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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

MARIA ODETE SOUTO | Ainda sobre a pandemia e a escola – avaliar o quê e para quê?

Maria Odete Souto

A avaliação é um dos aspetos fundamentais da escola e do ensino aprendizagem. Arrisco-me a dizer que será até um dos aspetos mais importantes de todas as coisas e, por isso, da vida. Para conhecermos e agirmos em conformidade precisamos sempre de avaliar, projetar, reavaliar, até para antecipar consequências e prevenir.

Na escola usamos três tipos de avaliação: a avaliação diagnóstica, a avaliação formativa e a avaliação sumativa. As duas primeiras andam de mãos dadas e não têm, obrigatoriamente, que se traduzir em classificações. São absolutamente importantes e determinantes no sucesso dos/as alunos/as, no desenvolvimento de competências, capacidades e espírito crítico, no aprender a aprender. A avaliação sumativa, não deixando de ser importante, tende a reduzir o/a aluno/a a um número, o que já de si é muito complicado e, sobretudo, presta contas externas do desempenho de professores/as, alunos/as, famílias e escola. E quanto a isto, deveremos ser muito cautelosos/as nas formas como se colhe esta informação e no uso e na análise que dela é feita.

Sempre tive a ideia que mais importante que a sindicância que outros/as possam fazer de nós, do nosso ser e do nosso agir, é a nossa capacidade de refletir sobre a nossa agência, o nosso desempenho e o nosso ser que são fundamentais. Daí que tente, sempre, junto dos meus alunos e das minhas alunas incutir-lhes isto. Por essa razão valorizo imenso as suas reflexões e a sua autoavaliação e muitas vezes lhes cito Frida Kahlo quando diz: “Não quero que pense como eu, só quero que pense.”

No final deste segundo período letivo deixei-lhes o seguinte desafio.

“Estamos no final do segundo período letivo, um período atípico e estranho, que nos empurrou, de novo, para o ensino à distância.Vivemos há um ano num contexto pandémico que nos obrigou a mudanças imensas com custos para as vidas das pessoas, das famílias e das escolas. E, por isso, com custos nas vossas vidas, enquanto alunos/ase enquanto pessoas.Também, por certo, ao nível das aprendizagens. Por tudo isto, porque é importante que sejamos capazes de refletir sobre as coisas e formar opinião sustentada, porque neste final de período, nós professores/as, temos que avaliar e classificar o aproveitamento de cada aluno/a e do grupo/turma, e porque a vossa autoavaliação é muito importante, aquilo que vos proponho é que façam uma reflexão pessoal sobre a circunstância vivida, o vosso e, porque não, o meu desempenho, as dificuldades que sentiram e, por último, o nível que acham que merecem.”

E acreditem, vale a pena lê-los/as e escutá-los/as. É importante que isso se faça. E precisamos todos/as de refletir muito sobre aquilo que eles e elas têm para nos dizer. Desde alunos/as que referem que foi bom ir para casa porque “precisava de me recolher em mim”, até aos que assumem que se deitaram às 6 horas da manhã porque ficaram a jogar, aos que se queixam de sofrimento, solidão, desânimo, aos que nem “se ligavam”, sabe-se lá o porquê…temos uma panóplia de circunstâncias e experiências vividas, com mais ou menos conforto, com mais ou menos sofrimento, com mais ou menos apoio, que nos devem interpelar a todos/as. E, portanto, que nos deve fazer pensar que sentido faz estarmos a fazer uma avaliação sumativa, nesta altura, e a atribuir níveis. Partilho convosco, desde já porque a menina em causa e a mãe me autorizaram a fazê-lo, e depois porque é um discurso na primeira pessoa. Trata-se de um excerto da autoavaliação feita pela  minha aluna Ana Carolina Gaspar, uma menina de 13 anos que frequenta o 8º ano. E fala assim: “Neste segundo período aconteceu tudo de novo, voltamos para casa, voltamos paras as aulas online, mas desta vez diferente: mais aulas, mas horas em frente a um computador, mais presos, mais sozinhos.Os primeiros tempos foram os piores ter que voltar para casa, depois de nos voltarmos a habituar a estar com pessoas todos os dias. Não sentia vontade de fazer nada, não consegui ser produtiva, era sempre a mesma rotina de não fazer nada. Depois vieram as aulas, com um horário praticamente igual ao das aulas presencias e, na minha opinião, não é por temos mais aulas que vamos aprender mais até porque toda gente sabe que não é a mesma coisa estar na escola ou estar em casa. Se estamos numa situação diferente eu acho que o horário deveria ser diferente, porque às vezes um professor atrasa, e temos de ir a correr buscar os livros para chegar a tempo, e se não chegarmos a tempo já somos penalizados, porque “como estamos em casa” devemos chegar a tempo. Depois vamos para as aulas e temos que participar, claro que temos, mas há dias em que estamos tão cansados mentalmente que não nos apetece fazer nada e isso é compreensível.Somos crianças que foram fechadas em casa, proibidas de contactar com outras pessoas, estamos a sentir muitas coisas ao mesmo tempo.É claro que vamos ter dias assim por isso acho que,às vezes, os professores poderiam ter mais consideração em relação a isso.

Por essas razões eu não consigo ter noção do que realizei este período se a minha participação foi boa ou não, a única coisa que eu sei fiz sempre todas as tarefas, e tentei participar sempre que sabia... “.

Obrigada, Carolina, por escreveres e dizeres o que o sentes e refletires sobre as coisas desta forma tão clara, tão humilde e tão profunda. Bem hajas, por isso. Que orgulho tenho em ti! Da mesma forma o agradecimento é extensivo aos/às outros/as alunos/as que também o fizeram. E foram muitos/as. Cada um/a à sua maneira porque são pessoas diferentes e carregam vidas, saberes e experiências diferentes.

São crianças, minha gente! São crianças privadas do direito a ser crianças, a brincar, a conviver. Privadas de escola, na sua verdadeira essência. Cansadas, desgastadas, tal como os adultos. Mas são crianças.

Que sentido faz estarmos a fazer uma avaliação de final de período, com um nível atribuído em pauta, num contexto destes? Será que com isto não estamos todos/as, mas todos/as a desgastarmo-nos ainda mais e a acentuarmos ainda mais as desigualdades e as injustiças? E a aumentar o desânimo e a desmotivação? E que sustentação temos nós professores/as na avaliação atribuída?

Está na lei, desde há muito tempo, que um aluno pode ser avaliado em dois momentos de avaliação num ano, em situações excecionais. Para os mais leigos nesta matéria, por exemplo, se um professor for colocado muito tardiamente, pode não avaliar por falta de elementos de avaliação. E não há prejuízo nenhum para o aluno.

Foram feitas avaliações no primeiro período e, em meu entender, só deveriam voltar a ser feitas no final do terceiro período. Mesmo assim, a sabermos que tudo isto é atípico, anormal e excecional.

E, por favor, não me venham com discursos que se recuperam aprendizagens com mais aulas ou mais tempo letivo, ou mais não sei o quê no período de férias. Ou que as crianças vão ter que aprender mais e mais rápido.

Férias são férias e as pessoas precisam de descansar. As crianças e os jovens são pessoas.

E precisamos de saber, todos/as, que estamos todos/as diferentes, que nada será como antes e que precisamos de repensar muitas coisas, muitas práticas e muitos preconceitos.

Precisamos de devolver a alegria e os afetos às crianças. E o resto constrói-se, com o esforço de todos/as.

Dizem que Páscoa é amor. Amem-se muito, com cuidado e esperança!

 

Maria Odete Souto

 

 

 

 

 

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