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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 16 - Setembro 2021

PROVA DE VIDA | Arnaldo Trindade | com video

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FADO DE UM RIO

Rio fogoso de Nascente vindo

fraga abaixo borbulhando fantasia

lindo destino turbilhão presente

como se não houvesse outro dia

saindo rio de seu leito

ciúme ,eterno parceiro do fado

em terra alheia ao seu jeito

companheiro do amor acabado

calmo deslizando já saciado

a duas cidades aportado

pelas pontes abraçadas

na Afurada há aves d´arribação

que só para o ano voltarão

rio d´ouro corre ... para com mar se casar

Arnaldo Trindade

"Nasci em terra de poetas"

 

OBLIQUIDADES | Jaime Milheiro

Jaime Milheiro psicanalista

No mundo das ideias repetir é  calar. É expelir ecos sem som,  gemer   carretos sem canga, dissertar  textos sem dono.

Só pensando se existe.

Fui eterno até aos 60.

Quando percebi que morreria, dei por mim a escrever:

…. a  deixar no papel as minhas próprias ideias e conteúdos, desembrulhados nas noites brancas de insónia, racionalizados na manhã seguinte, elaborados à minha maneira…

…. reformulando quanto havia conhecido e recebido

… como quem  renasce, revive e recomeça

… numa  espécie de necessidade de renovar para  sentir e de reescrever para  continuar.

                                               (Na eternidade ninguém sabe ler nem escrever

                                               Só escreve quem sabe que vai  morrer

                                               Escrever artigos científicos não é escrever… )

Nessa escrita  fui tomando consciência do meu próprio sentimento de percurso e percebi melhor a minha própria relação entre passado e  futuro, embora também me tenha apercebido de misteriosas lacunas de observação e de marés de desproporção, sempre que procedia como se o presente não existisse e a história não tivesse acontecido.

Analisando tal atitude, pouco consciente, apercebi-me deste estranho paradoxo: recriando sentia-me mais jovem do que realmente era, remodelando supunha-me num mundo onde o tempo não decorreria, mas situava-me em rotundas sem saída. Retrocedia ao adolescente em descoberta quando desenrolava projectos trocistas e dinamismos provocatórios como se idade  não tivesse, ou caminhos afectivos e efectivos não houvesse percorrido, nem sentisse necessidade de percorrer.

Dei-me conta, afinal, daquilo que todos sabemos mas que tendencialmente omitimos quando negamos o fim: em tudo quanto fazemos, sonhamos ou inventamos, os outros participam e o alongamento continua.

Não era para mim que eu escrevia. Eu escrevia para eles, metade de nós são os outros, sem eles nem haveria história ou memória.

Agudamente percebi que, mesmo num total silêncio e num total isolamento, só  escreve quem leitores imagina: verdadeiros ou supostos, reais ou futuristas.

                                               (Só com os outros se pensa

                                               Só com os outros se existe

                                               Só com os outros se vive...)

Na vida, como no poker, ninguém joga solitário nem apenas com as cartas de mão.

Obrigatoriamente com os outros joga e com as  cartas que neles supõe.

Baião canal jornal(Arquivo)

 

JAIME MILHEIRO, psiquiatra e psicanalista, fez a sua preparação no Porto, Lisboa e Paris.

Humanizar e valorizar os factores psicossociais na Saúde/Doença foi a grande luta da sua vida profissional. Fundou o Centro de Saúde Mental de Vila Nova de Gaia num registo de Psiquiatria Comunitária. Fundou o Instituto de Psicanálise do Porto. Criou os «Colóquios do Porto: Psicanálise e Cultura». Foi Presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos. Foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Foi Presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental. Foi agraciado com: Medalha de Ouro do Ministério da Saúde, Medalha de Ouro do Município de V. N. de Gaia e Medalha de Mérito da Ordem dos Médicos.     

                                                                      

                                                                                                

 

Odete Souto | “Pérolas” de uma noite de Verão

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O mês de agosto é tempo de férias. Tempo de descanso, de recarregar baterias para um novo ano letivo que se avizinha. É tempo de dar mais tempo à família, aos amigos e a nós mesmos. De banhos de sol e de mar. De pôr a leitura em dia e de usufruir de cultura e lazer. Acreditem que fiz de tudo um pouco. Não tanto quanto gostaria e precisava, mas fiz.

E cá estou, de novo, retomando a escrita e as minhas crónicas. Desta feita para falar de um episódio ocorrido nestas férias e que nos mostra a necessidade premente de agarrarmos a educação como desígnio para a promoção de uma sociedade mais justa e onde haja lugar para todos e todas.

 Gosto de música de todos os géneros, embora não tenha formação musical, nem grande ouvido. Mas gosto, também, dos textos e dos poemas ditos e cantados. Ou não. Sou atenta à mensagem que veiculam. Gosto de bom fado e fui aos fados. E aquilo que podia ter sido uma noite descontraída deixou-me profundamente inquietada pelos motivos que passo a relatar. A determinada altura, uma fadista cantava “o amor” e, no seu versejar, ia legitimando todos os comportamentos e atitudes, mesmo a violência sobre a “amada”. Fui escutando estarrecida até que, aquela mulher, termina a sua prestação dizendo “… bate naquilo que é seu, ninguém tem nada com isso”. E foi aplaudida. Como é possível?!

E não, isto não se passou no Afeganistão, na Índia ou em qualquer outro país do mundo. Passou-se em Portugal, na cidade do Porto em agosto de 2021.

O que é que temos andado a fazer para que estejamos neste ponto de desrespeito? Onde está a igualdade de direitos? Onde estão os direitos humanos? Onde estão os direitos das mulheres? E chamam a isto amor?

Não, isto não é amor! Não, as mulheres não são propriedade de ninguém, como os homens também o não são. Parafraseando João Pedro Pais, “ninguém é de ninguém…” As mulheres são seres de direitos e têm que ser respeitadas. E têm que se fazer respeitar. Em nenhuma situação uma mulher pode aceitar qualquer forma de violência, por muito que tal seja apregoado em nome do “amor”. É um enorme equívoco que tem que ser combatido por todos os meios.

Precisamos de olhar com olhos de ver para aquilo que se está a passar na Índia, no Afeganistão… em todos os países onde as mulheres são violentadas todos os dias e veem os seus direitos serem cerceados ou mesmo retirados. Nada disto acontece por acaso.

Os direitos humanos não são dados por decreto.  São uma conquista e uma luta de todos e todas e de todos os dias. E os direitos das mulheres estão longe de ser respeitados, mesmo nos países ditos civilizados e por pessoas que se consideram muito evoluídas e progressistas. É preciso educar. Educar para a igualdade, para o respeito, para o afeto, para a partilha, para a entreajuda. É preciso resistir e insurgir-se contra este tipo de atitudes. É preciso condenar e nunca aplaudir.

No momento em que me preparo para retomar o trabalho escolar considero que, mais do que nunca, precisamos de colocar estas questões na escola e na educação. E precisamos de educação para a cidadania, mais do que nunca.

Estamos num retrocesso civilizacional e não podemos deixar que isso aconteça. Por nós e pelos vindouros.

Por fim, talvez o amor seja possível, com respeito. Muito respeito e dedicação.

 Odete Souto