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baiaocanal

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MARIA ODETE SOUTO |Da cultura do individualismo à desumanização da escola e da vida.

Odete Souto

Vivemos tempos muito estranhos. Parece que um mostro nos vai engolindo lentamente sem que consigamos parar para pensar, refletir e agir de uma forma consciente, responsável e sustentada E isto é tanto mais grave quanto temos responsabilidades acrescidas nos nossos papeis sociais.

Sinto-o, todos os dias, na escola. Sou professora, não sou mãe. Mas lido e trabalho com os/as filhos/as dos/as outros/as e tento, todos os dias, criar empatia e pôr-me no lugar do outro. E questiono-me, observo, penso e, claro, ajo. Mas faço-o sempre, de acordo com aminha consciência. E é um esforço medonho. É remar contra a maré.

Nestes tempos estranhos há escolas e práticas para todos os gostos. Desde os que acham que é possível fazer “um ensino misto, online e presencial”, colocando câmara na sala de aula para  que, quem teve que ficar em casa, possa assistir à aula, um verdadeiro “bigbrother”, até aos que, como eu, acha que a aula se constrói com aqueles sujeitos e aquele professor, que o ato de aprender se inscreve na relação, no afeto, na curiosidade, na mediação e orientação, no vínculo que se cria e que não é apenas cognitivo, mas que se inscreve num compromisso relacional, ético, afetivo, emocional… É uma tarefa hercúlea, mas que, para mim, faz sentido.

Claro que vivemos todos em contexto pandémico. São tempos estranhos que já duram há tempo demais. É meu entendimento que o vírus não atacou só a parte física, mas que nos empurrou para uma “verdadeira esquizofrenia coletiva”.

No início foi o possível. E todos desregulamos tudo. Sabemos. E não sei se poderia ter sido de outra forma. Era importante manter contactos, perceber como estavam, agilizar, ajudar… e fez-se de tudo. Misturou-se vida pessoal com vida profissional, facultaram-se contactos pessoais ao cão, ao gato e ao periquito, recebeu-se, respondeu-se e fez-se contactos a qualquer hora do dia ou da noite e a qualquer dia da semana. E ficou. Passou a ser norma.

Pela minha parte, como não embarco de qualquer forma, passado o primeiro impacto, posicionei-me e tentei autorregular-me e resistir.Não faço aulas presenciais e online. Aliás, não acredito na eficácia disto e não ando cá para “entreter meninos”, nem tenho o dom da ubiquidade. Gosto demasiado deles.

Sejamos claros e conscientes. Se os alunos estão em isolamento profilático, de duas uma: ou estão sintomáticos e têm com que se entreter; ou não estão e têm um tédio tremendo. Mesmo assim, têm uma classroom onde têm todos, confinados ou não, materiais e tarefas, se quiserem e puderem aceder. É que nem todos têm a mesma circunstância e, aquilo que estamos a fazer, com estas práticas, é cavar ainda mais o fosso que já existia. Deixemo-los em paz e, entretanto, regressam. O mesmo se aplica aos professores. Recuso-me a fazer tal coisa. Ou bem que estou com uns, ou bem que estou com os outros. E como já atrás referi, se os que estão em casa estão “com sintomas” têm com que se entreter. Respeitem-nos! Desde quando alguém doente, por um período curto de tempo, precisa de escola em casa? Haja senso…

Eu sei, eu sei, que os pais querem o melhor para os filhos e acham que estão a perder aprendizagens. E pressionam. Eu sei que muitos professores e muitos diretores acham que não se podem perder aulas. Eu sei que estamos todos a ser engolidos pelo monstro… Mas é importante parar e refletir.

O maior drama não está nas aprendizagens escolares que não se fazem, mas nas questões morais, de relacionamento e de saúde mental. E vão-se contando os suicídios, as depressões, as agressões, a indiferença… Em nome de todas as Amélie, Rose… e tantos e tantas jovens que têm desistido de viver nas últimas semanas, parem para pensar. Por favor e enquanto é tempo.

E não posso terminar esta minha reflexão sem falar do episódio da morte do fotógrafo René Robert, que tombou, desmaiado, numa rua de Paris e sucumbiu, ao frio, perante a indiferença de todos. Terá sido socorrido nove horas depois e o alerta terá sido dado por um sem-abrigo. Terá morrido de hipotermia. Dá que pensar…

Esta é a verdadeira pandemia que iniciou antes do covid 19 e que se prolongará na era pós covid: a indiferença, a desumanização, a falta de empatia, a competição desenfreada, o individualismo...Triste mundo este! Urge reverter este caminho e não custa dinheiro, não endivida, mas faz-nos todos melhores pessoas.

Com Mia couto, acho que “é preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros.»

É preciso construir pontes. É preciso voltar às coisas simples e humanizar. E isto faz-se com tempo e disponibilidade, com diálogo igualitário, com reflexão e partilha.

 

Maria Odete Souto

 

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