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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

Jaime Froufe Andrade | Histórias avulso

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(A pandemia pôs-nos à espera do futuro. Parados pelo vírus, talvez seja tempo para percebermos o que deixámos para trás. É essa a proposta de Histórias avulso)

Adoptivo

Logo traga gravata. Vai ao jantar da Maria Lamas. Temos de noticiar quem irá dar as boas-vindas. António Valdemar deu a ordem e vaticinou: Mestre, vai haver quem não ponha lá os pés. Com medo.

Valdemar era o chefe. Chamava-me mestre, eu estagiário na delegação de O Primeiro de Janeiro, chegado de fresco a Lisboa, tratamento que relevava a minha condição de aprendiz.

Paradela de Abreu, editor, entra apressado no gabinete de António Valdemar. Curioso, entro também. Embasbacado, olhos numas folhas que Paradela lhe mostra, o chefe. Eram as primeiras provas tipográficas do Portugal e o Futuro.

O editor, com trejeitos de cabeça, alerta que não estão sós. Valdemar levanta os olhos, encara-me. Estou a mais, percebo: não era assunto de estagiário.

Nesse tempo, relação cúmplice tinha eu com um camarada norueguês. Ficou-me grato por o ter introduzido nas pataniscas de bacalhau e no tinto do Cartaxo, num discreto restaurante das Escadas do Carmo. Confessou-me ter interrompido uma reportagem com a guerrilha na América Latina, para vir a Lisboa cobrir um golpe. Um golpe de Estado! Estranhava que eu, jornalista, nada soubesse.

A informação que recebera, dizia, era segura. Os dias passavam. Quando uma força do Exército saiu do quartel das Caldas, o norueguês assegurou: A agência com quem trabalho disse-me que ainda não chegou a hora. Sempre me interroguei que agência seria.

O dia chegou. A festa foi pródiga. No meu caso, três dias sem ir à cama, sempre a carrear notícias da rua para as páginas do jornal. Os factos sucediam-se. Todos marcantes: a História a acontecer ao segundo.

Quem é este, agora? Interroguei-me. À minha frente, Álvaro Cunhal! A chispa no olhar, a clareza do discurso, ali mesmo deram para antecipar que a gente do trabalho o adotaria como líder. Eu, adoptado já pela profissão, a vaticinar. Tal qual o chefe.

Homens de Letras: CUNHAL/100ANOS/CEM PALAVRAS

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