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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

DUAS DE LETRA | Lourdes dos Anjos | Nasci e cresci em duas fabulosas IPSS'S.

Lourdes dos Anjos

Na primeira, a que abrigou o meu berço, tive direito a lençóis de neblina bordados  pelas mãos da Emilinha Viúva, que vivia na ilha do Esgazeado .Nesta instituição de solidariedade , a casa dos meus pais,  havia sempre lugar para quem quisesse trabalhar e respeitar  os outros, sem perguntar o que fez ontem, mas querendo saber o que queria do dia de hoje e dos seguintes, onde se exigia respeito e se criavam os valores morais que me foram acompanhado  pela vida fora ;onde se respirava liberdade sem libertinagem e a palavra patrões tinha um  significado quase fraterno. 

Na casa onde nasci, conheci, sem nunca fazer perguntas, apenas alinhavando palavras e lágrimas e  ficando com dúvidas que a vida depois se foi encarregando de apagar, dizia eu que conheci na casa onde nasci, mulheres matriculadas, mães viúvas sem pão para dar aos filhos, moçoilas enganadas pelos magalas seus namorados antes da partida para o ultramar, senhoras que viviam por conta de doutores ou industriais importantes e as quais eram o espelho do desafogo financeiro dos seus "amos", esposas viúvas de homens vivos que as trocaram por mulatas  dos Brasis, e muitas mulheres que para levarem o filho ao "senhor doutor médico" empenhavam a aliança, a cabeça da máquina de costura, o rádio  ou o relógio de bolso  do marido.
 Sempre me ensinaram a viver com as diferenças e nunca me sentir mais ou melhor nesta roda onde girámos fazendo a vida.
Vi muitas vezes a minha mãe comer uma cabeça de carapau e dar a uma empregada um bife grelhado com batata cozida porque a doença por ali se passeava e ela queria que fosse assim.
Sempre que as minhas roupas ou as dos  meus sobrinhos deixavam de servir, iam, pela tardinha, quase escondidas, parar a algumas casas das ilhas do Bonfim onde quatro filhos dormiam numa cama ... dois para os pés e dois para a cabeceira ;mais duas raparigas que partilhavam  um divã desengonçado e estreito separado por uma cortina de "cretone" da cama do casal.
Aprendi , a olhar os carros elétricos cheios de operários pendurados nas portas para fugir ao pagamento dos 12 tostões do bilhete e percebi bem cedo que ali,dentro  daquela casa cheia dos silêncios e do amor dos meus pais, havia um muro que se saltava e dava fuga para o bairro Higiénico ou para o Canto do Rio, em Fernão de Magalhães, sempre que a PIDE aparecia fora de horas para levar alguém para o "hotel" da rua do Heroísmo. Não se diziam nomes nem razões, apenas se dava força aos homens do "reviralho" que desafiavam os poderes religioso ou político 
Foi a primeira IPSS que conheci .Foi o meu berço, o meu acordar, o abraço  firme da Nobre Gente da minha cidade.
 Lá dei os primeiros passos e aprendi a correr para uma outra IPSS, mais distante, no lugar do SENHOR DO TERÇO, em Salreu, a casa dos meus avós, do MANUEL LOBO onde os marinhões que vendiam lenha e pinhas, ou o  mendigo  João da Nanaita recebiam sempre um naco de broa e um pedacito de carne gorda  para a merenda.Onde  o carteiro, o  Alberto Antão o "CALDO QUENTE " que carinhosamente me chamava cachopa tripeira , bebia uma malga de água fresca   com uma colherada de açúcar amarelo  em tardes escaldantes   de verão.Onde as filhas do ZÉ DA SERRANA e a MARIA PEQUENA gostavam de beber o café de mistura feito numa cafeteira brilhante como prata, divorciada das brasas da lareira e apaixonada pelo senhor fogareiro a gás, enquanto ouviam,  "SIMPLESMENTE MARIA", um  rádio teatro que parava o nosso mundo de então.E  até quando o MANEL "QUERES CARNE" andava fugido da vergasta da mãe, a TI CELESTE PEQUENA, também havia para ele abrigo e mesa. Não esquecendo  também o padre ANTÓNIO FERRUGEM que aí procurava o sorriso e o abraço da minha avó ou o baralho das cartas do meu avó para jogarem à bisca dosnove  ou ao burro
 Duas casas, duas instituições de solidariedade e paz onde me fui fazendo gente  umas vezes rindo e muitas outras chorando ...mas sempre  com o sonho de conseguir ser Livre e Feliz em tempos de servidão 
Por isso gosto de vos contar coisas que vivi com as "dirigentes" dessas casas  com as portas abertas para o mundo .
 Duas ADELAIDES (mãe e filha), duas mulheres que, para mim, são imortais.
Da minha avó guardo o cheiro do cabelo, a cor dos olhos, os carinhos de uma mão áspera e doce, as palavras que me respondiam a cada pergunta que só a ela podia fazer e... ficavam entre nós , porque eram segredo só das duas.
Da minha mãe guardo,  o olhar atento, a palavra muitas vezes azeda, a voz de comando , a lucidez duma mulher que desenhou caminhos e cruzou lugares de  quase guerra para continuar a  ser o orgulho dos netos que tanto amou . 
Nos seus últimos anos de vida já não tinha a porta aberta para  quem  tinha menos que ela porque  já temia a noite e não sabia  se nasceria para ela   um novo dia mas  dizia que gostava  de estar cá  porque há muitos anos tinha feito  com o meu pai um pacto de fidelidade e amor que tinha  a certeza nunca se quebraria e portanto sabia que ele continuava  a esperá-la numa qualquer porta de uma outra vida qualquer...
 Duas casas.Duas Instituições Públicas de Solidariedade Social, que não sendo saudosista, são a minha enorme saudade.
Era na casa, na rua, com os vizinhos, com os catraios da outra rua que os novos cresciam e era com as mesmas pessoas que os velhos chegavam ao fim da linha de vida.SOCIALMENTE.SOLIDARIAMENTE.  
Na  minha casa, na casa  que me abriga  tento adormecer com paz na alma e a certeza que TODOS somos capazes de melhorar o mundo  sempre que  o nosso lar for ninho , os nossos passos seguirem pelos caminhos da fraternidade e as nossas palavras forem pedras que constroem novos caminhos para um país livre , verdadeiramente livre. 
E ainda  gosto de mim e gosto de ser este EU apesar de me desencantar este tempo badalhoco que me sufoca  e contra o qual já não tenho forças para lutar
 Os banqueiros  construiram com os políticos do mundo , enormes,moderníssimas e fraudulentas" IPSS'S" sem alicerces humanitários e sem  moral, onde se partilham os valores financeiros feitos com os dinheirinhos de quem trabalha e depois se aplicam em paraísos onde os imperadores adormecem á sombra das bananeiras, rodeados de meninos e meninas que os vão entretendo como faziam os anões das cortes do rei sol .
Como mudou o mundo entre o tempo em que poucos sabiam o significado de democracia ou solidariedade e nem sequer sabíamos escrever INSTITUIÇÃO ou CONSTITUIÇÃO porque eram palavras com  muitas sílabas... 
 Restam -nos IMPÉRIOS PORCOS  E SELVAGENS   construídos com os nossos silêncios e alguns votos onde os ditadores sem rosto, sem escrúpulos e sem nacionalidade retalham os braços daqueles que sonharam por inteiro, a LIBERDADE.
Talvez os mais jovens acordem numa madrugada dum mês qualquer e sejam capazes de semear por aí as rosas perfumadas que uma rainha escondeu no seu manto  onde havia o sonho de pão e paz para os PORTUGUESES.
Lourdes dos Anjos