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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 6 - Abril 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 6 - Abril 2021

OS TEMP(L)OS DA GENTE ARREPENDIDA | Paulo Esperança

PAUL ESPERANÇA

Estamos em Abril! O mês de todos os sonhos, o mês de todas as esperanças, o mês em que o futuro era agora!

Abril fez-nos descobrir que era possível construir a liberdade sem muros nem ameias, que poderia haver um país em que só há liberdade a sério quando houver paz, pão, habitação,saúde,educação.

Esta caminhada teve muita gente boa, generosa, intrépida lutadora contra as arbitrariedades de um regime feio, obscuro e ameaçante.

Alguma dessa gente, na bondade da sua juventude andou pela calada da noite a distribuir “panflos” contra o fascismo e a guerra colonial. Arrostaram com as agruras da Pide, da repressão, do cerceamento da liberdade de expressão, enfim da negação da condição humana.

Alguma dessa gente habitava o “Piolho”  dissertando sobre a virtudes dos amanhãs que cantam.

Alguma dessa gente andou empilhada na chaimite de Salgueiro Maia, calcorreou as rua de Lisboa na caça aos “pides”.

Alguma dessa gente ajudou a construir o “prec”. Esteve nas barricadas contra o “28 de Setembro” e o “11 de Março”. Andou pelo Palácio de Cristal em 25 de Janeiro de 1975 quando o CDS realizava o seu Congresso.

Alguma dessa gente ocupou casas vazias para que os mais desfavorecidos tivessem habitação condigna.

Alguma dessa gente esteve no Porto e em Lisboa, no Consulado e na Embaixada de Espanha mostrando o seu desespero e a sua repulsa pelo assassínio de cinco militantes antifranquistas em 27 de Setembro de 1975, em Espanha.

Alguma dessa gente escreveu em jornais da época de forma a transmitir ao povo que esse povo tinha voz.

Alguma dessa gente escreveu e lutou para pôr em marcha o sonho de um 25 de Abril do Povo.

Mas os tempos mudam! É verdade que não é fácil resistir à ressaca das derrotas e ao descambar de todos os projectos que inundavam o imaginário de um mundo novo.

Mas também é verdade que é muito difícil explicar o arrependimento.

Até aceitaria que essa gente viesse dizer: ok, eu era jovem, percebia pouco de política, queria mudar o mundo...mas percebi que estava enganado. Por isso optei por outra linha!

Mas não! A desfaçatez faz com que muita dessa gente afirme exactamente o contrário do que outroura defendeu como se as sua posições actuais sempre tivessem sido o pensamento nuclear de toda a sua vida.

O neo-liberalismo, o racismo e a xenofobia encapotados, a dúvida pretensamente metódica sobre qualquer causa progressista incorporam o seu pensamento(?) erigindo-os como arautos de uma chamada “nova direita” que tem tão de velha como a que  Freitas do Amaral, inventou em 1974.

Mancomunados com obscuros interesses editoriais  propagam teses defensoras do capitalismo mais bacoco como se estivessem a descobrir a pólvora.

Serventuários de quem lhe paga principescamente renegam o seu passado tentando passar pelo intervalo das gotas da chuva sem se molharem.

Não é preciso observar atentamente nem consultar as páginas dos Governos sobre quem quer ministrar educação aos cidadãos deste país para se perceber do que falo.

Expressamente destilam aberrações transforamadas em colunas de opinião que a vida comprova terem estado bem resguardadas para ajustes de contas futuras .

Andei com muita dessa gente nas guerras que eram necessárias. Tenho pena do futuro que escolheram!

Desculpem, do que fiz ...de nada me arrependo. Faria algumas coisas de forma diferente? Claro que sim. Mas ninguém pode adiantar ou atrasar a historia.

Por isso  aqui estou para o que der e vier!

Fiquem com esta:"Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é que fica. Quando as pessoas param, há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os álibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta", José Afonso.

E já agora, também com esta:

 

Do que um homem é capaz

As coisas que ele faz

Para chegar aonde quer

É capaz de dar a vida

Para levar de vencida

Uma razão de viver

A vida é como uma estrada

Que vai sendo traçada

Sem nunca arrepiar caminho

E quem pensa estar parado

Vai no sentido errado

A caminhar sozinho

Vejo gente cuja a vida

Vai sendo consumida

Por miragens de poder

Agarrados a alguns ossos

No meio dos destroços

Do que nunca vão fazer

Vão poluindo o percurso

Com as sobras do discurso

Que lhes serviu pr'abrir caminho

À custa das nossas utopias

Usurpam regalias

Para consumir sozinho

Com políticas concretas

Impões essas metas

Que nos entram casa dentro

Como a Trilateral

Com a treta liberal

E as virtudes do centro

No lugar da consciência

A lei da concorrência

Pisando tudo pelo caminho

Para castrar a juventude

Mascaram de virtude

O querer vencer sozinho

Ficam cínicos, brutais

Descendo cada vez mais

Para subir cada vez menos

Quanto mais o mal se expande

Mais acham que ser grande

É lixar os mais pequenos

Quem escolhe ser assim

Quando chegar ao fim

Vai ver que errou o seu caminho

Quando a vida é hipotecada

No fim não sobra nada

E acaba-se sozinho

Mesmo sendo poderosos

Tão fracos e gulosos

Que precisam do poder

Mesmo havendo tanta gente

Para quem é indiferente

Passar a vida a morrer

Há princípios e valores

Há sonhos e há amores

Que sempre irão abrir caminho

E quem viver abraçado

À vida que há ao lado

Não vai morrer sozinho

E quem morrer abraçado

À vida que há ao lado

Não vai viver sozinho

 

José Mário Branco ( Do que um Homem é capaz, Álbum “Resistir é Vencer”, 2004)

 Paulo Esperança, Abril 2021

 

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