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baiaocanal

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Natércia Teixeira | ...O olhar vazio denunciava-a.

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Círculos escuros em volta dos olhos faziam adivinhar uma noite mal dormida, povoada de fantasmas alimentados a lágrimas ainda insuficientes para lhe deixar a alma limpa.

Fixava a chávena do café que segurava entre as mãos e parecia agarrar-se a ela qual tábua de salvação, para se manter desperta.

Pressentia-lhe a exaustão e procurei encontrar as palavras certas para lhe transmitir algum conforto…só me ocorriam lugares comuns.

Laura, a minha amiga de sempre era a mulher mais extraordinária que conhecia… uma personalidade indecifrável numa imagem desofisticação onde se diluía algo primordial e intocado que lhe conferia um semblante que oscilava entre a candura e a rebeldia.

Aquela mulher era uma fortaleza, lucida e pragmática...menos no que concerne aoque conseguia tocar-lhe a alma.

As tempestades da vida tinham-lhe ensinado a camuflar as fragilidades, não que a tivessem tornado mais forte…mais triste, certamente.

A melancolia que carregava no olhar, marcava-a como uma cicatriz.

Eros, o lobo como eu lhe chamava, aninhava-se colado a ela.

Aquele cão seguia-a como uma sombra…presente na luz e na escuridão.

Não sabia que desapontamento a atormentava, sequer se aquela prostração era resultado de algum ou a soma de muitos, mas conhecia-lhe a falta de limites e a entrega desmedida que inevitavelmente a eles conduzia e para abismos onde brincava às escondidas com a própria vida.

Recordei-me de umaconfidencia, da qual sou fiel depositária.

Muitas vezes falava-me como se o fizesse para si mesma…talvez uma tentativa de catarse…outras, como se escrevesse num diário que se recusava ter, porque provavelmente lhe assustava ter registos para memoria futura.

Escuto-a como um padre em confissão. Sepulto o que me conta e absolvo-a sem penitencia.

Não sei julgar, nem carece de expiação aquele que age com a inocência dos que se doam quase sem contrapartidas.

No dia em causa, estava com uma constipação horrível e ligou-me.

Estranhei o pedido silencioso de ajuda, raro, vindo de alguémque está habituado a cuidar de si mesma sozinha.

Fui ter com ela.

Encontrei-a debilitada…disse-me precisar tomar um antibiótico, mas que tinha dado o que havia conseguido comprar.

Quis perceber o que se passara.

Dias antes, já adoentada tinha ficado em casa.

Ligou ao médico e amigo que mesmo de longe lhe indicou o medicamento a tomar.

O Emanuel continuava a aparecer e a desaparecer-lhe da vida, conforme os humores e conveniências…a mensagem desse dia foimais um migalho que atirou parabenefício próprio.

Também ele adoentado, conhecia-lhe a abnegação e os conhecimentos.

Eu sabia dossentimentos que nutria e a vulnerabilidade em que eles a colocavam…disso,ele também sabia.

Nesse mesmo dia, ela saiu de casa para ir comprar o antibiótico.

Negaram-lho na primeira farmácia a que se dirigiu por não ter prescrição escrita do médico.

Conhecendo-a, sei que não teria insistido em arranjaro medicamento, mas o Emanuel tinha-lhe pedido para se aconselhar junto do amigo sobre o que tomar…e ele estava como ela…talvez pior, porque as constipações são sempre muito mais agressivas e difíceis de suportar no masculino.

Estando o bem-estar do Emanuel em causa,duvidas e hesitações deram aso ao impulso que a fez percorrer as farmácias que conhecia para conseguir uma caixa do antibiótico prescrito.

Encarei-a de frente e vi refletido no olhar que me devolveu, a minha própria indignação, nos seus olhos apenas surgiu um laivo de embaraço de criança apanhada em falta.

Vociferei, num tom mais elevado e rude do que aquele que pretendia:

- E ele aceitou?

- Ele nãosabia…nunca saberá!

Engoli em seco…a raiva e as palavras.

Bendisse a sabedoria ou ardileza do criador por ter remetido o pensamento ao silencio, ou pelo menos por lhe ter dado essa prerrogativa.

Ele não sabia…pois não sabe…nem isso, nem nada e com certeza nunca saberá efetivamente coisa alguma.

Fiz um telefonema e fui eu mesma comprar-lheo antibiótico.

Naquele dia quando de lá saí, arquivei no cofre forte das memórias aquele episódio.

Hoje observo-a equestiono-me quantoà dimensão dedesconsiderações necessárias para que se chegue àquele vazio onde não cabe mais nada.

Mantenho-me em silencio para que o dela me fale.

O Eros sacudiu-se e depositou-lhe a enorme cabeça no colo…obrigando-a a fixa-lo.

Ela sorriu com os olhos e afagou-lhe o pêlo macio, depois voltou a cabeça na minha direção e apenas disse:

- Tinhas razão…o Amor não salva tudo!

 

Natércia Teixeira

In Grãos de Pimenta Rosa