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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

Jaime Froufe Andrade | Histórias avulso

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(A pandemia pôs-nos à espera do futuro. Parados pelo vírus, talvez seja tempo para percebermos o que deixámos para trás. É essa a proposta de Histórias avulso)
 
 
Mais nada...

O tempo tudo leva. Só as recordações ficam. Hoje, numa caminhada pela zona da Circunvalação, fronteira de terra e mar entre Porto e Matosinhos, recordei-me de um domingo que me deixou marcas. Andava pelos 17 anos e o Verão tinha acabado. Mas o mar chamava-me. Obediente, fui ao seu encontro. Manhã cedo, estava já preparado para o primeiro mergulho. 


Não fui o primeiro a chegar à praia. Um grupo de homens preparava-se para um jogo de futebol. O número de jogadores era pernão. Eu vinha mesmo a calhar para acertar a conta. Foi assim que dei início a uma esforçada carreira de jogador de futebol de praia. Acabara de ingressar, a custo zero, no glorioso Sport Enrola na Areia. 


Outros clubes também ali jogavam. Era o caso do Inter da Circunvalação ou do Barça da Areosa, mas nenhum tinha, obviamente, a nossa classe. Talvez só o Maré Vaza Futebol Clube, por quem sentíamos justificado ciúme.


A disciplina e o trabalho são a base do sucesso de qualquer equipa. No Sport Enrola na Areia os dois quesitos abundavam. Era tudo levado muito a sério. A época ia do início do Outono ao fim da Primavera e os jogos, com a duração de duas horas, começavam pontualmente às nove da manhã. 


Em escala rotativa, quatro jogadores compareciam meia hora antes para retirar da areia o lixo trazido pelas marés, fazer as marcações do campo e montar as balizas. Era num anexo do Caninhas Verdes, restaurante popular situado junto a um canavial em frente à praia, onde a bola e as balizas ficavam guardadas.


Para mim, jogar no Sport Enrola na Areia tratava-se de assunto da máxima importância. O domingo demorava sempre a chegar, tal a ânsia de entrar em campo. Mesmo assim, não posso dizer que sentisse amor à camisola, jogava em tronco nú, tal como os outros. Isso poderá até passar por vantagem. Mas resultava em pesadelo nos domingos invernosos, quando sobre nós desabavam impiedosas cargas de granizo. (Mais apropriado seria talvez dizer que choviam picaretas) De mãos na cabeça à laia de capacete, corríamos então para o mar. Cobertos de água até ao pescoço, era esse o modo de nos abrigarmos.


Esses domingos de intempérie obrigavam-me a ir de guarda-chuva para a praia. Findo o jogo e depois de um ou dois mergulhos, - o frio da água não dava para mais - não era fácil vestir a roupa que ficara guardada em sacos de plástico, com uma pedra a fazer peso, não fosse o vento pregar uma partida. No domingo seguinte, lá estava  eu de novo para deixar tudo em campo, tal como os outros. 


Faltar a um jogo era uma vergonha. Havia multas pesadas para quem cometesse falta tão grave. No final da época, o dinheiro dos infractores ajudava a custear um almoço de confraternização. Nem a doença servia de desculpa. Só se o atleta mostrasse atestado médico. 


O regulamento interno do clube previa apenas duas situações. Assim, estava escrito no dito regulamento: Só é permitida a não comparência do atleta a um jogo por morte de homem ou casamento de filha. Mais nada.

 
Jaime froufe Andrade

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