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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

Jaime Froufe Andrade | Histórias avulso

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(A pandemia pôs-nos à espera do futuro. Parados pelo vírus, talvez seja tempo para percebermos o que deixámos para trás. É essa a proposta de Histórias avulso)

Balada imperfeita

 

Ele estava ali sentado com a calma / de quem nunca fez mal a ninguém / de quem apenas tem / o seu dia-a-dia para viver / Pessoas tristes passavam em ondas / enquanto ele / pacificamente / tirava migalhas dos bolsos para dar às  pombas.

Murmurei estas palavras ao ver um sem-abrigo sentado no lancil do passeio, a socializar com o símbolo vivo da paz. Decidi destiná-las a uma canção para dedicar a esse amigo do tempo de juventude. E que agora tinha ali à minha frente, na dura condição de sem-abrigo. A canção, infelizmente, não passou desse impulso inicial. 

Quando calhava de encontrar o Alberto Abreu na baixa do Porto, conversávamos como se, para nós, não houvesse amanhã. Acabava sempre por lhe recitar esse início da letra O Alberto ria-se como só ele sabia fazer. Grande cena, meu..., comentava animado. 

Não me despedia sem deixar a promessa: Para a próxima, vais ver, já te trago a letra… Entretanto, ele partiu amortalhado pela sua paz, fazendo-me prova do que há de irremediável na morte de um amigo a quem se ficou a dever uma canção.

O Alberto não era um qualquer. Foi músico de sucesso. Percebi logo, naquela vez, em minha casa, quando lhe passei a guitarra para as mãos… Afinou-a (para mim ela estava afinadíssima) e, com encantatória desenvoltura, pôs-se a dedilhar as cordas, a cantar uma balada de uns rapazolas da nossa idade: Is there anybody going to listen to my story All about the girl who came to stay?. Foi essa a primeira vez que ouvi Girl, dos Beatles. Por obra e graça do Alberto, aquilo foi canção para toda a vida. Ainda hoje a trago no ouvido.

Agora aqui estamos outra vez, ambos já em fim de linha, neste que, sem o sabermos, será o nosso último encontro. A tarde move-se vagarosa, ao ritmo das nossas lentas histórias. Enquanto o ouço, faço-lhe a síntese: o Alberto é um catraio no riso, um senhor no trato, um velho precoce, devido às partidas da vida. 

Muito para trás ficou a sua carreira nos Tártaros, banda que deixou marca no Porto e até no país. Estrondosos êxitos como a Valsa da Meia Noite e Ó Rosa arredonda a saia (1) animaram programas radiofónicos de discos pedidos, festas populares em grandes recintos, ou soirées dançantes nos clubes sociais da cidade.

A sua condição de sem-abrigo obriga-me a uma constante actualização sobre o seu paradeiro. Por isso, à despedida, a inevitável pergunta: E então onde estás agora? 

Alberto, o meu amigo músico a quem fiquei a dever uma canção, irá passar a noite ao relento, - fiquei a saber - na Rua Sá da Bandeira. 

Irá dormir aos pés da Rádio Renascença que tantos êxitos dos Tártaros mandou para o ar.

 

OS TÁRTAROS - OH ROSA ARREDONDA A SAIA) (Alberto Abreu, em primeiro plano, à direita)

Jaime Froufe Andrade

 

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