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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

Paulo Esperança | NUNCA PENSEI

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Sei (sabemos) bem que vivemos num mundo dito globalizado em que os
sounbites marcam a chamada informação.
Também sei que esse mundo é desumanizado, não tem sentimentos,
explora apenas o crime, a violência, as pequenas histórias e o mal dizer.
A pandemia de covid 19 veio trazer às sociedades actuais questões,
interrogações, comportamentos que ninguém, obviamente, estaria à
espera. E que ninguém sabia (provavelmente ainda não saberá) como
poderia reagir.
Sou do tempo de fugir à polícia que carregava no Festival dos Coros em
Abril de 1973 na Faculdade de Ciências no Porto. Sou do tempo em que,
depois do 25 de Abril, a polícia carregava “forte e feio” quando se
ocupavam casas…simplesmente porque havia casas sem gente.
Sou do tempo em que as chamadas forças armadas eram vistas como
exemplo de instrumento colonial. E eram!
Mas também sou do tempo em que desde o posto de comando da
Pontinha com Otelo e outra gente boa e Salgueiro Maia no Largo do
Carmo, desapareceu um regime que tinha apodrecido e não percebeu que
o podre não regenera.
Apesar da sua adesão ao 25 de Abril tenho de confessar que policia, forças
militarizadas, tropas, nunca foram a minha praia.
Provavelmente os cabelos brancos e os custos de muitas derrotas sofridas
podem ser causadores do adocicar do sentido crítico.
Hoje, de facto, considero que será extremamente difícil às polícias lidarem
com gente –como aconteceu há dois meses- que vai para Porto Covo e
vilipendia e agride de forma gratuita tudo o que lhe aparece à mão.
Hoje, de facto, tenho alguma dificuldade em entender como se podem
fazer ajuntamentos “à balda”, sem qualquer tipo de precaução, no Largo
de Santos em Lisboa ou na Cordoaria no Porto sem que haja intervenção
das chamadas forças da ordem.
E digo isto porque na situação actual ainda estamos a falar de saúde
pública em que todos ainda temos de ter cuidados para que não
precisemos de fazer recuos.
Nos caminhos que temos vindo a viver atravessou-se, naturalmente, a
pandemia. Ninguém, repito, ninguém, sabia o que aí viria e como se
defender dela.

Apareceu uma task force com problemas iniciais em que um homem da
armada surgiu como responsável.
No seu trabalho apareceram os negacionistas, os oportunistas, gente sem
princípios humanitários perante os seus concidadãos.
Manteve-se seguro, ouviu as pessoas, deu a cara, afirmou-se, exigiu
quando era tempo de o fazer.
Retirou-se na espuma dos dias, sem alarido ou clamores quando entendeu
que o seu desígnio estaria cumprido. Pessoalmente tenho dúvidas que
esteja mesmo cumprida porque parece-me que há alguma leviandade ao
achar-se que a batalha está ganha. Mas isso não será culpa do vice-
almirante!
Repito: nunca pensei ter de tirar o chapéu a um militar…mas agora tenho
de o fazer. Simplesmente porque numa causa civil ajudou todo um país a
ter possibilidade de morrer menos. E isso para mim…é exercício de
cidadania!

Rita Diogo | Tomar decisões, um processo racional ou emocional?

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Num dia normal, cada um de nós toma um grande número de decisões, das mais simples às mais complexas. Na maioria das vezes, nem refletimos sobre este processo, decidimos e está feito! A decisão não é um fim em si mesmo, pode dizer-se que é apenas uma etapa, pois uma decisão colocada em prática cria uma nova situação, que pode gerar outra decisão ou processos de resolução de problemas. Uma tomada de decisão é iniciada por uma situação de frustração, interesse, desafio, curiosidade ou irritação.

A tomada de decisão diz respeito ao processo de escolha de uma opção entre várias, isto dito de forma bastante simples. Na verdade, a tomada de decisão é um dos processos mais complexos da neuropsicologia. Sabemos que, em termos neuropsicológicos, podemos considerar que a tomada de decisão se refere a um processo cognitivo de escolha que envolve análises emocionais e racionais de nossas experiências passadas, considerando os riscos e suas implicações para o presente e para o futuro. Assim, quando tomamos uma decisão, analisamos aspetos distintos de cada escolha em relação aos possíveis resultados finais, sendo que estes aspetos podem ser a valência dos resultados (ganho ou perda), a sua magnitude (grande ou pequena), o tempo para ter o resultado esperado (imediato ou não) e a probabilidade de o resultado acontecer (alta ou baixa). O conhecimento sobre os processos que nos fazem tomar decisões é de extrema importância para compreendermos os mais variados aspetos do comportamento, desde comportamentos típicos e saudáveis aos comportamentos psicopatológicos.
Durante muito tempo, as teorias explicativas da tomada de decisão consideravam que todos os processos de escolha seriam conscientes, deliberados e tenderiam a buscar o máximo de satisfação e os melhores resultados possíveis, considerando que nossas escolhas são feitas de modo racional. No entanto, tudo isto foi sendo questionado devido à emergência de estudos e análises psicológicas e neurocientíficas. Atualmente, temos a noção de que tomada de decisão inclui componentes motivacionais, emocionais e ecológicos. Sabemos, pois, que as emoções ajudam-nos a definir as nossas escolhas, muito para além de uma análise meramente racional. Se pensarmos na quantidade de vezes que ingerimos alimentos não saudáveis, mesmo sabendo que nos farão mal, facilmente percebemos.
Podemos conceptualizar a nossa análise em função da racionalidade e da intuição. A diferença entre racionalidade e intuição está na quantidade e qualidade de informação de que dispomos, por um lado, e das opiniões, sentimentos e vivências, por outro. Quanto maior a base de informação, mais racional é o processo. Quanto maior a proporção de opiniões e sentimentos, mais intuitivo se torna. A racionalidade e a intuição são atributos humanos complementares e não concorrentes.
O processo de tomada de decisão é uma atividade passível de erros, pois ela será afetada pelas características pessoais e perceção de cada um. Na tentativa de minimizar esses erros e chegar a um melhor resultado, devemos efetuar um processo organizado e sistemático. Sugere-se para tal algumas etapas: Identificar um problema existente, enumerar alternativas possíveis para a solução do problema; selecionar a mais benéfica das alternativas; implementar a alternativa escolhida; reunir feedback para descobrir se a alternativa implementada é capaz de solucionar o problema identificado.
Decidir implica ponderar a informação existente, num determinado espaço de tempo. Distinguir a informação plausível daquela que é tantas vezes enviesada é fundamental e uma tarefa igualmente complexa.
Há poucos dias fomos chamados a votar. Votar em eleições democráticas não é mais do que um processo de tomada de decisão. Como sabemos, a abstenção nas eleições portuguesas continua a ser elevadíssima. Fica a questão, porque será se declina esta tomada de decisão tão importante, tão fundamental?

Rita Diogo (Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde)