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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 19 - Novembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 19 - Novembro 2021

DUAS DE LETRA | Lourdes dos Anjos

Lourdes dos Anjos

 

SER PROFESSORA

Escrito numa madrugada de lágrimas,depois duma noite sem sono com uma
carta presa nas mãos e uma dor imensa na alma  ...
Antigamente, talvez há mais de duzentos anos, quando a minha carreira
ainda ia a meio, os alunos não tinham apoios psicológicos nem
pré-primária nem pais que os soubessem ensinar a fazer os trabalhos de
casa. Quando tinham dificuldades de aprendizagem, havia a palmatória,
as proibições de ir ao recreio, as palavras difíceis vinte vezes cada
uma e ainda os sermões paternais que ajudavam a missa docente.
Era assim tudo muito indecente naquele tempo de há quase dois séculos atrás…
Os filhos não eram principes nem princesas e os pais eram gente que
AMAVA mas sem saber conjugar  todas as formas desse verbo.
Quando a canalha não ia, nem assim nem de outra maneira, andava na
escola até aos 16 anos e depois ia para a costura, ia servir, para
qualquer profissão de segunda classe como aprendiz e, pronto, o futuro
era apenas só presente e triste. Neste rosário de “padres nossos”
fiquei com muitos amigos que hoje quase são da minha idade e me
ensinaram muitos segredos da pesca do sável, da matança da lampreia,
do jogo do pião, da forma de ajudar o parto das porcas e das ovelhas e
também como se faziam os temperos dos chouriços e a receitas de muitos
bolos tradicionais que os mais pobres inventavam de forma maravilhosa.
Uma dessas meninas, que deve ter hoje cerca de 50 anos, saiu da escola
com 15 anos bem avantajados, mal escrevia o seu nome mas fazia contas
de cabeça quase tão rapidamente como eu.
Para ganhar “alguma coisita” foi vender fruta pelas portas com a mãe,
e zangava-se muito sempre que a velha raposa enganava as freguesas com
o peso ou a qualidade das laranjas ou das maçãs. Também não percebia
porque raio a mãe teimava em vender muito artigo a quem pagava aos
soluços, ainda que lhe explicassem que se iam metendo pelo meio das
parcelas umas “croas” que davam para os juros da divida.
Não concordava, zangava-se, dizia uns quantos palavrões, vinha até
junto da sua professora pedir conselho e lá continuava a carregar a
sua cruz até ao calvário acompanhando a sua  velha mãe.
Dizia-me que gostava de ser “senhora sua“, ter um andar pequenino numa
rua onde ninguém a conhecesse, longe de todos os pobres como ela e
pronto…ser gente.
Muitas vezes a contrariei e muitas outras a ajudei a sonhar.
Um dia largou a giga da fruta e foi para a feira. Depois arranjou um
companheiro e fez um filho; depois ficou só com esse filho para criar.
Depois , se calhar proibiram-na de sonhar e depois…
Um dia encontrei-a numa esquina duvidosa de uma rua ruinosa da cidade.
 Fui ter com ela dei-lhe um abraço grande e ouvi, sem nada perguntar,
a minha menina dizer que estava ali porque esperava uma cunhada que
trabalhava num armazém das redondezas.
Fiz de conta que era verdade.
Fiz de conta que não percebi.
Fiz de conta que acreditei.
Dei-lhe outro abraço agora mais forte e não fui capaz de segurar umas
lágrimas atrevidas e azedas que se escaparam da cela dos meus olhos.
Muitos dias depois, na minha caixa do correio, tinha uma carta cheia
de erros, muitos erros, com letra de imprensa (a única que aprendera a
fazer e mal feita) dizendo que não perdoava o pecado de me ter feito
chorar e lhe tinha custado muito ver aquelas lágrimas enchendo o rosto
da professora que tanto admirava. A vida sempre lhe tinha dificultado
a tarefa de aprender a ler e a escrever na escola mas, muito
rapidamente, na rua, tinha - lhe ensinado como se acrescentava ao seu
nome, a azeda palavra “Puta!”.
E a sua professora nem teve vergonha de a abraçar ali naquela rua...
Hoje, não sei por onde anda, nada mais consegui saber dos seus
pesadelos e das suas raivas, mas tenho a certeza que vou levar comigo
o rosto da menina que queria ser mulher séria e caminhar por caminhos
largos e sem sombras, de mão dada com a alegria, sem cheiros de ervas
ruins nem sombras de vampiros.
Se calhar abril continua a ser um tempo de tempestade e eu também tenho culpa.
Hoje ainda me interrogo :"QUEM FALHOU, A MULHER OU A PROFESSORA?"
Talvez as duas e... quase vinte anos depois...  ainda não sou capaz de
passar naquela esquina da rua Barão de S. Cosme sem recordar a minha
aluna que queria apenas SER SENHORA SUA E TER UMA CASINHA NUMA RUA
ONDE NINGUÉM A CONHECESSE...

Lourdes Dos Anjos