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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

DUAS DE LETRA | Lourdes dos Anjos | MEMÓRIA TRISTE DUMA VÉSPERA DE S.JOÃO.

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Completam-se hoje , exatamente 53 anos ...como o tempo correu tão ligeiro!
Tinha apenas 18 anos e era mesmo uma menina mimalha, uma cachopa tripeira...
Ao meio dia, a minha avó partia deixando-me sem colo e sem abraços, sem chão seguro e sem alegria para eu escrever sonho e esperança...era VÉSPERA DE S.JOÃO.
Naquele dia fui a rapariga mais pobre do meu mundo.
Nesse mesmo dia,pelas 15h, na escola do Magistério Primário do Porto, fazia o meu exame de estado.
De luto, mas de pé... perante um senhor inspetor vindo de Lisboa que me disse que eu era uma aluna bem "colocada" para ser uma excelente professora mas...estava tão desorientada que mais parecia uma viúva alegre.
AI O GAJO!...O QUÊ!?...Soltaram-se as lágrimas e a raiva mais uma frase assim parecida:"LÁ FORA, O SENHOR NÃO FAZIA POUCO DE MIM"
Falei-lhe grosso, respondi-lhe torto e o meu exame foi cancelado...era o ano de 1968.
O meu pai resolveu tudo com o diretor da escola (dr. Eleutério Correia de Melo) Mas era preciso que eu cumprisse uma ordem e eu não cumpri
RECUSEI-ME A CUMPRIR a exigência do senhor inspetor lisboeta de lhe pedir desculpa do meu atrevido desabafo ...publicamente
A minha nota desceu , aos trambolhões de 16 para 13, esteve em risco o meu futuro de Ser Professora mas nesse dia senti um abraço tão forte do meu pai que percebi que estava cheio de orgulho da sua catraia atrevida e me dava razão sem dizer uma única palavra.
Acho que nem pensei na minha mãe nem nas palavras azedas que ela me poderia dizer.Paciência...A vida ia continuar para o mar ou para a serra ...
Restava-me esperar que as coisas se compusessem e os "doutores do templo" se entendessem...
O meu mau feitio já nessa altura fazia estragos apesar dos meus curtos 18 anos...
Passadas mais de cinco décadas,escrevo esta memória e desabafo mas deixo mais umas "coisitas" por contar.Ficam para outra ocasião.
Hoje, em véspera de S.JOÃO vou levar umas flores á última morada dos meus pais e dos meus avós e mando dois beijos cheios de saudade para o meu avô e para a minha mãe.
Para o meu PAI e para a minha doce AVÓ vai aquele abraço apertadinho igual aos que recebo dos meus netos ...
Um dia destes, sem medos nem sustos, quero ver-vos. Á MINHA ESPERA...num apeadeiro qualquer do outro lado do mundo.
PODE SER?AMO-VOS TANTO...MEUS ANJOS!
MEMÓRIA -lourdes dos anjos
Como quando era menina
Penteia-me, devagarinho, com a tua mão
Para eu adormecer, ensina-me uma oração
Fala-me de gente com feitiço que corria fado
Dos tempos frios e difíceis do teu passado
Dos filhos que carregaste no regaço
Do caminho percorrido passo a passo
Do pão azedo que o diabo amassou
E das lágrimas que o teu rosto enrugado secou
Enquanto falas, espreito para dentro dos teus olhos clarinhos
E, desfaço-te a longa trança de cabelos branquinhos
Dizes então, só para me experimentar,
Que não queres que te volte a abraçar
Porque cheiras a velhice e a bafio !...
E eu beijo-te muito enquanto tu ris e eu rio
Então, chamas-me baixinho, à tua maneira,
Cachopa mimalha, netinha tripeira.
Ai como sabe bem recordar,
A tua voz, o teu sorriso, o teu olhar...
Tão curto foi o meu tempo de criança,
Tão cedo carreguei a pesada herança
Da saudade que a minha avó me deixou...
O meu tempo d'envelhecer chegou veloz
E, nos lábios dos meus netos,
oiço agora a minha própria voz
 
Lourdes dos Anjos