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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

OBLIQUIDADES (4) | Jaime Milheiro

Jaime milheiro psicanalista.jpg

Integrados numa cultura que, na tentativa de  remendar  as perversidades que por toda a parte circulam, alimenta dispendiosíssimos enredos à volta de coisa nenhuma, dificilmente avaliamos a ilusão de muitas das motivações que nos procedem.

Inúmeras organizações e pessoas  reforçam-se e reforçam-nos nesse  sentido, enclausuradas nas estreitas canalizações do que  pretenderíamos ser. Funcionam  nas aparências, desbaratam longitudes, atrofiam objectivos...

 

                                               (Patrocinam emboscadas,

                                               fanfarronam armadilhas,

                                               abençoam falcatruas…)

 

sempre encavalitadas em magníficos retratos

e sempre pavorosamente esquecendo algumas essências fundamentais da civilização  inteligente a que dizem pertencer.

Na novidade dos comprimidos e nos apregoados horizontes dos paraísos  anunciados, creditam-se ninharias, cultivam-se bugigangas, repenicam-se-se magias, desembrulham-se missangas, jamais  interrogando ou  esclarecendo a pobreza de oportunismos comerciais...

 

                                               (Inundações e pastagens,

                                                figurinos e sistemas,

                                               esteticidades e lixos…)

 

elevados à categoria de  matriciais necessidades.

Tudo estará de passagem, tudo será idêntico em toda a gente, tudo serão   momentos a  terminar na curva seguinte, sem  conteúdo, sem peso,  sem fermento, num usar e deitar fora  despido da mínima consistência que multiplica dinheiros e  facturas...

 

                                               (Todos marcharemos de remédio

                                                em remédio,

                                               até ao remédio final...)         

 

vincando  quanto os seres humanos, mesmo na super-instrução e qualificação do século  XXI,  estranhamente dependem de engodos sem alicerce e se descuidam de os perceber.    

 Há inúmeras mentiras  nas vendas e  nas  encomendas.

Para além das lamentáveis afirmações com que frequentemente  galanteiam   superlativas benfeitorias  nas pessoas e nos grupos, particularmente utilizáveis nas relações familiares, nas relações sociais,  nas relações em geral, até nas  perspectivas de futuro...

 

                                               (Todos   inconscientemente desejam

                                                mães alegres e descontraidas,

                                                 a cantarolar regozijos

                                               no embalo das seduções…)

 

semeiam dados absurdos sem qualquer crítica ou julgamento.

Exclusividades narcísicas, opacidades asininas, explorações disfarçadas, constituem o    poço sem fundo desses enganos   auto-reproduzidos, ninguém tendo força  sozinho para remar contra a maré

embora seja sempre   possível fazer alguma coisinha e  à sua maneira todos possam contribuir…

 

                                               (Na circunstância de cada um… )

                                                

 para  derrubar inúmeras imposturas que nos entorpecem.

JAIME MILHEIRO
______________________
Breve nota biográfica
O Dr. Jaime Milheiro disponibilizou-se a colaborar com o Baião Canal | Jornal, para o qual contribui com artigos quinzenais.
O Dr. Jaime Milheiro é um psiquiatra e psicanalista português, Licenciado pela Faculdade de Medicina do Porto, tendo feito a sua preparação no Porto, Lisboa e Paris.
Numa carreira de 50 anos, bateu-se ininterruptamente pela humanização do doente e pela valorização dos factores psicossociais na Saúde Mental das pessoas e das comunidades. Disso fez o grande desígnio da sua vida profissional.
Fundou o Centro de Saúde Mental de Vila Nova de Gaia num registo de Psiquiatria Comunitária.
Fundou o Instituto de Psicanálise do Porto.
Entre outros cargos, foi presidente da Associação Portuguesa de Saúde Mental; É membro titular e didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Associação Psicanalítica Internacional; Pertence desde 1983 à Comissão de Ensino da Psicanálise em Portugal. Docente dos Institutos de Psicanálise de Lisboa e do Porto.
Escreveu dezenas de artigos científicos e centenas de artigos de opinião em revistas, livros colectivos e jornais. Publicou diversos livros, numa progressiva reflexão sobre o funcionamento dos seres humanos. Aos temas da saúde e doença, sofrimento e psicossomática, sexualidade e comportamento, tem acrescentado, nos últimos anos, ensaios e conceptualizações sobre o que chama de misteriosidade, religiosidade e religião.