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baiaocanal

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XII Colóquio do Porto – Psicanálise e Cultura O Estranho: Aquém e Além do Desassossego 27 de Maio – 28 de Maio

                                                     ESTRANHOS DESASSOSSEGOS

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ESTRANHOS DESASSOSSEGOS
Na pobreza ideativa e na fragilidade que os subsola, os Sapiens sempre
pensaram que as angústias do “Estranho” e os incómodos do “Desassossego”
fariam parte de si. Pensavam até, nas suas mais nobilitantes venturas e
desventuras, que seria em derredor de tais desditas que as suas mais diligentes
capacidades circulavam, no alcance de as redimir e no prazer de as fluir.
Periféricos e obscuros, desacertados jaziam!
Hoje, todos os oráculos do cérebro e das omnipotências cerebrais, todos os
profetas da inteligência artificial, da indústria farmacêutica e da subjectividade
normalizada, prometem abolir essas inúteis futilidades.
Enquanto tão magníficas sentenças não transitam em julgado, na consciência
do Outro e na tentativa de compreensão dos seus encontros e desencontros, a
Psicanálise e a Cultura teimam em desembaciar-lhes criatividades e destinos.
(Desassossego é nome do mais extraordinário Livro que algum dia alguém escreveu
em língua portuguesa.
Inesgotável fonte para quem pensa, exemplar desmedido de quem singularmente se
projecta, são as nossas próprias estranhezas e os nossos próprios desassossegos que
nas suas páginas se prolongam, num conjunto tão intenso, tão íntimo e tão
desordenado, que o sentimos como fazendo parte de nós.
Dificilmente alguém resiste à tentação de emendar-lhe os erros, reparar vírgulas,
corrigir ortografias, limpar imprecisões, terminar inacabados, como se
verdadeiramente participasse naquele insólito filme ou como se inequivocamente se
identificasse ao seu incrível guião.
Escrito ninguém sabe por quem (produto da Humanidade?), dizem-no partejado por
um anónimo de apelido Soares (Bernardo para os amigos da tasca da esquina) da rua
dos Fanqueiros em Lisboa (não seria na Cantareira?) e que teria sido cumprido aos
bocadinhos e paulatinamente lançado no fundo de um poço chamado baú, na atitude
de quem os seus estranhos desassossegos compensa e recompensa.
Mas o seu enigma persiste, digno das lendas das Bocas do Inferno (não será dos
rochedos da Seca do Bacalhau?), alegando-se até que teria sido garatujado muito
antes de haver escrita por um extraterrestre das circulares de Saturno, que em
memória das nocturnas libações na Terra usufruídas, nos disponibilizou o fabuloso
encanto do seu olhar e o inimitável sabor do seu discorrer…
sem outras preocupações, argamassas ou valimentos.)
Na XII Edição dos Colóquios do Porto, em 27 e 28 de Maio de 2022, celebraremos
os estranhos desassossegos que tanto nos elevam na poesia, na música, na
dança, no cinema, nas Artes, no reconhecimento de que:
só por eles amadurecemos e coexistimos
só por eles nos despedimos das mecânicas opacidades
só por eles nos testemunhamos e livres recomeçamos.
Jaime Milheiro
(Presidente Honorário do Colóquio)

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