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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

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Rita Diogo | Ansiedade e medo, as duas faces de um mesma moeda?

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Durante os últimos meses algumas das palavras mais pronunciadas foram medo e ansiedade, sendo que todos sentimos estas emoções de forma, mais ou menos, recorrente, mais ou menos, perturbadora das nossas rotinas diárias. O medo de contrair COVID-19, o medo de desenvolver sintomas graves, o medo de disseminar a infeção, a ansiedade gerada distanciamento físico que contrasta com o modo de estar dos povos latinos, o medo de perder o emprego e a estabilidade condicionaram as nossas vidas neste último ano. Muitos de nós acederam às medidas de confinamento mediados, essencialmente, pelo medo. O medo aumentou à medida que o número de infeções era maior. O medo aumentou à medida que fomos conhecendo rostos de pessoas que ficaram doentes: conhecidos, amigos e familiares. O medo aumenta com a proximidade do estímulo. Em alguns de nós o medo passou a sintomas de ansiedade, com maior ou menor comprometimento das nossas vidas.

O medo é uma resposta adaptativa e funcional a situações de perigo, sendo expresso pela resposta de “luta ou fuga” mediada pela divisão simpática do sistema nervoso. Se pensarmos nos medos mais comuns: alturas, fogo, águas profundas, doenças, animais selvagens e ferozes... percebemos que o medo pode ter uma função protetora, na medida em que evita que nos magoemos ou que nos confrontemos com situações menos agradáveis. O medo prepara-nos para nos defendermos perante o perigo, ativando os nossos recursos internos.

É a expressão inapropriada de medo que caracteriza os transtornos de ansiedade. A ansiedade e o medo estão intimamente relacionados, ambos constituem reações diante de uma dada situação. De modo geral, a ansiedade diferencia-se do medo pela ausência de um estímulo externo que produz a reação. A ansiedade também tem sido descrita como medo não resolvido. O medo, segundo esta conceção, relaciona-se com reações comportamentais de fuga ou evitamento de situações ameaçadoras e, quando essas reações são sufocadas e deixam de ser adaptativas, o medo cristaliza-se e surge a ansiedade. A ansiedade e o medo passam a ser reconhecidos como patológicos quando são exagerados, desproporcionais em relação ao estímulo e interferem com a qualidade de vida, o conforto emocional ou o desempenho diário do indivíduo.

Pode dizer-se que a ansiedade é uma sensação desagradável de medo, apreensão, caracterizada por tensão ou desconforto associado à antecipação de perigo, de algo desconhecido ou estranho. É acompanhada de vários sintomas físicos: aceleração respiratória, alteração do batimento cardíaco, falta de força, palidez, contração ou relaxamento dos músculos, sudação, tremores, dores e queixas físicas, etc. O carácter previsível e a capacidade de controlar a ansiedade diminuem o poder ansiogénico dos fenómenos. Estes diferentes mecanismos de proteção, formam-se no decorrer do desenvolvimento, sendo a resposta do ambiente determinante na sua aprendizagem.

Quando os sintomas de ansiedade são constantes e persistentes, impedindo o indivíduo de seguir as suas rotinas quotidianas, pode existir um distúrbio de ansiedade. Clinicamente, é útil considerar tais distúrbios em alguns transtornos diferentes, as quais incluem: transtorno de pânico, agorafobia, fobias específicas, fobia social, transtorno de stresse pós-traumático, transtorno de ansiedade generalizada e transtorno obsessivo-compulsivo. É importante saber reconhecer quando a ansiedade se torna incapacitante, quando interfere no quotidiano e pedir ajuda.

Rita Diogo 

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde
Cédula Profissional: 1494 (OPP)