, para debate. No entanto, o que pode acontecer – e acontece – é não serem levadas em linha de conta pelo poder instalado argumentando de que não é da sua responsabilidade ou desculpabilizando-se de que tudo fizeram e que só não é possível dar continuidade por causa da decisão de terceiros.

Referia no início deste artigo que o cidadão encara o poder local como o seu primeiro e grande parceiro, onde procura o apoio necessário. Devem, por sua vez, a junta de freguesia e o município estarem em permanente e estreita articulação para se apresentarem como uma solução ao cidadão, e não como mais um processo burocrático que eles terão de enfrentar.

Os eleitos locais assumem um papel preponderante na vida das suas populações lutando pelos seus territórios,
ouvindo e sentindo os problemas dos seus concidadãos.

O poder local deve ser mesmo local contribuindo para a melhoria das condições de vida das suas gentes que servem.

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João Pedro Monteiro
Membro da Assembleia de Freguesia de Campelo e Ovil, PSD
Secretário-geral da JSD de Baião

POLÍTICA | PCP de Baião

pcp

Uma razão para o abstencionismo

A acção de Influenciar outras pessoas não é magia, é ciência e tanto pode beneficiar como prejudicar, se for manipulação; a persuasão nada mais é que uma estratégia de comunicação que consiste em utilizar recursos lógicos e racionais ou simbólicos para induzir alguém a aceitar uma ideia, uma atitude ou realizar uma ação, pois todas as nossas decisões são tomadas, primeiramente no inconsciente e só depois na consciência, normalmente acompanhadas de uma justificativa racional.

Quando pensamos na forma como culturalmente nos relacionamos com o poder as frases que tantas vezes ouvimos e que justificam para muitos a abstenção resumem-se a «são todos iguais» ou «são sempre os mesmos», definindo de certa forma o perfil de um povo que aceita as hierarquias e reconhece privilégios a quem detém o poder.

No tempo felizmente ido do fascismo, era relativamente fácil ouvir personalidades de nome a afirmar convictamente «não precisamos de votar, temos quem pense por nós», ou seja, trata-se da mesma cultura conservadora que, lidando mal com a incerteza do novo, prefere continuar no velho mas certo, salvaguardados obviamente os aspectos ideológicos.

O nosso País tem sido um dos mais abrangidos pela abstenção nas eleições presidenciais e nas últimas, há dias realizadas, muitos conterrâneos não exerceram o seu direito de voto, não participaram na decisão colectiva de escolher o nosso Presidente.

Para a juventude, no entanto, as motivações para a não participação parece residirem noutra linha de pensamento diferente da tradicional, pois na sequência de várias análises conclui-se que a escolha pessoal sobrepõe-se à ideia do dever cívico, ou seja, a partir da década de 80 do século passado a geração cresceu afastada dos regimes nazi fascistas e das guerras por eles provocadas, vive em democracia como quem respira e consequentemente relativiza o seu valor intrínseco.

Relativamente à Europa comunitária e segundo inquérito realizado aos jovens europeus, só 32% dos inquiridos consideram a democracia como um dos cinco valores sociais mais importantes e as possibilidades de efectiva participação na vida política são vistas como algo vago e pouco mobilizador, não querendo esta ideia significar que esta geração não tem causas, só que elas centram-se mais, por exemplo, nas questões ambientais ou de igualdade de género.

Os cientistas políticos olham para estas preferências justificando-as com a questão económica, nomeadamente o elevado desemprego entre os jovens, que os torna mais cépticos sobre a ideia de que a democracia funciona e gera bem-estar e os partidos tradicionais preenchem as lacunas de ordem social.

Resultará daqui também a preferência por líderes extremistas, abrangendo eleitorado jovem e ainda de outras faixas etárias, desiludidos todos com a falta de soluções para os seus problemas, quer de ordem social, cultural ou laboral.

Alguns exemplos actuais de subida ao poder de personagens sinistras podem corroborar esta ideia: Sebastian Kurz, primeiro ministro austríaco, aliás, demissionário por corrupção, Alexander Gaulander líder do partido alemão AFD recem eleito para o Parlamento, Marine Le Pen a francesa vencedora de eleições em França, Matteo Salvini vencedor em Itália, todos da extrema direita europeia e na Ucrânia um governo, aliás, apoiado por personalidades norte americanas, incluindo figuras nazis de relevo.

No nosso rectângulo à beira mar plantado será difícil saber para já se a abstenção contribuirá decisivamente para o desenvolvimento de políticas que vão prejudicar directamente os abstencionistas, apesar da chegada ao Parlamento das ideias fascistas, racistas e xenófobas, mas sabemos que as classes dominantes dispõem de instrumentos poderosos para garantir a separação entre o interesse de classe de cada cidadão e o seu sentido de voto.

Para sair deste imbróglio a Escola Pública ocupa um lugar de excelência, pois tem os meios necessários para um investimento efectivo nas ciências sociais e humanas como a História e a Filosofia, tão voltadas ao ostracismo, mas a Comunicação Social também possui cumulativamente um importante papel a desempenhar na maneira como aborda toda a discussão sobre os temas eleitorais, apesar de uma boa parte dos nossos jornalistas não dispor de uma cultura política suficiente que lhes permita uma abordagem séria dos temas existentes no espaço público e no Jornalismo, sujeito ao garrote do capital que se sobrepõe ao poder político, o que é lamentável porque os jornalistas continuam a desempenhar um papel fundamental na informação deontologicamente séria e mesmo na formação dos cidadãos.

Ficaria incompleta esta abordagem sem mencionar o tema da corrupção como sorvedouro do erário público e motivo de descrença na Justiça, por parte do eleitorado perplexo perante a impunidade de figuras ou figurões que usam e abusam.

Torna-se indispensável ainda não esquecermos a nossa Constituição, nascida com o 25 de Abril e daí acolhendo os melhores frutos, a Lei das leis, a qual se fosse cumprida como devia seguramente traria ao País e aos portugueses uma noção bem diferente sobre o exercício da soberania, assim como outra qualidade de vida.

No nosso País, alguns protagonistas políticos rejubilam com as lacunas observadas no sistema, sempre prontos a utilizar a ignorância alheia como factor de promoção artificial de méritos objectivamente não existentes, mas há outros que continuam a resistir com os trabalhadores e a população para novos avanços em direitos, rendimentos, melhoramentos dos Serviços Públicos Essenciais e de proximidade e mais Justiça Social, tudo para que amanhã possam falar os explorados e não os exploradores, como actualmente se verifica, para que o Sol nasça para todos e a todos acalente de igual modo.

Comissão Concelhia de Baião do PCP

POLÍTICA | PS Baião | Diário de um confinado

ps baiãoDiário de um confinado Não há semana em que a pandemia não seja o assunto mais falado nas notícias. E as novas que nos chegam não são certamente boas: as pessoas infetadas tiveram um aumento substancial e também o crescimento do número de óbitos tem sido, de facto, terrível para o nosso País. Não é fácil encararmos semelhantes notícias que as televisões nos fazem entrar pela casa todos os dias. Verifica-se, no entanto, que há diferenças entre dar uma notícia e depois fazer comentários sobre ela. E tem sido frequente esta mistura entre o papel de jornalista e o papel de comentar, prejudicando a comunicação. Vejo também com preocupação o aproveitamento que muitos partidos políticos têm feito desta situação. Certamente que o Governo não fez tudo bem desde o início: damos isso de barato. Mas arrasar permanentemente a ação do executivo é reduzir a importância da ação parlamentar. Até porque, não nos esqueçamos, todos os partidos políticos estiveram de acordo com a redução das restrições no Natal! Esta semana assisti ao debate sobre a renovação do Estado de Emergência, e pensei que alguns deputados “não merecem a água que bebem”. Penso que o governo deve fazer o máximo possível e imaginável no quadro do Sistema Nacional de Saúde (SNS), e de outras estruturas na área da saúde, para salvar a vida dos que estão enfermos. E isso está a ser feito, mesmo com o apoio do sector privado e cooperativo. Alguns dos deputados sabem e continuam a acusar o governo de ter um problema ideológico neste domínio. Considero que se trata de uma arma de arremesso da direita que, por falta de assunto, atira tudo e mais alguma coisa contra o governo. Um responsável político veio à praça dizer que está um hospital vago, com 50 camas, na zona centro.Disse bem,está vago, pois tem camas, equipamentos, paredes, cortinas, garagem e é muito bem situado.Mas o promotor do hospital esqueceu-se do mais importante: dotar o hospital de recursos humanos, médicos, enfermeiros, pessoal de apoio etc. etc.Findo este processo então sim, deveria ir falar com o SNS. O responsável pelas críticas sabe disso, mas atirou ao governo a questão ideológica e já não é a primeira vez que o faz, o que não me parece ser de bom tom.Podemos fazer política dizendo a verdade e só a verdade. E em momentos de crise a verdade é, ainda mais, uma virtude enorme.

Ademar Rodrigues Membro do Secretariado Concelhio do PS