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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 8 - Maio 2021

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Rita Diogo | A minha liberdade

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A liberdade é um conceito social, político, pessoal, complexo e diverso. É um conceito que é sentido de forma diferente conforme as vivências de cada pessoa, consoante o que as oprime, porque só se percebe a verdadeira importância da liberdade na ausência dela. Nasci em 1975, só sei o que é viver em liberdade. Sou grata a todos os que lutaram para que hoje tenha oportunidade de estudar, de ter um emprego, de viver do meu salário, de assumir as minhas escolhas, de votar livremente...

Felizmente a única experiência de privação da liberdade que conheço é o confinamento inerente à pandemia, que contribui para esta minha reflexão. A pandemia veio evidenciar o quanto a liberdade é frágil e que não a devemos ter como adquirida. Passados 47 anos, vivemos tempos em que a liberdade está colocada em causa devido a um vírus invisível que nos obrigou a viver num Estado de Emergência, renovado sucessivamente e a sentir uma enorme limitação e mesmo supressão de direitos, liberdades e garantias. As limitações à circulação, o recolher obrigatório eram coisas que não conhecia, que não identificava como fazendo parte das minhas vivências. Acreditando num bem maior que é a saúde de todos e a proteção do nosso Sistema Nacional de Saúde, dei por mim a obedecer. Mas obedecer não significou deixar de me questionar, não opinar, não me manifestar. A pandemia faz-nos questionar se é possível aprendermos alguma lição sobre a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Só se aprenderá com reflexão, pensamento crítico e olhar atento sobre o que nos rodeia. De todas as vezes que pensei que queria fazer algo e que não podia, surgiu a oportunidade de pensar sobre a importância de ter liberdade.

Na verdade, ainda sinto a minha liberdade ameaçada e não é só de agora. O agora apenas me fez pensar sobre isto. Em 2021, ainda é tão difícil ser mulher que quase nos esquecemos que a revolução foi, de facto, há 47 anos. Li isto algures, transmite tudo o que eu sinto e é mais ou menos assim: “Já senti que não tinha a mesma liberdade por ser mulher. Já senti que não tinha liberdade para dizer o que penso, porque isso me trouxe consequências negativas. Já senti que não podia ser livre de vestir o que queria por atrair atenções indesejadas. Já senti que a minha expressão de opinião na política (e também noutras áreas) era minimizada por ser mulher. Já senti a minha liberdade posta em causa por comentários acerca do meu corpo, acerca de ser provocante ou de não ser, de não me maquilhar, por me maquilhar. Já senti que me julgaram arrogante por mostrar que sei algo e já me chamaram coisas menos simpáticas por apontar erros. Já senti que a minha opinião valia menos por ser mulher. Já senti que a minha independência e autonomia não agrada a uma sociedade que ainda quer, mesmo dizendo que não, mulheres submissas, cuidadoras e colaborantes. Já ouvi a minha convicção e defesa dos direitos humanos ser chamada de histeria ou de algo pior. Já ouvi ofensas e insultos serem chamados de liberdade de expressão.”

Tem sido um caminho complicado este de ser mulher, de pensar pela minha cabeça, de ter opiniões e de as manifestar em alguns contextos sociais adversos. O caminho faz-se caminhando, o caminho faz-se de luta, este é um caminho onde não cabe a resignação, o conformismo. Este é o meu, o nosso caminho!

(Crónica dedicada às minhas filhas, Gabriela e Adriana)