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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

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SAÚDE | Rita Diogo | Empatia com ou sem pandemia

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Empatia é o tema desta crónica. Com ou sem pandemia, a empatia é fundamental para que possamos cuidar uns dos outros.

Por definição e, consultando o dicionário, sabemos que a empatia é “Um nome feminino. Faculdade de compreender emocionalmente. Capacidade de se identificar com outra pessoa. A identificação emocional com o eu de outro. De em +grego páthos, “estado de alma” + ia.”. Tentemos, então, ir para lá da definição num qualquer dicionário. A empatia deve ser entendida com tendo duas componentes essenciais: a cognitiva que se relaciona com a capacidade de compreender a perspetiva das outras pessoas e a afetiva que se relaciona com a habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência dos outros. O estado de empatia consiste em perceber corretamente o quadro referencial interno do outro, com todos os significados e componentes emocionais que contém. Segundo Carl Rogers “Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos do outro”. A empatia consiste na capacidade de nos colocarmos, verdadeiramente, no lugar do outro, algo bem difícil de se conseguir, por sinal. A empatia implica, por exemplo, sentir a dor ou o prazer do outro, como ele sente, e perceber as suas causas como ele as percebe, porém, sem nunca perder de vista que se trata da dor ou do prazer do outro. Neste sentido, é diferente da compaixão na qual a pessoa acredita fazer parte daquela dor. Podemos dizer que a empatia se caracteriza pela tomada de perspetiva, ausência de julgamento, reconhecimento da emoção nos outros e capacidade de comunicar esse estado emocional.

A empatia permite-nos uma perspetiva diferente do que nos rodeia. Acontece tantas vezes subestimarmos ou julgarmos as outras pessoas mediante o nosso padrão de certo e errado, fácil e difícil, bonito e feio, grande e pequeno. Se tentarmos perceber o outro, talvez consigamos perceber melhor as razões dos comportamentos de quem nos rodeia e, dessa forma, criar uma relação mais aberta, de confiança e apoiante. A empatia melhora as relações interpessoais e aumenta o nível de satisfação. Nem sempre é fácil... Às vezes sentimos que estamos a fazer de tudo para perceber o outro, mas estamos demasiado presos aos nossos sentimentos, às nossas emoções e aos nossos quadros de referência pelos quais nos temos vindo a guiar a vida toda. Nem sempre o que vivemos intensamente e o que nos perturba é o mesmo que afeta quem nos rodeia. O momento que vivemos é um exemplo disto. Há diferentes formas de lidar com o confinamento, considerando que será tanto mais impactante quanto a maior estimulação que temos no dia a dia, podendo deixar-nos despidos perante nós mesmos. Há diferentes formas de “ler” os números que a comunicação social nos transmite, há quem os leia como números cegos, há quem os leia como pessoas e seres humanos por trás de cada número. Há diferentes formas de compreender as orientações transmitidas, dependendo dos nossos recursos emocionais e intelectuais, bem como o nosso conhecimento prévio e da nossa identificação com aquilo que nos é dito. Há diferentes formas de encarar a perda de amigos e familiares e a forma como nos despedimos (ou não) deles. Há diferentes formas de gerir o contágio, a infeção e a Covid19 na primeira pessoa. Isto não significa que o sofrimento seja maior ou menor. O problema em si tende a ser pouco relevante nas nossas vidas, o que é realmente importante é a forma como olhamos e lidamos com o problema.

Usamos máscara porque somos empáticos, mantemos distanciamento físico porque somos empáticos, cumprimos as orientações da Direção Geral de Saúde porque somos empáticos, cumprimos o confinamento porque somos empáticos. Não apenas porque somos empáticos, mas também!

Nem todos dispomos das mesmas ferramentas internas para enfrentar crises como a atual. Estamos cansados, exaustos. Quanto mais cansados estamos, mais impulsivos somos nas nossas tomadas de decisão e mais imprecisos somos na avaliação dos riscos para nós e para os outros. É esperado que possamos sentir medo, ansiedade, tristeza, angustia mas importa reconhecer o limite a partir dos quais se tornam patológicos. A empatia e o reconhecer este limite nos outros (para além da importância de o reconhecermos em nós mesmos) é o que nos move para a ajuda. Nenhuma sociedade poderá sobreviver sem empatia, o ser humano só chegou até aqui porque aprendeu a cooperar e a ajudar o outro sempre que necessário. Não esqueçamos também que, num mundo sem ética, seremos incapazes de sentir empatia.