Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 18 - Outubro 2021

O Inferno é canja, duro é aguentar o Paraíso | Natércia Teixeira.

natercia teixeira.jpg

Observava, com uma atenção forçada, o gelo picado dissolver-se lentamente no copo… à procura de alguma inspiração.

No palato, o gosto fresco da hortelã…entre os dentes, cristais de açúcar mascavado que ao dissolverem-se aveludavam o gosto ácido do limão e o travo amargo do rum.

Precisava escrever.

A imagem de fundo do portátil aberto em cima da mesa devolvia-me uma realidade que precisava aceitar. 

Pensei no meu amigo.

Precisava de escrever…

Mas não sobre isso…não hoje e não já.

Raios de sol, filtrados pelas folhas das tílias que cresciam frondosas junto ao rio, incidiam na mistura verde menta depositada à minha frente…a mesma cor do olhar da minha saudade.

Precisava escrever.

Olhei em redor…Agosto e a esplanada vazia, até a brisa desconfortável estava fora do contexto.

Duas mulheres surgiram no meu angulo de visão e apesar da distância considerável que ainda nos separava ouvia distintamente a voz de uma delas, o que me fazia antever o término do propósito, já que ideias nem as chegara a ter.

Aproximaram-se…uma ao comando, qual militar a dar instruções ao soldado raso, provavelmente surdo, instou a companheira a ocupar a mesa à minha frente.

- “Vamos! Senta-te aí!”

Maldisse a minha sorte…mais uma distração.

Todas as mesas desocupadas, um vírus que para além da saúde nos compromete a criatividade e aquelas duas almas não encontram melhor sítio para se instalar que “coladas” a mim, numa esplanada vazia.

Suspiro instintivamente…melhor tentar encontrar o génio noutras paragens.

Fechei o computador e continuei, indiscreta a escutar o monologo do duo:

- “Deixa lá…isto é um inferno…o tempo uma porcaria…e isto do Covid é outra…tenho uma amiga que é médica, o marido é juiz…cheios de dinheiro, os pais riquíssimos, com uma grande moradia na Foz…os filhos formados…a rapariga é engenheira, muito bem na vida…o rapaz é qualquer coisa das artes…sabes como é esse pessoal das artes…mete-se no que não deve…arranjou uma qualquer com um filho…um desgosto…não bastava o marido que se deixou levar pela sopeira… uma vergonha…de tão boas famílias…riquíssimo…com a sopeira!! a minha amiga ficou de rastos…tão boa rapariga…e bonita…um grande desgosto…agora desleixou-se…está gordíssima…somos muito amigas… 

…gosto desse vestido branco…tenho um…não, dois…já nem sei bem…um é assim parecido…da Massimo Dutti…ou Cortefiel, não me lembro…o tecido desse parece jeitozinho…foi caro?...temos de ir às compras a ver se te animas…e não te metas noutra…sempre o cão…sempre o cão…nem podias sair para lado nenhum…

…isto aqui está uma tristeza…parece a minha sala de jantar à noite…vazia…

…o meu…outro que se deixou levar.”

Pausa.

Choro.

Silencio.

Tomei folego, mais exausta do que se tivesse sido eu a debitar o discurso e olhei com empatia a mulher que até ali se mantivera em absoluto silencio.

Encontrou nas lágrimas da companheira uma deixa para o quebrar:

- “…parece-me…”

O general sem patente, não a deixou terminar…num evidente desperdício de decibéis e sem cerimónia cortou-lhe a palavra:

- “…escuta…vamos mas é embora que aqui não se aprende nada…isto até pode ser o paraíso, mas é uma pasmaceira…não se vê ninguém…tu, muda como um rato por causa do cão…não te metas noutra…arranja mas é um namorado rico!”

Fiquei a observa-las afastarem-se.

Abri novamente o computador que me devolveu a imagem do meu cão.

Precisava escrever.

Precisava escrever sobre ele, mas não agora.

Hoje, escrevo sobre todos os seres maravilhosos capazes de falar sem proferir uma palavra;

Capazes de escutar em absoluto silencio.

Aqueles, que têm a grandeza e generosidade de oferecer pérolas mesmo a porcos.

Com eles, o inferno é canja, duro é com os outros, aguentar o paraíso.

 
Natércia Teixeira

Histórias avulso : Froufe, o almocreve | Jaime Froufe Andrade

jaime_froufe_andrade.jpg

(A pandemia pôs-nos à espera do futuro. Parados pelo vírus, talvez seja tempo para percebermos o que deixámos para trás. É essa a proposta de Histórias avulso)

 

Froufe, o almocreve.

António Froufe, meu avô materno, era almocreve em Trás-os-Montes. Passava os dias por caminhos e atalhos, subindo e descendo serras e montes, acompanhado por dois machos ajoujados de flanelas, serrubeco, mantas, fazendas, nastros e elásticos, botões, agulhas, dedais... 

De povoado em povoado, sempre atrás dos machos e na companhia do Segredo, um cão do tamanho de uma vitela, percorria a pé grandes distâncias. Quando regressava ao Seixo de Ansiães, a sua aldeia, dava ordem ao Segredo para estugar o passo e assim chegar primeiro a casa. Era esse o sinal de que a sua Margarida, a minha avó, necessitava para meter batatas na panela, couves e um rabo de bacalhau, a refeição preferida do tendeiro, pois também assim chamavam à sua profissão. Ele só se sentava à mesa  para cear depois de ter tratado do passadio dos seus companheiros de longas jornadas, os machos e o Segredo.

Uma vez, ao chegar ao Seixo de Ansiães, deu com o padre Amável à janela, a tomar o fresco. Nesse tempo, por ali não havia telefone nem rádio e o jornal só chegava uma vez por mês. As notícias do que ia acontecendo na região era o António Froufe quem as trazia. 

Diz-lhe o padre: Viva, senhor Froufe. Então que novidades nos traz? Para o almocreve essa era a pergunta ideal… não deixou fugir a oportunidade.  Olhe, Senhor padre Amável, vi em Coleja uma coisa... olhe, nunca vi nada igual… juro... 

O tendeiro, grande contador de histórias, sabia aguçar a curiosidade do ouvinte. E continuou: Vi uma couve tão grande, tão grande, tão grande, que de certeza chegava aí à sua janela... Vendo bem, a couve é da altura da sua casa, a passar...

O padre Amável não comentou. Não acredita senhor padre? inquieta-se o meu avô, receoso de ter ido longe demais. Se o senhor Froufe o diz..., respondeu evasivo o padre Amável. 

A seguir disse-lhe: Pois olhe, eu tive de ir às Celores dar uma extrema-unção e sabe o que vi lá, senhor Froufe? Uma dúzia de ferreiros, no adro da igreja, a fazerem um pote de ferro tão alto, tão alto, tão alto, que chegava bem à altura dos sinos da nossa igreja, a passar...

O meu avô almocreve percebeu em que é que estava metido. Remeteu-se ao silêncio. Então o padre Amável, implacável, rematou: Irá servir, certamente, para cozer a couve que o senhor Froufe viu em Coleja…

Jaime Froufe Andrade, Jornalista

NO MEU PEITO | Lourdes Dos Anjos

Lourdes dos Anjos

No meu peito , cansado,
dormem os sabores dos sonhos
os desejos partilhados
os segredos guardados.
as palavras que ficaram por dizer
e a dúvida do querer e não querer


NO MEU PEITO
vive um coração em chamas
e uma cidade invicta
feita de granito e neblina
que me corre nas veias .
Ainda moram, no meu peito
uma vontade e um jeito
de ser nascente e foz
de erguer o punho e a voz
tentando construir um povo diferente
capaz de caminhar solidáriamente
entre outros pés ensanguentados


NO MEU PEITO
ainda há palavras que ficaram por dizer
há uma alma onde ainda mora a paz
ainda há medo do querer e não querer
há lágrimas com que sempre escrevo Verdade
ainda há um caminho para desbravar...
sempre, sempre, sempre em nome da Liberdade.


Lourdes dos Anjos, 2021

As Olimpíadas e a Saúde Mental

RIta Diogo é psicóloga e escreve regularmente no Baião Canal.

Rita Diogo_1.jpg

 

Começo esta crónica por referir que não sou psicóloga do desporto, sou sim, uma apreciadora dos Jogos Olímpicos por tudo aquilo que representam em termos de superação, resiliência e competitividade. Portugal trouxe de Tóquio quatro medalhas, 15 diplomas e 35 classificações até ao 16.º lugar. Foram 92 os atletas portugueses que estiveram em competição.

Tivemos a oportunidade de seguir os Jogos Olímpicos de Tóquio, entre 23 de julho e 8 de agosto. Estes jogos foram obviamente condicionados pela pandemia. Mas, não foi apenas por isto que  tivemos umas Olimpíadas diferentes.

Nestes 17 dias de Jogos Olímpicos, a saúde mental gerou uma ampla discussão. De facto, ser “mais forte” vai muito além da força física. Simone Biles surpreendeu o mundo ao abrir mão de competir em algumas modalidades da ginástica artística, priorizando a sua saúde mental.

Se, do ponto de vista da sociedade se aposta tão pouco na psicoeducação, na prevenção e na deteção precoce de possíveis indicadores de perturbação de saúde mental, este fenómeno agiganta-se no contexto desportivo. Seja por razões de preconceito, por atribuição de uma suposta fragilidade, ou por falta de informação ou conhecimento científico, a realidade é que, a tendência para separarmos a saúde física da saúde mental, em nada ajuda aos processos de  reconhecimento da sua importância e da compreensão da sua interligação com a dimensão física. Para qualquer pessoa que não possua conhecimento em termos de literacia em saúde mental, existe uma grande dificuldade em identificar uma lesão emocional, tal como se observa uma lesão física quando se vê uma escoriação ou uma perna partida. Tudo isto dificulta a capacidade em diagnosticar atempadamente perturbações ou sintomas de disfunção psicoemocional e de saúde mental.

As questões relacionadas com a saúde mental encontram-se, demasiadas vezes, mal diagnosticadas o que conduz, inevitavelmente, a uma má gestão das mesmas. Daqui resulta frequentemente que, quando o atleta é atendido pelo especialista em saúde mental, o seu quadro clínico pode revelar já um prognóstico mais complexo e de demorada resolução.

O testemunho de Simone Biles colocou a discussão sobre a saúde mental dos atletas no centro das atenções. Ela é o resultado de uma cultura onde os atletas são encarados como verdadeiros “super-heróis”, onde a robustez e perícias físicas são confundidas com robustez e saúde mental. É fundamental normalizar o recurso à psicologia como forma de optimizar o desempenho desportivo, como área de treino que efetivamente é. A importância da psicologia nos processos de treino desportivo advém de potenciar a resiliência e a capacidade de lidar com fatores de stress acrescido, por exemplo, mas também como forma de elevar os indicadores de performance. Urge repensar o processo desportivo no que respeita à integração precoce de profissionais especialistas na área da saúde mental. É imperioso, desde tenra idade, não só trabalhar na psicoeducação para quebrar o estigma, como na dotação de competências de resiliência dos atletas e também na capacidade de deteção precoce de sinais de desajustamentos de saúde mental. Evidencia-se também a necessidade dos atletas, e das equipas que os assistem, desenvolverem desde a sua formação, as competências necessárias para lidar de forma eficiente com contextos de pressão.

A investigação científica produzida na área vem, desde há alguns anos, a demonstrar que esta visão compartimentada do ser humano, físico vs. mental, pode resultar, no contexto desportivo, num aumento de risco de lesões, num atraso no processo de recuperação da lesão e num comprometimento sério na sua capacidade de desempenho. Da mesma forma, uma performance desportiva abaixo do esperado pode despoletar o risco agravado de sintomatologia e perturbações na área da saúde mental, tais como os fenómenos de natureza ansiogénica e depressiva.

 
Consulta psicológica de crianças, jovens e adultos. Orientação vocacional. Seleção e recrutamento. Avaliação psicológica de condutores (grupo 2)