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baiaocanal

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Jaime Froufe Andrade | Histórias avulso | Natal na guerra

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Noite alta. Na Cantina do Freitas, em Moçambique, joga-se com vício e paixão. No final de cada partida estalam ferozes zaragatas. Ávidos, os vencedores conferem os ganhos, os azarados soltam pragas e blasfêmias. Desconfiam de ter havido batota, suspeita agravada pelo efeito do álcool, da liamba, do calor...

Eu também fui depenado. Com os bolsos do camuflado vazios, levanto-me furioso da mesa de jogo. Outro toma já o meu lugar na mesa da lerpa, comigo a rosnar insultos, a cuspir palavrões. 

As noites são sempre iguais neste minúsculo reduto militar da província de Tete, paredes-meias com o Malawi e a Zâmbia. Nesta noite de consoada, a estúrdia e os excessos mostram-se piores do que nunca.

Agastado, rumo para a caserna deserta, procuro refúgio na minha velha guitarra. Mas nem os blues me valem. Volto cá para fora tal como entrei.

Agora, sozinho, caminho ao longo do arame farpado, sob um céu coalhado de estrelas. O ar fresco faz-me bem. Sinto-me outro. Penso no Natal e olho para o céu à procura o astro que guiou os reis magos. Apaziguado pela refulgente aletria cósmica, esqueço a batota, as minas, as emboscadas. Esqueço a picada, esse palco de guerra e tragédias ali bem à vista.

Subitamente um vagido sobe no ar, enchendo de sentido a noite. A poucos metros, numa palhota para lá da cerca de arame farpado, nascia um menino. Um menino negro, entre palhas.

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