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Rita Diogo | A importância de manter as memórias coletivas

Rita Diogo

A 27 de janeiro assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, passaram 77 anos da libertação do campo de concentração e de extermínio de Ausschwitz – Birkenau, na Polónia.

 

"Arbeit macht frei"  é a frase em alemão que significa "o trabalho liberta". A expressão é conhecida por ter sido colocada nas entradas de vários campos de extermínio do regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial, como em Auschwitz , onde a inscrição foi feita por prisioneiros com habilidades em metalurgia e foi ali erigida em junho de 1940.

 

Os relatos sobre o que aconteceu em Auschwitz são imensos, vários e sobejamente conhecidos: os prisioneiros chegavam, eram escolhidos para trabalhar no campo ou eram enviados diretamente para a morte (destino mais provável de idosos, crianças, grávidas e doentes); os que se queriam a trabalhar eram despidos, os cabelos rapados, e todos foram despojados dos seus bens e da sua intimidade. Era-lhes entregue uma farda (quem não recorda o livro e o filme “O rapaz do pijama às riscas”), que tinham que vestir durante inverno e verão, dormiam em camaratas sobrelotadas, comiam apenas uma refeição por dia, composta por um litro de água e um pedaço de pão.

Hoje, o campo de concentração é um museu e um memorial que honra as memórias das cerca de um milhão de pessoas que ali morreram à mão das forças nazis, e que recebe cerca de dois milhões de visitas anualmente.Manter viva a memória do que se passou no maior campo de extermínio construído pelas forças alemãs é o objetivo. Fazem-se exposições temporárias, garante-se que tudo o que foi encontrado então está em perfeitas condições de conservação, e é mostrado a todos os visitantes, exige-se silêncio e que se pense sobre o que ali aconteceu. “Para que a tragédia não se repita”, repetem os guias.

Mashoje ainda há quem duvide do dizimar de seres humanos durante aqueles anos, dentro daqueles campos de concentração. É imperioso construir memória coletiva. Passaram 77anos e quando passarem outros 77 anos?

Com o número de sobreviventes do Holocausto a reduzir-se drasticamente, restam agora os seus relatos escritos, as imagens que perduram na memória e as visitas guiadas por pessoas que fazem questão de lembrar todos os que ali passam que a liberdade é um bem muito efémero. Não deixou de haver genocídios porque houve o Holocausto. Continuam a matar-se pessoas porque são diferentes, porque são minorias, porque são ciganos, porque são homossexuais, porque são mulheres, porque são de cor diferente. Os genocídios acontecem contra pessoas cuja condição não é uma escolha e são perpetrados por pessoas comuns (os traços de psicopatia não são avaliados a atalho de foice, a influência cega de grandes manipuladores sobre gente simples é tão conhecida, ou não…). O termo genocídio não existia antes de 1944, ele foi criado como um conceito específico para designar crimes que têm como objetivo a eliminação da existência física de grupos nacionais, étnicos, raciais e/ou religiosos. Visto assim friamente, escrito desta forma crua, é incrivelmente assustador e repudiante para a maioria de nós.

O instrumento decisivamente socializador da memória é a linguagem. Ela reduz, unifica e aproxima no mesmo espaço histórico e cultural várias imagens que guardamos e que ouvimos. De resto, as imagens que guardamos não são, embora pareçam, criações puramente individuais. São representações, ou símbolos, sugeridos pelas situações vividas em grupo pelo indivíduo. A linguagem é elemento fundamental na socialização da memória. A memória é a capacidade de recordar dados e acontecimentos. O conceito de memória coletiva refere-se a todos os aspetos que fazem parte do legado de uma comunidade. Este termo está relacionado com os fenómenos associados à opinião pública e expressa o quadro social da memória compartilhada.A literatura, o cinema, a música, a arte e a formação escolar deverá permitir ter uma ideia aproximada do que ocorreu em outras épocas da humanidade.

É fundamental guardar, passar para as gerações vindouras, todos os eventos que aconteceram e que marcaram para sempre a existência da humanidade. Falar sobre eles, escrever sobre eles, formar conteúdo fiel aos factos, usando a linguagem como elemento socializador da memória. A libertação em Auschwitz aconteceu há 77 anos, não podemos negar, não podemos ignorar, não podemos não acreditar, não podemos ser indiferentes, não podemos repetir em menor ou em diferente escala. PARA QUE NUNCA SE REPITA!!!!