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Rita Diogo | A invibilidade do dia 17 de maio

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O mês de maio tem vários dias comemorativos. Os dias comemorativos representam datas em que aconteceu algo relevante para as pessoas e comunidades. Estas datas representam o esforço de manter na memória coletiva algum acontecimento ou momento com relevância social, simbolizando um marco de conquistas. A atribuição de significado àquilo que nos rodeia é muito importante.

Em maio comemoramos, por exemplo, o dia do trabalhador, o dia da mãe, o dia dos museus, o dia da família ou o dia contra a homofobia.

Hoje escrevo sobre o (ainda) mais invisível deles todos, o Dia Internacional contra a Homofobia. Escrevo sobre este dia porque foi publicado, no mês de maio, o relatório preliminar sobre jovens LGBTQIA+ (lésbica, gay, bissexual, transexual/trangénero, queer, intersexo, assexual) e clima escolar do Projeto Free, que nos traz dados preocupantes (em que me baseio para escrever esta crónica) e porque não houve no concelho onde resido uma única ação que sinalizasse esta data (em nenhum organismo público ou privado, em nenhuma escola, em nenhum serviço de saúde ou municipal).

No dia 17 de Maio, assinala-se o Dia Internacional Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Esta data coincide com o dia em que a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais (a 17 de Maio de 1990). Eu tinha 15 anos e a homossexualidade era considerada uma doença mental, perturbador isto! A sociedade evoluiu imenso desde 1990 na aceitação das pessoas LGBTQIA+, mas o caminho ainda é longo e tortuoso. A homofobia consiste no ódio e repulsa por homossexuais, atitude esta que deve ser combatida para que possamos formar uma sociedade que esteja baseada na tolerância e no respeito ao próximo, independente da sua orientação sexual. O mesmo se aplica na transfobia e na bifobia.

A discriminação existe em vários contextos mas preocupa-me a situação das escolas nesta matéria. As escolas continuam a não ser ambientes seguros e acolhedores para as crianças e jovens LGBTQIA+. Os conteúdos e práticas educativas continuam resistentes à abordagem da orientação sexual, identidade e expressão de género e características sexuais. Os jovens LGBTQIA+ são vítimas de bullying com mais frequência do que os jovens heterossexuais, reportando ser vítimas de assédio, insultos, terem boatos sobre si, serem postos de parte, serem alvo de empurrões ou outras agressões físicas, alvo de ameaças, piadas e gestos de natureza sexual, serem alvo de roubo ou destruição dos seus bens pessoais. A mesma ordem de razão de aplica ao cyberbullying. Também é importante refletirmos sobre as motivações de bullying ou assédio. A motivação mais frequente está relacionada com a aparência física, imediatamente seguida pelos episódios decorrentes do não ser tão masculino como os outros rapazes ou não ser tão feminino como as outras raparigas. O terceiro motivo mais frequente é o género (comprovando que a discriminação de género continua muito presente nas novas gerações). O bullying motivado por se ser lésbica ou gay ou bissexual também se encontra nos motivos mais frequentes. Seguem-se as motivações pela incapacidade física ou intelectual, situação económica ou religião. A maioria destas situações aconteceu nos corredores das escola. Como resultado deste clima escolar adverso, com manifestações de discriminação, a maioria dos jovens LGBTGIA+ optam por esconder a sua identidade e esta invibilidade afeta profundamente o seu bem estar e a saúde mental. Quando se questionaram os jovens sobre as atividades no âmbito da educação sexual nas suas escolas, mais de metade referiu que, nestas, não foram abordadas questões sobre as diferentes orientações sexuais (lésbicas, gays ou bissexuais por exemplo). Os jovens LGBTQIA+ pensaram mais vezes em desistir da escola, em comparação com os jovens heterossexuais. O pessoal docente e não docente não possui informação e denota falta de preparação para lidar com estas situações e em muitas situações abstém-se de intervir ou intervém de forma desadequada e ineficaz. Se atendermos ao tempo, ao número de horas que os jovens permanecem nas escolas facilmente se percebe a pertinência de dotar a comunidade educativa de competências adequadas.

Empatia, respeito, diversidade, dignidade são algumas das palavras que me ocorrem a este propósito. O caminho faz-se caminhando, o caminho contra o estigma, contra o preconceito, contra o ódio é um caminho fundamental e que devemos fazer junt@s!!

Rita Diogo,
Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde
Cédula Profissional: 1494 (OPP)