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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

OBLIQUIDADES (6) | Jaime Milheiro

OBLIQUIDADES (6)                                                                                        JAIME MILHEIRO

  

Jaime Milheiro Eterno aprendiz do que desejava  ser, inúmeras vezes pensei que teria  razão antes do tempo, numa presunção que aparentemente me iluminava.

Já em miúdo perceberia  bem e depressa. Antecipava  situações e problemas  sem nada   resolver, numa atitude  difícil de explicar e de estancar mas  que  me seria  útil   por certo, porque  me diminuiria  o medo  do desconhecido que no subsolo lhe jazia.

A questão do produzido nem se punha…

                                              

                                               (Sentindo-me obviamente

                                               o melhorzinho da minha rua…)

 

até me dar conta que nas agendas de crescimento de toda a gente isso acontece...

e que todas as ruas são estreitas, curtas e sinuosas, mesmo as auto estradas a caminho do oriente.

 

Sem vacina, sem remédio, sem farmácia,   todos os seres humanos nessa mesma argúcia se situam e nessa mesma infantilidade se  enaltecem,   comparando-se com as peças do vizinho que não conhecem nem possuem, mas que desejam conhecer e possuir.

Devemos felicitá-los por isso, ainda que múltiplos  caprichos e contorcionismos possam sobrepor-se...

 

                                               (Vi há dias um senhor com gravata

                                                 na fila da vacina...)

 

e ocasionais veleidades  se  recomendem ou apascentem.

 

Todos seremos únicos e brilhantes até deixar de o ser (a data da saída é que pode variar), salvo em circunstâncias disruptivas ou   ladainhas depressivas…

 

                                               (Os outros serão sempre favorecidos,

                                               só nós é que mereceríamos...

                                               “o meu filho  na escola  não aprende

                                               porque a professora não presta”...)

 

carimbando a natural competitividade da espécie. 

 

Na visão geral das coisas, nos caminhos ascensionais, nos patamares sociológicos, nos horizontes  profissionais,   inúmeras vezes  isso também  me aconteceu.

Como toda a gente senti que a minha estimadíssima intenção  de melhoria pessoa e colectiva irremediavelmente se  confinava nas morosidades programadas, nas resistências à mudança, nas  manobras subterrâneas, nas preguiças sustentadas...

 

                                               (Os ingratos não quereriam nem perceberiam,

                                                o balanço  ficaria para  mais tarde… )      

 

alegremente ofuscando a minha própria ingenuidade.

 

Significa isto que todos os seres humanos se embrulham na ilusão do significativo, mesmo  que não façam coisa nenhuma. E que jamais  se detêm, mesmo   coxeando na bengala do adiamento.

Será impossível bloquear-lhe os seus   sentimentos de percurso e  as suas  aspirações de futuro...

 

                                               (Apesar dos discursos improváveis                                                 

                                               e das circunstâncias irrealizáveis… )

                                                            

assentes na incontornável misteriosidade  interna que os promove.

 

Pela minha parte, tantas vezes  isso me  aconteceu que sem remédio foragi.

Fui pescar camarões na Lapónia e pouco  depois já me encontrava na ilha de Páscoa  a grelhar gambuzinos no pão de ló da madrinha, para mais tarde  desfolhar rabanadas  no Natal da África do Sul, sempre à maneira de quem espera  as sopas de burro cansado na madrugada que há-de vir.

Tudo  isso enquanto retirava catotas   do nariz e as  enrolava nos dedos, até que a minha avó chegasse e porcalhão me chamasse, querendo com isto acentuar que...

 

                                                (Haverá sempre  posturas inacabadas

                                                                trajectos por definir

                                                               indecisões retomadas

                                                               fantasias por assumir…)

 

e que ninguém acaba antes de acabar, mesmo que se obrigue a bisbilhotar ornitorrincos entre os  jacarés das Berlengas.

Jaime Milheiro