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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

BAIÃO CANAL | Jornal N.º 12 - Julho 2021

Medidas e ações especiais de prevenção contra incêndios florestais.

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Estão em vigor as medidas e ações especiais de prevenção contra incêndios florestais.

Relembramos que é proibido:
- Fazer queimas de matos e sobrantes florestais cortados e amontoados;
- Fazer queimadas fitossanitárias sem licença da Câmara Municipal;
- Fazer lume ou fogueiras para refeições ou aquecimento, exceto nos locais expressamente previstos para o efeito em parques de lazer, de recreio e em habitação própria;
- O lançamento de balões com mecha acesa ou foguetes;
- O uso de fogo-de-artifício sem autorização do local pela Câmara Municipal;
- Fumigar ou desinfestar apiários, exceto se os fumigadores estiverem equipados com dispositivos de retenção de faúlhas;
- Fumar ou fazer qualquer tipo de lume nos espaços florestais;
- Fazer circular tratores, máquinas e veículos de transporte pesados que não possuam extintor, sistema de retenção de faúlhas ou faíscas e tapa chamas nos tubos de escape ou chaminés;
- Circular nos espaços florestais quando é emitida Declaração de Alerta para Risco de Incêndio Florestal.
Proteja a floresta dos incêndios. Cumpra as normas de segurança!

Jaime Froufe Andrade | Histórias avulso

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O velho da samarra

 

Em tarde de canícula, aconteceu-me, anos atrás, entrar no metro, na estação da Trindade, no Porto. Comigo, entrou um idoso. Homem mal ajambrado, com botifarras de outros tempos, grossa samarra e gorro enfiado na cabeça.

 

Já na carruagem, põe-se a olhar à volta, a conferir os passageiros, um a um. Uma trabalheira para os seus olhos sumidos. Acaba por se sentar num banco junto à porta. Viaja entre jovens despreocupados, turistas curiosos, gente de telemóvel na mão. Este universo avançado, tecnológico, de pegada digital, não é o seu. 

 

(Se Fialho de Almeida tivesse tido a hipótese de ver o velho da samarra, tê-lo-ia metido numa crónica. O autor de Os gatos não resistiria a esta apara humana de olhos sumidos e cerdas de animal bravio a sairem-lhe pelas orelhas.)

 

Como sou da idade do velho da samarra, farejo afinidades em torno da sua humílima figura. Aposto que ele andou também pelos quintos do Ultramar. Tal como eu, deve ter a cabeça povoada de mortos e aflitos. 

 

Aqui estamos agora, um diante do outro, depois de perigos e guerras esforçados. Mas ele mantém-se em guarda, como se o inimigo ainda pudesse aparecer. E, de facto, o inimigo aparece, surge na carruagem disfarçado de fiscal do metro. Latagão de ar determinado, logo inicia a conferência dos andantes dos passageiros. Um código de barras tatuado no pescoço inscreve-o nos dias de hoje. 

 

Entretanto, o metro vai perdendo velocidade até se deter. Abre-se a porta da carruagem. Com inesperado desembaraço, levanta-se o velho da samarra. Rapidamente se põe a mexer, porta fora. À passagem deixa recado: Dass… já não se pode andar nesta merda…

 

PS - Hoje, mais de meio século depois do início da guerra colonial, começam a chegar a casa daqueles que nela participaram o Cartão de Antigo Combatente, Título de Reconhecimento da Nação, conforme nele se pode ler. No verso do cartão vem exarada a Gratuitidade do passe intermodal dos transportes públicos das áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais, regalia que, à data de hoje, ainda não está em vigor. Os velhos deste País de samarra e olhos sumidos vão ter de continuar atentos ao inimigo.

Jaime Froufe Andrade

OS PEQUENOS TAMBÉM SÃO GRANDES | Aníbal Styliano

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Preservar heranças

 

  1. Comecemos pela final do Euro-2020, cuja final colocou frente a frente a Itália e a Inglaterra. O que esteve em disputa não era só um título mas também os valores da humanidade. Além do jogo, surgiram exemplos de violência, de racismo, de intolerância, revelando uma face verdadeira de um dos maiores flagelos deste tempo. Muitos adeptos ingleses revelarammuitas dificuldades em aceitar a tolerância e continuam a manter ódios desprezíveis. Entre muitos casos, o avançado Rashford, um exemplo de solidariedade para as crianças com dificuldades económicas, «aceitou as críticas ao desempenho, mas nunca ao seu caráter». O selecionador inglês, após não conseguir o título nas grandes penalidades, deixou umaimagem de grande dignidade ao assumir totalmente a derrota e ao condenar o racismo com frontalidade: Southgate deu lição para nunca ser esquecida!

 

  1. Vencer o esquecimento é tarefa que cada geração tem de saber fazer com exigência.

Assim nascem diálogos geracionais e se partilham segredos únicos.

O movimento associativo desportivo traz consigo exemplos de cidadania e de identidade das regiões.

À falta de iniciativas institucionais (que as Associações Distritais de Futebol deveriam coordenar e incentivar, mas desvalorizam com o tempo e alguma egoísmo), cada clube, cada localidade, deveria criar movimento para convidar sócios, simpatizantes, atletas, dirigentes, atuais e do passado, para recolherem um património singular: fotos, equipamentos, bandeiras, troféus, bilhetes, cartões, recortes de jornais, memórias e tudo o que conseguissem recolher relativo ao clube onde vive ou viveu. Até entrevistas aos sócios fundadores, se existirem, e a antigos atletas, dirigentes e adeptos.

Esse espólio, identificado e com menção do seu possuidor, deveria ser exposto (na sede, na Junta de Freguesia, Câmara Municipal, ou outro que entendam mais adequado), com dia oficial para apresentação pública à comunidade. Desse acontecimento, além das referências da imprensa (local e nacional) poderia ser criado um vídeo/filme que permita divulgação nas redes sociais (para ter um destino mais universal e chegar aos nossos emigrantes e não só).

O nascimento de clubes representou um esforço e coragem meritória ao serviço da comunidade. Todos os clubes nasceram grandes: no querer, na ousadia, no amor à terra, na amizade.

Numa época em que os clubes milionários mundiais inundam o espaço informativo, pouca gente terá a noção da grandeza da tarefa de criar um novo clube nos tempos idos.

Uma grande parte do nascimento dos clubes, começou a intensificar-se nos finais da Monarquia e nos inícios da República.Tempos controversos, de grandes incertezas e sofrimento (que ironia as coincidências com a actualidade?!). Ao longo dos tempos, foram muitas as dificuldades, as diferenças de tratamento, mas o clube onde cada um se criou, nunca deixa de sero seu mundo inicial, das primeiras atitudes, de convívio que permitiu entender os outros e o valor do diálogo, sem vencedores nem vencidos.

Essas amizades voltam às memórias e damos conta que o “nosso” clube original merece um agradecimento e um dia para nos unirmos novamente e, em cada ano, termos um verdadeiro “dia do clube”.

O convívio entre gerações traz imensosbenefícios, uma tolerância inteligente e a capacidade para regressarem diálogos na nossa língua comum, sem aviltamentos, mas com afeto.

Não se trata de um regresso ao passado, mas antes, com a lição do passado, ganharmos competência para um futuro sem esquecimentos. Em conversas com netos e amigos, conseguimos viajar no tempo, sem tristezasmas com prazer, num entendimento alargado. Por isso, o movimento associativo desportivo (como de muitas outras áreas da nossa sociedade) merece que cuidemos dele como flor única, sem presunções mas com a humildade de estar rodeado de amigos que partilharam um mesmo sonho e o tornaram realidade.

Por vezes, a tendência do gigantismo das instituições que procuram mais poder, esquece que o mais importante é simples: diálogos com amizade.

Aceitem o desafio e quem sabe não ajudam a criar mais um dia para festejar: “O dia do meu primeiro clube”.

Experimentem e depois digam como foi.

Aníbal Styliano (Professor, Comentador)