Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BAIÃO CANAL - Jornal

BAIÃO CANAL - Jornal

OS PEQUENOS TAMBÉM SÃO GRANDES | Aníbal Styliano | Sentir o futebol

styliano.png

Depois do tempo dos relatos na rádio, que permitiam a cada um ver o “seu” jogo, transmissões televisivas, a princípio raras e atualmente várias por dia, mudaram a forma de sentir o futebol. Perderam-se “deuses” e sonhos; agora alimentamo-nos de rotinas cansativas. A publicidade é terrível! A excelência cede lugar à normalidade e a jogada inesquecível é substituída por outra ainda mais original. Nem há tempo para saborear. A tecnologia pulverizou distâncias e uniformizou projetos de jogo. Os adeptos trocaram a proximidade dos ídolos pelos salários exorbitantes dos craques à distância de milhares de quilómetros.

Das entradas como “bando de pardais à solta”, despareceram muitos espaços livres para convívio e padroniza-se velozmente a forma de assistir: cada um na sua cadeira. Em casa, os sofás amontoam-se com a família, os amigos e não faltam palpites, comentários e críticas mais duras aos que falham golos ou passes perdidos: “Até eu marcava!”.

Como “tudo é composto de mudança”, a linguagem futebolística deixou-secontaminarpor uma novilíngua. George Orwell avisou do perigo que é real, porque impede o pensar em liberdade e acrescenta riscos de alienação!

Os dribles, dobras e coberturas cederam perante a largura e a profundidade.A desmarcação cedeu à pressão, a identidade e os duelos vão desaparecendo. O espaço de jogo é cada vez mais inflacionado pelo aumento da procura. A mobilidade aperfeiçoa a dinâmica e o contra-ataque passa a transição rápida. A movimentação coletiva implica dinâmicas diferenciadas, assim como a organização do jogo para controlar o espaço e a bola.

A reação à perda da bola ganha cada vez mais importância para a recuperar e regressar à organização ofensiva para criar espaços para finalização, em função dos jogadores de referência na área adversária. As táticas são mais fluídas e do 3x4x3, muda-se para o 5x3x2, ou mesmo o 4x3x3, de forma imparável… As diferenças diluem-se e tornam-se hábito.

Mas há sempre quem consegue improvisar, inventar um movimento que ilude o adversário e surpreende tudo e todos. São cada vez mais raros, mas ainda existem artistas que não perdem a bola. Normalmente são aqueles que ainda fazemreceções orientadas com a cumplicidade do esférico. Há equipas mais pragmáticas, com espaços definidos para cada um, e outras que nunca param,comsistemáticas trocas de posição.

Há quem aborde os princípios esub-princípios do jogo, diferentes periodizações, fatores de desequilíbrio, equipas com características definidas e quem prefira o jogo direto. Uns falam do modelo de jogo, outros preferem padrões, mas no fundo quem gosta de futebol (para além do clubismo) pretende emocionar-se com um passe inesperado, uma desmarcação surpreendente, um lance ao primeiro toque em velocidade, um golo impossível ou um voo do outro mundo de um guarda-redes que supera as leis da gravidade. E quanto mais cedo tivermos a oportunidade de memorizar lances fantásticos, mais colaboramos na imortalidade do jogo em que onze jogadores de cada lado disputam a posse de uma bola, para ganhar um jogo. Em momentos históricos, já houve jogos em que países que estavam em guerra e as suas equipas disputaram uma partida numa prova internacional, todos os jogadores deram uma importante lição aos governantes e ao mundo. Nessaépoca o futebol esteve prestes a ser um candidato a Prémio Nobel da Paz... Mas há sempre quem não o entende como linguagem universal onde, sem falar, apenas com o olhar e a expressão facial, todos se entendem completamente.

O futebol será sempre um espaço de inteligência em movimento. Nunca se pode repetir um jogo porque é único. Desde o apito inicial, a sorte (ou o destino) está lançada.

Se cada jogador se transforma num elemento especial, os adeptos e espectadores devem confiar no que estão a ver. Por vezes, quem comenta acrescenta pormenores parciais, podetentar alterar a percepção dos lances repetindo com insistência, para criar uma ilusão que acaba por se tornarnuma falsa realidade. Por isso, a velocidade com que se criticam árbitros, a relação de factos ocorridos no passado com o jogo do presente (sempre guardados para ocasião escolhida), as insinuações que “especialistas” mantém em lume brando e só usam quando oportuno, é muito intensa. Raramente, uma equipa de arbitragem recebe as felicitações pela sua ação! Será por esquecimento? É impossível (mesmo com tecnologia a auxiliar) acertar sempre ao longo de 90’ (mais o tempo extra) quando numsegundo cada um vê de forma diferente, em função do espaço em que se encontrae tem de decidir.

Sintam o jogo. Valorizem os lances de qualidade. Puxem pela vossa equipa sem perder tempo a insultar “os outros”, garantam-lhes confiança e, no fim reconheçam o esforço independentemente do resultado. Nós somos uma só equipa!

Grandes são os clubes que apoiam sempre a sua equipa.

É raro o adepto que diz: “A minha equipa joga hoje”. Sempre diz: “Nós jogamos hoje”. Este jogador númerodoze sabe muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os outros onze jogadores sabem que jogar sem adeptos é como dançar sem música.” Eduardo Galeano.

Aníbal Styliano (Professor e comentador)

 

 

DUAS DE LETRA | Lourdes Dos Anjos| Ontem, hoje e amanhã

Lourdes dos Anjos

Com quinze anos eu era uma menina feliz, responsável e respeitada.Era a menina mais nova do senhor ARMINDO e da ADELAIDINHA.Vivia na casa onde nasci , na cidade do Porto e acreditava que o mundo era a minha rua ou apenas mais uma avenida ou um jardim.Preparava a minha entrada para a escola do magistério do Porto e ansiava que o sábado chegasse para , no fim das aulas, correr pela rua de Pinto Bessa até á estação de Campanhã, para apanhar a automotora das 16h que me levava até Estarreja .
Depois nem olhava para trás com medo que a minha mãe se arrependesse da autorização dada e o comboio partisse sem mim. Ao avistar os enormes tanques do "Amoníaco", pegava no saco, apertava-o contra o peito para que o coração não saltasse com o comboio em andamento e colava o nariz no vidro até poder abrir a porta mágica da carruagem.
Da estação de Estarreja até Salreu era uma caminhada em passo largo para aproveitar o tempo de liberdade que a minha avó me dava.Uma liberdade condicional mas tão saborosa que começava logo no tirar os sapatos e ser cachopa da terra. Beber um púcaro de leite diretamente das tetas da vaca com direito a bigode branco e uma sonora gargalhada da minha madrinha.Comer sopas de vinho muito docinhas, dormir com a minha avó e correr pelo "aido" como um potro selvagem que quer agarrar o vento.
Depois, tudo terminava quando , no domingo, ouvia o carro do meu pai parar em frente da porta e eu voltava ser a menina com pulseira eletrónica que se devia de comportar como uma estudante e ter por isso muito mais responsabilidade em todos seus atos.E lá encontrava sempre os olhos cheios de azul, de cumplicidade, de silêncio, de ternura, da minha avó nos momentos mais difíceis. Quinze anos de alegria e de esperança num futuro menos escravo que os meus pais me ajudaram a construir .
No tempo dos medos e das palavras por dizer, tudo era, à minha volta, um jardim que havia de florir em cada dia do ano.
Com trinta anos, era uma mulher feliz, com um filho de olhos cheios de luz e uma Pátria renascida para a liberdade.Trabalhava numa zona muito difícil da cidade do Porto e acreditava que o futuro estava nos homens e nas mulheres que eu preparava para viverem sem algemas , com obrigações e direitos escritos nos muros da cidade e assinados com todas as letras de Verdade e Paz.
Já não era a menina vestida de sonho mas a mãe que trazia consigo a palavra que valia como uma escritura feita no tabelião e os braços prontos para pegar nas armas que tinha e lutar por um país onde as cédulas pessoais das crianças não tivessem aquela frase que magoava a ouvir e a ler: PAI INCÓGNITO.
Lutei por um país que não tivesse que ver partir os seus jovens para uma guerra por explicar e depois receber alguns deles numa caixa de pinho.Lutei contra a droga, a violência , qualquer que fosse, contra o trabalho infantil, contra o poder que instalado na capital, fazia do Norte um gueto de escravos , saloios e analfabetos. LUTEI, LUTEI, LUTEI ..
Aos quarenta e cinco anos era avó. Segurei nos braços aquele pedaço de mim e jurei que, um dia, ele teria tantas saudades minhas como eu ainda tinha da minha avó de olhos azuis e alma branquinha. Sei que consegui quase todas as metas que me propus atingir, até essa...de ser uma avó de cumplicidades e saudades.
Hoje, depois de ultrapassar os setenta, com muito caruncho e muita vontade de viver e morrer lúcida, continuo , como aos 15 anos, a ser responsável, como aos 30 a ser feliz e aos 45 a abrir os braços para os outros netos que entretanto foram chegando.
Mas, porque despedaçaram o meu país, roubaram o futuro dos jovens, rasgaram o lençol remendado dos velhos, destruíram as palavras que com tanto sacrifício escrevemos nos caminhos de Portugal, hoje, começo a temer que as creches dos meninos e os lares que acolhem e mimam as velhas raízes das nossa vidas, não possam continuar de pé.Temo que o meu filho não tenha direito a uma reforma no fim da sua vida de trabalho, temo que os novos continuem a partir e os velhos fiquem sós e sem lenços para acenar na hora da partida.
Temo que a guerra financeira que vivemos nos sufoque sem dó nem piedade e nem sequer nos permita um último suspiro.
Resta-me a alegria de ainda ter forças para agradecer aos que , respeitam os nossos velhos, dando-lhes colo e sarando as feridas que as chicotadas sucessivas da vida lhes fizeram.
Não quero ser um fardo nas costas de quem amo, tenho direito a escolher o meu último espaço para viver com dignidade.
Confiei o dinheiro que me foram exigindo ao longo da minha carreira profissional, nas mãos do estado, cumpri com todos os meus deveres, tenho por isso, direitos
Rejeito esmolas.
Exijo que cumpram o contrato que comigo fizeram no ano de 1968.
Temo o futuro, o meu, o vosso,, dos jovens que hoje contam 15 anos e que falam apenas das banalidades com que fazem o seu modus vivendi, dos que contam 30 e ainda não sabem com quantas tábuas se constrói uma canoa, dos que tem 45 e estão na vida sem conseguir viver e de todos os outros que nasceram livres e hoje estão algemados ao poder financeiro que sufoca os povos, e comanda os dias amargos dos portugueses.
Temo que este nobre povo tenha que voltar a pedir esmola para dar a sopa aos mais frágeis.
ONTEM- A minha geração ainda viveu, sonhou, provou o sabor de alguma felicidade.
Os outros, onde irão cair? Talvez se fiquem pela escadaria de S.Bento ou na porta de qualquer igreja com uma lata na mão, que lhes sirva de malga .
HOJE - É TEMPO DOS ZÉS, DOS SILVAS , DOS LIMAS, DOS TONES E COMANDITA ABRIREM O MANTO E OFERECEREM OS ESPINHOS DAS ROSAS QUE PROMETERAM AOS NOVOS MENDIGOS QUE FABRICARAM .
AMANHÃ- TALVEZ AS NOVAS GERAÇÕES TENHAM DE REPETIR O GESTO DAS VELHAS GENTES QUE REPARTIAM CADA SARDINHA POR TRÊS NACOS DE BROA , PARA "CALAR" TRÊS BOCAS...

Lourdes dos Anjos

É professora aposentada, do Porto, vive no Porto, escreve sobre o Porto e ama o Porto como poucos! Quando declama poesia, faz "chorar as pedras".  Aceitou colaborar com o Baião Canal | Jornal , à moda do Porto, pois claro! 

Da sua obra destacamos o livro com o título "Nobre Povo".

Nobre Povo

Os olhares e o sentir destes dois portuenses, Maria de Lourdes dos Anjos a autora e o fotógrafo António Amen, deram origem a este precioso trabalho documental da história da Cidade do Porto. Testemunho de uma época , Nobre Povo traça o percurso singular, tão surpreendente como inspirador , de ambientes vividos no Porto , ao longo de várias gerações e que marcaram de modo indelével o sentir do Porto de Outros Tempos, a nobreza de personagens como a Drª Adelaide Estrada ilustre discípula de Abel Salazar e cúmplice de ideais de Humberto Delgado, Eugénio de Andrade, o génio do Porto, o Dr. Albino Aroso porque poucas mulheres sabem o muito que fez por elas antes de terem nascido, a polícia judiciária e finalmente o Nobre Povo nos retratos de Emilinha dos jornais e da Miquinhas Esgazeada.