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baiaocanal

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Natércia Teixeira | Esta é uma história...

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Esta é uma história que não se perdeu na bruma do tempo.
Remonta a uma infância distante de lembranças presentes.
Pese embora nada conter de especial, encerra em si uma
singularidade que lhe permitiu percorrer os caminhos da memória e
chegar até hoje.
Sabem, os que viveram a infância e juventude antes da época do
desperdício, que o trivial de hoje era exceção naqueles tempos,
pelo que chegar-nos a casa uma caixa de sortido fino da
famosíssima Casa Paupério, era um acontecimento.
No que me toca, não tanto pelo gabarito da marca que na altura
nada me dizia, mas pela gula que me despertava a caixa verde, que
suspeitava encerrar raras guloseimas.
A oferta fora feita ao meu pai…um agrado de uma amizade antiga e
estando na família era motivação mais que suficiente para eu
empreender uma operação de charme no sentido de o convencer a
deixar-me abrir a cobiçosa caixa.
Aqueles eram tempos em que o NÃO de um adulto, não carecia de
justificações e a caixa foi fazer companhia às chávenas de chá, a
aguardar, provavelmente, uma qualquer visita especial para ser
aberta.
Passei o dia a mira-la através dos vidros bisotados…a minha
inocência de criança não permitia assimilar aquela mania dos
adultos de guardarem tudo para ocasiões especiais, quando eu
teimava em trazer calçados da loja os sapatos acabados de
comprar, nos dias de festa em que tal sucedia.
A minha mãe, mais tolerante, lá permitia a extravagância…já o meu
pai não apreciava a impetuosidade e vaticinava-lhe motivo de
agruras várias.
Naquela altura da minha vida nada sabia sobre profecias, mas
sabia argumentar com o coração da minha mãe.

Quando ela chegou a casa, entre promessas de apenas querer ver
o conteúdo da caixa e o compromisso de não lhe mexer sem
autorização, lá a convenci a tira-la do louceiro.
A minha mãe, muito mais atenta aos pormenores que o meu pai,
exprimiu de pronto a estranheza pela caixa não estar selada.
Eu, como que hipnotizada, seguia-lhe os movimentos em
expectativa.
A tampa foi cuidadosamente levantada pela mão da minha mãe e a
minha imaginação sentia no ar o sabor das bolachas de
chocolate…até que, com o conteúdo à vista, os meus olhos
arregalaram-se de espanto e a minha mãe explodiu numa
gargalhada incrédula.
Fiquei muda…sem tecer considerações, a minha mãe dirigiu-se
com a caixa para a cozinha, local onde se encontrava o meu pai e
depositou-a na mesa à frente dele.
Ele mostrou-se igualmente surpreendido e concluiu de pronto ter de
ir telefonar ao amigo, gesto nada corriqueiro naqueles tempos e
revelador da deferência que o conteúdo da caixa lhe mereceu.
A minha mãe, meio a sério, meio a brincar, disse:
- Agradece ao teu amigo e à tua filha a teimosia, ou ainda iriamos
ter aqui um problema com ratos!
Naqueles tempos, comida desacautelada em casas de campo,
poderia dar azo a complicações.
Eu continuava muda…muda e desiludida.
A minha mãe, sabedora da esquisitice que me era apanágio, meteu-
se comigo:
-E tu, já que tanto teimaste para abrir a caixa, podes começar a
comer!
Revirei os olhos e só não disparei um “Não gosto disso!” por receio
do meu pai, que não tolerava o meu “nariz de catixa”, como
carinhosamente a minha avó me apelidava e seria muito senhor
para me fazer provar naquele preciso instante uns bocados de
leitão, de peru fumado e outros acepipes cuidadosamente
acomodados na caixa; coisas que para mim não passavam de

porcarias, pese embora à época, nunca tivesse provado nada
daquilo.
De gula desconsolada, deixei os meus pais a apreciarem as
iguarias e saí de fininho… de mãos vazias e mente repleta de
ideias, que com o passar dos anos, amadureceram e acabaram por
me conduzir a grandes epifanias…sobre caixas!
A saber-se:
A aparência da caixa não define o seu conteúdo;
Caixas apelativas podem tornar-se em grandes desilusões;
Há aquelas que não valem o esforço que se empreende para as
abrir e outras que valem a audácia de se lhes provar o conteúdo.
Caixas à parte, razão tinha a minha mãe, essa sim uma mulher
iluminada:
-Importante mesmo é evitarem-se os ratos!
E em bom rigor…as pragas! Aponho eu.

Natércia Teixeira