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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

Lourdes Dos Anjos | Recordar os tempos e as formas do verbo VIVER!

Lourdes dos Anjos

 

Recordar os tempos e as formas do verbo VIVER!
Nasci com a proibição de fazer perguntas aos mais velhos e com muitos degraus separando o colo da minha mãe do meu corpo de menina que crescia. Ainda me lembro muito bem da vergonha que sentia de dizer à minha mãe o quanto a admirava e o muito que a amava...
Pior que a vergonha de lhe falar dos sentimentos que temos na alma, é ter uma ponta de ciúme dos abraços que os netos lhe davam.
Faltou-nos tempo para dizer palavras de mel, ficou uma força enorme de fazer diferente e colorir o retrato que guardamos de quem nos deu tudo o que lhes foi recusado.
Eram tempos de banca rota, de guerra mundial, de analfabetismo, de fome, desemprego e medo.
O meu avô materno, acompanhando o pensar do seu tempo, dizia que apenas os moços deviam ir à escola para governarem a vida em qualquer parte do mundo; as cachopas tinham era que aprender a pegar numa enxada para cavar a terra, lavar, cozinhar e fazer alguma costura porque, o ler e escrever era, para elas, o começo da desgraça.
Rompendo esta regra, a minha mãe (que se foi embora no ano
em que completou 95 anos) começou por pedir a um irmão mais velho que lhe desse os livros para ir à escola.
Depois, porque não havia abusos, no ano seguinte, foi vender pão pelas portas dos senhores ricos do lugar para ela própria comprar os livros que precisava...eram assim os tempos daquele tempo...
Duas batalhas estavam ganhas, mas a guerra ainda ia a meio.
Chegou depois a professora que se apaixonou pelo ato guerreiro da pequena em contrariar o poder paternal e resolveu o assunto dando-lhe de comer e emprestando-lhe os livros em troca de serviços mais ou menos leves, como tratar das galinhas da Índia que a professora tinha em casa.
E a minha mãe calcorreando cerca de 10 km de caminho entre pinhais e campos para chegar à escola das Laceiras lá foi conquistando a sua independência e a sua sabedoria.
E concluiu a 4ª classe com distinção com melhor desempenho que as filhas de lavradores abastados da sua terra a quem quase nada faltava, faltando também muita coisa.
Como gostava de a ouvir recordar esse seu feito heróico. Outros tempos...
Talvez por ter vivido este cenário de injustiça e estes tempos de desigualdade, de quase servidão, a minha mãe criou-nos com obrigações, muitas obrigações e ensinou-nos a lutar pelos direitos que achava lhe tinham sido negados.
Deu-nos muito mais do que podia, mas obrigou-nos a tirar boas notas nos colégios onde nos matriculou, atirou-nos à cara o sacrifício dos meninos da nossa idade que trabalhavam sem horário para terem pão e caldo, disse-nos sempre que éramos pobres...mas, diante de muitos outros tinhamos OBRIGAÇÃO de ajudar e "mostrar respeito por quem lutava para sermos mais GENTE"
Aprendemos a ter poucos luxos, poucas prendas mas soletramos respeitosamente uma palavra de ouro, a palavra HONRA.
Tudo se foi perdendo, o exemplo dos pais e o respeito pelo poder paternal, a luta pelos sonhos, o sacrifício para aprender e o gosto de saber.
Os meninos querem, podem e mandam e são todos coitadinhos, hiperativos e sobredotados... depois crescem e trazem uma carrada de problemas que nem pais, nem professores conseguem resolver e são ditadores e querem e querem e querem...e podem e mandam.
No verão querem ir aos festivais todos, no inverno querem tudo o que a televisão anuncia desde roupas a telemóveis e, nas outras duas estações do ano, querem discotecas e internet. Mas... chegaram outros novos tempos. Estão no poder os netos dos velhos ditadores.Quem trabalha não tem horário nem há leis que os protejam.Quem não gosta de "vergar a mola" faz pouco de toda a gente e vira sindicalista
Chegou o desespero, o desnorte, a desavença social e familiar. E agora?
Depois de tanto termos conseguido, desde a semana inglesa até aos subsídios, do uso de calças pelas mulheres até ao pleno direito de uma professora ou enfermeira casarem com quem quisessem, temos agora um tempo de regressão onde os que se habituaram a comprar tudo feito ou pré cozinhado, começam a ver a roda a desandar e nem sabem onde fica a esquerda ou a direita.
Todos se calam... logo que rode para o lado que lhes convém.
Foi-se quase tudo o que se conquistou ao longo de muitos anos e só espero que desta falta de valores morais e materiais em que nos afundámos, fique pelo menos, uma lição de maior e mais verdadeiro amor sem falsas e ridículas abastanças.
E que não volte a ser preciso as nossas netas irem vender pão pelas portas para comprarem os livros escolares...HAJA:
Menos prendas, mais Natal.
Menos caprichos, mais entendimento.
Menos arrogância, mais família.
Menos orgulho, mais diálogo.
Como dizia a minha mãe: HAJA mais amor e menos confiança.
Não queria morrer sem sentir novos ventos de mudança, apesar de não ter vontade, nem força para chegar aos 95 anos da minha mãe...mas queria ver este país tomar novo rumo...
Sinto um orgulho enorme na NOBRE gente portuguesa que luta e vence e atira ás bentas da EUROPA quem SOMOS e como nos distinguimos da mixórdia que por aí anda...E ainda gosto de RECORDAR ESTAS FORMAS DO VERBO VIVER